Índice

🔥 DESTAQUES DA CURADORIA
26O Show Não Começa no Palco: Como Itaú e 30e Transformaram Música em Relacionamento 01Da eficiência ao poder de competir: o que as empresas brasileiras precisam entender sobre IA agora 02O Brasil acabou de entrar no jogo da IA com as peças que o mundo usa 45O clique morreu, mas a sua receita não precisa morrer junto 17A IA não toma decisões. Ela devolve tempo para o que importa: o relacionamento 03IA aberta ou IA controlada? O debate que o Brasil precisa ter e ainda não teve 27Ayrton Senna: o que marcas imortais sabem fazer que as outras ainda não entenderam 04Quando a IA vira infraestrutura, a pergunta deixa de ser “adotar?” e passa a ser “de quem é o controle?” 05A IA que você instalou não basta: o que separa as empresas que capturam valor das que ainda esperam o retorno 28Sua marca não fala com o Brasil. Ela fala para o Brasil. E o Brasil não está ouvindo. 51A faixa preta nunca é o fim: o que duas lendas do esporte ensinam sobre viver em alto rendimento 46Quando ninguém mais clica: o playbook da Nuvemshop para ser encontrada pela IA 52“Eu Queria Ser Grande”: O Que Rebeca Andrade Ensina Sobre Tetos que o Mundo Cria e Atletas que os Ignoram 39Pertencer é o novo consumir: o que CCXP e Riot Games ensinam sobre o futuro das marcas 18Relevância não se prevê, se escuta: a lição do Spotify para qualquer negócio
🤖 DE IA PARA INTELIGÊNCIA ORGANIZACIONAL
01Da eficiência ao poder de competir: o que as empresas brasileiras precisam entender sobre IA agora🔥 02O Brasil acabou de entrar no jogo da IA com as peças que o mundo usa🔥 03IA aberta ou IA controlada? O debate que o Brasil precisa ter e ainda não teve🔥 04Quando a IA vira infraestrutura, a pergunta deixa de ser “adotar?” e passa a ser “de quem é o controle?”🔥 05A IA que você instalou não basta: o que separa as empresas que capturam valor das que ainda esperam o retorno🔥 06Para conquistar o Brasil, a IA de voz precisou aprender a falar 07Sobra energia verde no Brasil para a era da IA. Falta o resto dos ingredientes. 08Muito investimento, pouco valor: o que separa quem só fala de IA de quem já colhe resultado 09“Aberto” não é o que você pensa: o que líderes e reguladores precisam entender sobre IA de código aberto 10Open source é a nova infraestrutura da inovação em IA 11O gargalo da IA não está no algoritmo. Está na cultura da empresa. 12Ainda não leem nossos pensamentos. Mas talvez esse seja apenas o começo. 13Quando a IA Escala Demais, o Que Sobrevive É o Que Tem Alma 14As empresas nunca investiram tanto em inteligência artificial. E, paradoxalmente, poucas conseguem provar o retorno desse investimento. O maior desafio da IA em 2026 não será implementá-la. Será extrair valor dela. 15Quanto mais inteligente a inteligência artificial se torna, mais valiosa se torna a criatividade humana. Na era da IA, o diferencial não está em ter respostas. Está em fazer as perguntas certas. 16Quando a execução vira commodity, o que do seu negócio ainda não pode ser clonado?
🇧🇷 MARKETING, BRANDING E BRASILIDADE
26O Show Não Começa no Palco: Como Itaú e 30e Transformaram Música em Relacionamento🔥 27Ayrton Senna: o que marcas imortais sabem fazer que as outras ainda não entenderam🔥 28Sua marca não fala com o Brasil. Ela fala para o Brasil. E o Brasil não está ouvindo.🔥 29Bauducco e Blue Man no WebSummit: como marcas brasileiras se tornaram parte da identidade cultural do país 30Sua marca precisa não interromper e sim virar experiência 31O brasileiro que conquistou o mundo: resiliência como vantagem competitiva global 32“Lá fora, o Brasil é um estado de espírito”, e três marcas estão engarrafando isso para o mundo 33O maior erro das marcas hoje? Interromper a cultura em vez de fazer parte dela. 3430 anos de Priceless: o que a Mastercard fixou e o que ela muda o tempo todo 35Nem a cerveja é atemporal: como a Heineken quebrou o algoritmo para reinventar a socialização 36Hoje, a reputação de uma empresa não é mais aquilo que ela diz sobre si mesma. É aquilo que milhares de consumidores dizem sobre ela todos os dias. O ativo mais valioso das marcas brasileiras já não está sob seu controle 37Em um mundo dominado por telas, marcas que não se movem correm o risco de parecer paradas no tempo. Motion não é acabamento. É identidade em movimento. 38Memória, não mídia: como o Burger King multiplica o que investe
📺 HIPERPERSONALIZAÇÃO, MÍDIA & ENTRETENIMENTO
17A IA não toma decisões. Ela devolve tempo para o que importa: o relacionamento🔥 18Relevância não se prevê, se escuta: a lição do Spotify para qualquer negócio🔥 19Confiança é a nova conversão: por que a hiperpersonalização se tornou central para crescer e atender melhor 20A hiperpersonalização não começa na tecnologia. Começa na pergunta certa. 21A verdade ainda existe. Mas cada vez menos gente sabe de onde ela vem 22A próxima vantagem competitiva das marcas não está nas ferramentas de IA. Está no universo que elas constroem 23O early adopter não assiste. Ele decide. Como o espectador pioneiro está redesenhando a cadeia do streaming na América Latina 24De espectadora a protagonista: como o branded entertainment aprendeu a falar brasileiro 25Personalizar melhor não basta: a lacuna que separa marketing de receita
🫂 COMUNIDADE, FANDOM & CREATOR ECONOMY
39Pertencer é o novo consumir: o que CCXP e Riot Games ensinam sobre o futuro das marcas🔥 40O feed perfeito está morto. Longa vida à bagunça. 41Postar agora ou nunca: o que um creator com 60 milhões de seguidores e um skatista com 48 fraturas ensinam sobre o ritmo do mundo 42De influenciadores a impérios de mídia: por que os criadores estão se tornando os novos estúdios de entretenimento 43Quando influência vira negócio: a nova moda brasileira nasce da curadoria, da tecnologia e da comunidade 44Andaimes, não roteiros: o erro que faz marcas desperdiçarem os creators que contratam
🏆 ESPORTE, RESILIÊNCIA & ALTA PERFORMANCE
51A faixa preta nunca é o fim: o que duas lendas do esporte ensinam sobre viver em alto rendimento🔥 52“Eu Queria Ser Grande”: O Que Rebeca Andrade Ensina Sobre Tetos que o Mundo Cria e Atletas que os Ignoram🔥 53Ligado ou desligado: como a On Running transformou a intencionalidade em sistema de marca
🛒 NOVA JORNADA DIGITAL: LIVE COMMERCE & GEO
45O clique morreu, mas a sua receita não precisa morrer junto🔥 46Quando ninguém mais clica: o playbook da Nuvemshop para ser encontrada pela IA🔥 47A volta da fricção: como se diferenciar com o sentimento numa era em que tudo pode ser otimizado 48Gosto sem fronteiras, compra feita por IA e a nova torcida: as 4 tendências que estão reescrevendo o consumo 49Se abriu a loja, abriu a loja: por que o live commerce parou de ser ação pontual e virou canal de expansão 50Varejar é fazer parte da vida das pessoas
ApresentaCuradoria FFXPERIENCE
Web Summit
Coletânea de Artigos · Edição 2026
53 artigos com curadoria FFX
Rio de Janeiro · Brasil
Curadoria Exclusiva FFXPERIENCE
Curadores: Mariana Carvalho · Arthur Graziadio · Natália Schifino
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Quem é a FFX

Somos uma plataforma brasileira de curadoria em inovação, varejo e transformação de negócios.

Criamos missões internacionais, jornadas de aprendizagem e experiências imersivas que ajudam líderes e empresas a ampliar repertório, antecipar movimentos e transformar conhecimento em ação.

Acreditamos que grandes mudanças acontecem quando saímos do nosso contexto habitual, conhecemos novas realidades e nos conectamos com pessoas que enxergam o mundo por outros ângulos. Por isso, percorremos os ecossistemas mais inovadores do mundo em busca de sinais, ideias, modelos de negócio e transformações que possam inspirar quem lidera.

Não somos uma agência de viagens. Também não somos uma consultoria tradicional. Somos uma plataforma de curadoria criada para transformar pessoas e, a partir delas, transformar negócios.

A FFX nasceu da união de três trajetórias complementares: Mariana Carvalho, Guga Schifino e Tiago Mello. Juntos, construíram uma história conectada ao varejo, à inovação, ao comportamento de consumo e ao desenvolvimento de lideranças, sempre com um olhar atento para as transformações que moldam mercados e pessoas. Ao redor dos fundadores, reunimos uma rede de curadores especialistas e uma equipe apaixonada por criar experiências que geram aprendizado, conexões relevantes e impacto real.

Há mais de duas décadas acompanhamos de perto os principais movimentos do varejo, da tecnologia e da inovação global. Estamos presentes nos grandes encontros internacionais, como a NRF, em Nova York, o Web Summit, em Lisboa e no Rio de Janeiro, além de realizarmos imersões frequentes nos ecossistemas mais inovadores da Ásia.

Nossa curadoria não começa quando a viagem inicia e não termina quando ela acaba. Ela acontece todos os dias. Pesquisamos, visitamos empresas, conversamos com especialistas, acompanhamos tendências e traduzimos tudo isso para a realidade de quem toma decisões no Brasil. Mais do que mostrar o que está acontecendo no mundo, ajudamos nossos participantes a compreender por que isso importa, quais oportunidades estão surgindo e como transformar conhecimento em vantagem competitiva.

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Curadoria FFX
Mari Carvalho
Mari Carvalho
Sócia FFX

Sócia e cofundadora da FFX, referência em curadoria de varejo e missões internacionais, e sócia da Ancar Shopping Centers, onde liderou por 21 anos as áreas de marketing e produto. Com ampla experiência em curadoria para eventos como NRF (EUA, Singapura e França) e Web Summit (Lisboa e Rio), realiza também missões executivas para a Ásia. Participa da NRF há mais de 20 anos, é professora, mentora e palestrante nacional e internacional.

Arthur Graziadio
Arthur Graziadio
Head de Marketing e Novos Negócios na FFX

Engenheiro apaixonado por comunicação, brand experience e liderança. Advisor e head as a service de marketing, growth e desenvolvimento de negócios. Curador com foco em comportamento de consumo em congressos internacionais como NRF e Web Summit. Possui MBA pela PUCRS e especializações em administração, geração de valor e inovação. Voluntário na Junior Achievement e no Green Building Council Brasil.

Natália Schifino
Natália Schifino
Curadora FFX

Gestora de Customer Marketing na Insider One, com foco em tendências de tecnologia, comportamento de consumo e transformações intergeracionais. Já liderou experiências imersivas em eventos globais como Web Summit e NRF e em missões internacionais com visitas a empresas como ByteDance, Alibaba, Huawei, Tencent e BYD. Palestrante internacional e presença em podcasts, também atua como curadora na FFX. É formada em Administração pela UFRGS e tem mais de cinco anos de experiência em comunidades, engajamento e encantamento.

Sobre o Web Summit Rio 2026

O Web Summit Rio é a edição brasileira de um dos maiores encontros de tecnologia, inovação e negócios do mundo. Realizado no Riocentro, no Rio de Janeiro, reúne fundadores, líderes, investidores e criadores para mapear o que de fato está se movendo no mercado: não o que as empresas dizem que vão fazer, mas o que já está acontecendo, com custos reais e decisões tomadas.

Esta coletânea reúne a curadoria da FFX com três objetivos: organizar o conteúdo, destacar o que é mais relevante e facilitar a aplicação prática no contexto brasileiro.

53 artigos cobrindo: IA & Inteligência Organizacional · Marketing & Brasilidade · Hiperpersonalização & Mídia · Comunidade & Creator Economy · Esporte & Alta Performance · Live Commerce & GEO

Os números desta edição
Esta edição quebrou todos os recordes do Web Summit Rio.
40.287
Participantes
34.552 no ano passado
1.572
Startups
688
Investidores
133
Meetups
479
Palestrantes
720
Jornalistas
+R$ 2,46 bi
Captados por empresas que passaram pelo Web Summit Rio desde 2023
Curadoria FFX · Síntese

Os 6 Take Aways que ficaram com a gente depois do Web Summit Rio 2026

Foram quatro dias de evento. Mais de 50 palestras acompanhadas pela curadoria da FFX, dezenas de entrevistas, encontros com executivos, empreendedores, creators, atletas e especialistas que estão ajudando a moldar o futuro dos negócios.

Ao longo das próximas páginas, você encontrará os 53 artigos que produzimos durante o Web Summit Rio 2026.

Nem sempre os temas mais importantes estavam nos maiores palcos. Nem sempre surgiram nas apresentações mais comentadas. Mas quando olhamos para o conjunto da obra, algumas mensagens ficaram impossíveis de ignorar.

Estes são os 6 Take Aways que levamos conosco do Web Summit Rio 2026.


🤖Take Away 01

Da Inteligência Artificial à Inteligência Organizacional

Se houve um tema dominante nesta edição, ele foi a Inteligência Artificial. Mas talvez a principal surpresa tenha sido perceber que os debates mais interessantes não eram sobre tecnologia. Eram sobre pessoas.

Executivos da Microsoft, Google Cloud, IBM, NVIDIA, Claro e CI&T falaram sobre agentes, infraestrutura, modelos e produtividade. Mas, cedo ou tarde, todas as conversas acabavam chegando ao mesmo lugar: cultura organizacional.

Priscyla Laham lembrou que a maior inteligência de uma empresa continua sendo sua força de trabalho. Leandro Angelo, da CI&T, provocou ao afirmar que apenas uma pequena parcela das organizações consegue capturar valor real da IA generativa. Já Marcio Aguiar, da NVIDIA, trouxe serenidade para um mercado ansioso ao lembrar que a revolução da IA não acontece em um único momento, mas em ondas sucessivas.

O que ouvimos repetidamente ao longo do evento foi que a tecnologia amadureceu mais rápido do que as organizações.

A discussão deixou de ser como implementar IA e passou a ser como criar empresas capazes de aprender, decidir e operar em um ambiente radicalmente diferente.

Talvez o verdadeiro desafio não esteja na Inteligência Artificial em si, mas na capacidade das organizações de evoluírem na mesma velocidade que ela.

Reflexão para sua organização

Quanto do investimento destinado à IA está sendo acompanhado por investimentos equivalentes em capacitação, liderança, cultura e novas formas de trabalho?

📊Take Away 02

O Paradoxo do Retorno

Existe uma pergunta que apareceu em diferentes palcos, setores e contextos ao longo do Web Summit: por que nunca tivemos tanta tecnologia disponível e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para capturar valor dela?

O tema surgiu nas discussões sobre IA, marketing, transformação digital, experiência do cliente e produtividade. E chamou atenção porque foi tratado de forma surpreendentemente honesta.

Victor Travalon, da Kraft Heinz, compartilhou os desafios de transformar experimentação em resultado mensurável. Thiago Albuquerque questionou por que, mesmo com mensagens mais inteligentes e personalizadas, retenção e crescimento continuam sendo temas tão complexos para as empresas. Em diferentes trilhas, a sensação era parecida: a corrida tecnológica avançou mais rápido do que a capacidade de execução das organizações.

A impressão que ficou é que estamos entrando em uma nova fase da transformação digital. A fase da adoção ficou para trás. Agora começa a fase do retorno.

A vantagem competitiva está migrando para quem consegue conectar tecnologia, cultura, estratégia e execução em uma mesma equação.

Reflexão para sua organização

As iniciativas de transformação possuem métricas claras de geração de valor ou ainda estão sendo avaliadas principalmente por volume de projetos, pilotos e ferramentas implementadas?

🇧🇷Take Away 03

Quando tudo é otimizado, o diferencial volta para emoção, sensorialidade e memória

Talvez um dos movimentos mais interessantes do evento tenha sido perceber quantas vezes palavras como emoção, memória, pertencimento e conexão apareceram em um encontro dominado por tecnologia.

Durante anos, o mercado buscou eficiência. Investimos em automação, personalização, inteligência de dados e otimização de jornadas. E tudo isso continua importante.

Mas algo parece estar mudando. Quando todos têm acesso às mesmas ferramentas, eficiência deixa de ser diferencial. Ela passa a ser expectativa.

Alexandre Martinez, da On, falou sobre a importância de construir comunidades em vez de interrompê-las. André Britto, da Bauducco, lembrou que emoção gera memória. Pedro Barbosa, do Burger King, reforçou que o que multiplica investimento não é apenas alcance, mas lembrança.

Liel Miranda mostrou como marcas brasileiras como Havaianas, FARM Rio e Granado conseguiram transformar brasilidade em desejo global não por atributos funcionais, mas por tudo aquilo que representam.

Em um cenário onde eficiência se tornou obrigação, significado, emoção e memória voltam a ocupar o centro da conversa.

Reflexão para sua organização

O que sua marca oferece hoje que vai além do produto, do serviço ou da conveniência?

🫂Take Away 04

Comunidade, fandom e participação cultural

Uma palavra apareceu tantas vezes ao longo do evento que seria impossível ignorá-la: pertencimento. Ela surgiu nos painéis de games, creators, esportes, entretenimento, varejo e branding.

Diego Martinez, da Riot Games, defendeu que comunidade não é uma ferramenta de conversão, mas um espaço onde pessoas constroem identidade. Beto Fabri mostrou como a CCXP se transformou em um fenômeno cultural justamente por entender essa dinâmica. Patricia Muratori, do YouTube, lembrou que creators deixaram de construir apenas audiência para construir comunidades, fãs e negócios.

O mais interessante é que esse raciocínio já não está restrito ao entretenimento. Marcas, plataformas e empresas de diferentes setores começam a perceber que a relação com seus públicos não pode mais ser resumida a uma transação. As pessoas querem participar. Querem se reconhecer. Querem sentir que fazem parte de algo.

Talvez por isso uma das grandes disputas dos próximos anos não seja apenas por market share, mas por relevância cultural.

Reflexão para sua organização

Sua marca possui consumidores ou possui pessoas que realmente se sentem parte dela?

🛒Take Away 05

Nova jornada de compra: SEO, GEO e a fragmentação dos canais

Durante muito tempo, a jornada digital parecia relativamente previsível. O consumidor fazia uma busca, encontrava um resultado, acessava um site e seguia sua decisão. Hoje essa lógica já não explica a realidade.

Neil Patel chamou atenção para o crescimento das buscas ao mesmo tempo em que o tráfego dos sites diminui. Bernardo Brandão, da Nuvemshop, mostrou como as respostas geradas por IA e as buscas sem clique estão mudando a dinâmica da descoberta digital. Gabriela Comazzetto trouxe exemplos concretos de como social commerce e live commerce estão transformando plataformas de conteúdo em canais permanentes de venda.

O que está acontecendo é maior do que uma mudança de ferramenta. A descoberta pode acontecer no TikTok. A validação pode vir de um creator. A resposta pode ser entregue por uma IA. E a compra pode acontecer em um ambiente completamente diferente.

A jornada continua existindo. Mas ela está cada vez menos linear.

Reflexão para sua organização

Você sabe hoje onde seus clientes descobrem sua marca, em quem confiam para validá-la e em quais ambientes tomam suas decisões de compra?

🏆Take Away 06

O que atletas e esportes ensinam para as empresas

Em um evento recheado de discussões sobre inovação, algumas das reflexões mais marcantes vieram de histórias profundamente humanas.

Rebeca Andrade emocionou ao lembrar da menina que saía de casa sem dinheiro para o ônibus, mas carregava um sonho muito maior do que as circunstâncias permitiam enxergar. Fernanda Keller e Kyra Gracie compartilharam histórias de resiliência, disciplina e reinvenção em ambientes que, durante muito tempo, disseram que elas não pertenciam àquele lugar.

O interessante é como esses relatos dialogam diretamente com os desafios enfrentados pelas empresas atualmente. Transformação exige consistência. Aprendizado exige repetição. Resultados exigem tempo.

Alexandre Martinez, da On, reforçou essa visão ao mostrar como propósito, disciplina e clareza de intenção fazem parte da construção de uma marca da mesma forma que fazem parte da trajetória de um atleta.

Em um mundo obcecado por velocidade, o esporte trouxe uma lembrança importante: alta performance não nasce de momentos extraordinários. Ela é construída todos os dias.

Índice dos Artigos
53 artigos · 6 take aways · curadoria FFX · toque para navegar
As 6 trilhas desta edição · toque para navegar
🤖 TAKE AWAY 1 · DA IA À INTELIGÊNCIA ORGANIZACIONAL
01Da eficiência ao poder de competir: o que as empresas brasileiras precisam entender sobre IA agora
Milena LealMilena Leal & Graciela Kumruian·Country Manager · Google Cloud Brasil
02O Brasil acabou de entrar no jogo da IA com as peças que o mundo usa
Rodrigo DuclosRodrigo Duclos & Marcio Aguiar·Chief Innovation & Digital Officer · Claro
03IA aberta ou IA controlada? O debate que o Brasil precisa ter e ainda não teve
Bruno LewickiBruno Lewicki·Head de Public Policy, América Latina · OpenAI
04Quando a IA vira infraestrutura, a pergunta deixa de ser “adotar?” e passa a ser “de quem é o controle?”
Nelson LeoniNelson Leoni & Marcio Aguiar·CEO · WideLabs
05A IA que você instalou não basta: o que separa as empresas que capturam valor das que ainda esperam o retorno
Priscyla LahamPriscyla Laham·Presidente, Brasil · Microsoft
06Para conquistar o Brasil, a IA de voz precisou aprender a falar
Brunno SantosBrunno Santos·Head Brasil · ElevenLabs
07Sobra energia verde no Brasil para a era da IA. Falta o resto dos ingredientes.
Alessandro LombardiAlessandro Lombardi & Victor Arnaud·Fundador · Elea Data Centers
08Muito investimento, pouco valor: o que separa quem só fala de IA de quem já colhe resultado
Nataliya YarovinskaNataliya Yarovinska & Flavio Reis·CCO · SendPulse
09“Aberto” não é o que você pensa: o que líderes e reguladores precisam entender sobre IA de código aberto
Rodrigo DuclosRodrigo Duclos & Fábio de Sá Cesnik·Chief Innovation & Digital Officer · Claro
10Open source é a nova infraestrutura da inovação em IA
Marcio AguiarMarcio Aguiar·Diretor Executivo, América Latina · NVIDIA
11O gargalo da IA não está no algoritmo. Está na cultura da empresa.
Leandro AngeloLeandro Angelo·Global CTIO · CI&T
12Ainda não leem nossos pensamentos. Mas talvez esse seja apenas o começo.
Daniele De MariDaniele De Mari & David Pares·Cofundadora & CEO · Neurogram
13Quando a IA Escala Demais, o Que Sobrevive É o Que Tem Alma
Rodrigo VicentiniRodrigo Vicentini·General Manager, América Latina · Deezer
14As empresas nunca investiram tanto em inteligência artificial. E, paradoxalmente, poucas conseguem provar o retorno desse investimento. O maior desafio da IA em 2026 não será implementá-la. Será extrair valor dela.
Laura KroeffLaura Kroeff & Victor Travalon·Box1824
15Quanto mais inteligente a inteligência artificial se torna, mais valiosa se torna a criatividade humana. Na era da IA, o diferencial não está em ter respostas. Está em fazer as perguntas certas.
Mari PinudoMari Pinudo·Country Manager, Brasil · Adobe
16Quando a execução vira commodity, o que do seu negócio ainda não pode ser clonado?
Oli MivalOli Mival·VP, Product Strategy, AI Innovation & Experience · Picsart
📊 TAKE AWAY 2 · O PARADOXO DO RETORNO
17A IA não toma decisões. Ela devolve tempo para o que importa: o relacionamento
Tarciana MedeirosTarciana Medeiros & Marcelo Braga·Presidente · Banco do Brasil
18Relevância não se prevê, se escuta: a lição do Spotify para qualquer negócio
Carolina AlzuguirCarolina Alzuguir & Bryan Johnson·Head of Music, Brasil · Spotify
19Confiança é a nova conversão: por que a hiperpersonalização se tornou central para crescer e atender melhor
Roberta SavatteroRoberta Savattero & Sandra Montes·CMO · Arco Educação
20A hiperpersonalização não começa na tecnologia. Começa na pergunta certa.
Sandra MontesSandra Montes & Roberta Savattero·CMO · Olist
21A verdade ainda existe. Mas cada vez menos gente sabe de onde ela vem
Julie PaceJulie Pace & Ayesha Chowdhury·Executive Editor · Associated Press
22A próxima vantagem competitiva das marcas não está nas ferramentas de IA. Está no universo que elas constroem
Tiago LaraTiago Lara & Eduardo Ferreira·Head of Brand Excellence · Nubank
23O early adopter não assiste. Ele decide. Como o espectador pioneiro está redesenhando a cadeia do streaming na América Latina
Adriana NavesAdriana Naves & João Worcman·Head de Distribuição, América Latina · Roku
24De espectadora a protagonista: como o branded entertainment aprendeu a falar brasileiro
Claudine BaymaClaudine Bayma & Mare Leal·General Manager · Kwai Brasil
25Personalizar melhor não basta: a lacuna que separa marketing de receita
Thiago AlbuquerqueThiago Albuquerque·Chief Strategy & Revenue Officer · Snoonu
🇧🇷 TAKE AWAY 3 · EMOÇÃO, SENSORIALIDADE E MEMÓRIA
26O Show Não Começa no Palco: Como Itaú e 30e Transformaram Música em Relacionamento
Rodrigo MontesanoRodrigo Montesano & Pepeu Correa·Head of Brand Experiences & Connections · Itaú
27Ayrton Senna: o que marcas imortais sabem fazer que as outras ainda não entenderam
Ana SimõesAna Simões & Renato Pezzotti·CMO · Senna Brands
28Sua marca não fala com o Brasil. Ela fala para o Brasil. E o Brasil não está ouvindo.
Marcelo ZimetMarcelo Zimet & Deborah Secco·Presidente · Grupo L’Oréal Brasil
29Bauducco e Blue Man no WebSummit: como marcas brasileiras se tornaram parte da identidade cultural do país
André BrittoAndré Britto & Sharon Azulay·CMO · Bauducco
30Sua marca precisa não interromper e sim virar experiência
Diego DzodanDiego Dzodan & Fernanda Verdi·Gerente Geral, América Latina · Roblox
31O brasileiro que conquistou o mundo: resiliência como vantagem competitiva global
Marcello GonçalvesMarcello Gonçalves, Izabel Gallera & Marcelo Lima·Cofundador & Sócio Sênior · DOMO.VC
32“Lá fora, o Brasil é um estado de espírito”, e três marcas estão engarrafando isso para o mundo
Liel MirandaLiel Miranda & Sissi Freeman·CEO Global · Alpargatas
33O maior erro das marcas hoje? Interromper a cultura em vez de fazer parte dela.
Alexandre MartinezAlexandre Martinez & Cléber Rodrigues·Head of Marketing Brasil · On
3430 anos de Priceless: o que a Mastercard fixou e o que ela muda o tempo todo
Taciana LopesTaciana Lopes·VP de Marketing e Comunicação · Mastercard Brasil
35Nem a cerveja é atemporal: como a Heineken quebrou o algoritmo para reinventar a socialização
Cecília Bottai MondinoCecília Bottai Mondino·VP de Marketing · Heineken Brasil
36Hoje, a reputação de uma empresa não é mais aquilo que ela diz sobre si mesma. É aquilo que milhares de consumidores dizem sobre ela todos os dias. O ativo mais valioso das marcas brasileiras já não está sob seu controle
Patricia CansiPatricia Cansi·COO · Reclame AQUI
37Em um mundo dominado por telas, marcas que não se movem correm o risco de parecer paradas no tempo. Motion não é acabamento. É identidade em movimento.
Thales MunizThales Muniz·Associate Motion Director · Porto Rocha
38Memória, não mídia: como o Burger King multiplica o que investe
Pedro BarbosaPedro Barbosa·CMO · Burger King Brasil (ZAMP)
🫂 TAKE AWAY 4 · COMUNIDADE, FANDOM E PARTICIPAÇÃO CULTURAL
39Pertencer é o novo consumir: o que CCXP e Riot Games ensinam sobre o futuro das marcas
Diego MartinezDiego Martinez & Beto Fabri·Head of Product Publishing, Américas · Riot Games
40O feed perfeito está morto. Longa vida à bagunça.
Juliette FreireJuliette Freire & Fábio Porchat·Artista & Creator
41Postar agora ou nunca: o que um creator com 60 milhões de seguidores e um skatista com 48 fraturas ensinam sobre o ritmo do mundo
Federico HuFederico Hu (Panda Boi) & Bob Burnquist·Creator · +60M inscritos
42De influenciadores a impérios de mídia: por que os criadores estão se tornando os novos estúdios de entretenimento
Patricia MuratoriPatricia Muratori & Igor Coelho (Igor 3K)·Managing Director, América Latina · YouTube
43Quando influência vira negócio: a nova moda brasileira nasce da curadoria, da tecnologia e da comunidade
João AlmendraJoão Almendra & Caroline Celico·CEO · Icomm Group
44Andaimes, não roteiros: o erro que faz marcas desperdiçarem os creators que contratam
Jay RichardsJay Richards·Managing Director · Disrupt
🛒 TAKE AWAY 5 · NOVA JORNADA: SEO, GEO E FRAGMENTAÇÃO
45O clique morreu, mas a sua receita não precisa morrer junto
Neil PatelNeil Patel·Cofundador · NP Digital
46Quando ninguém mais clica: o playbook da Nuvemshop para ser encontrada pela IA
Bernardo BrandãoBernardo Brandão·CMO · Nuvemshop
47A volta da fricção: como se diferenciar com o sentimento numa era em que tudo pode ser otimizado
Daniela DantasDaniela Dantas·Global Chief Customer Officer · WGSN
48Gosto sem fronteiras, compra feita por IA e a nova torcida: as 4 tendências que estão reescrevendo o consumo
Grazi SbardelottoGrazi Sbardelotto·Partner & Co-CEO · Pmweb (grupo WPP)
49Se abriu a loja, abriu a loja: por que o live commerce parou de ser ação pontual e virou canal de expansão
Gabriela ComazzettoGabriela Comazzetto & Victoria Tomaz·Fundadora · Play2Shop
50Varejar é fazer parte da vida das pessoas
Camila NunesCamila Nunes & Cecília Bottai Mondino·CMO · Amazon Brasil
🏆 TAKE AWAY 6 · O QUE ESPORTES ENSINAM ÀS EMPRESAS
51A faixa preta nunca é o fim: o que duas lendas do esporte ensinam sobre viver em alto rendimento
Fernanda KellerFernanda Keller & Kyra Gracie·Triatleta & Fundadora · Instituto Fernanda Keller
52“Eu Queria Ser Grande”: O Que Rebeca Andrade Ensina Sobre Tetos que o Mundo Cria e Atletas que os Ignoram
Rebeca AndradeRebeca Andrade·Medalhista Olímpica de Ouro
53Ligado ou desligado: como a On Running transformou a intencionalidade em sistema de marca
Alexandre MartinezAlexandre Martinez·Head of Marketing Brasil · On
ARTIGO 1 · CommerceSummit · AI · DigitalTransformation · Leadership
🔥 Destaque

Da eficiência ao poder de competir: o que as empresas brasileiras precisam entender sobre IA agora

Milena Leal
Milena LealCountry Manager · Google Cloud Brasil
Graciela Kumruian
Graciela KumruianCEO · Netshoes

Se você não souber lidar com a IA, provavelmente você vai ser mandado embora.

A frase é de Milena Leal, Country Manager do Google Cloud no Brasil, e resume com precisão o tom do painel que reuniu, no Web Summit Rio 2026, duas executivas que já têm respostas concretas para as perguntas que ainda tiram o sono de muitos CEOs.

Mediado por Luciana Magalhães, correspondente da Reuters, o encontro entre Milena e Graciela Kumruian, CEO da Netshoes desde 2023, não foi sobre o futuro da inteligência artificial. Foi sobre o presente, as decisões já tomadas, os custos reais e os aprendizados que raramente aparecem nos press releases.

Graciela foi direta sobre o estágio em que a Netshoes se encontra. A IA já permeia toda a jornada do cliente, da busca ao pós-venda, com personalização em tempo real baseada em comportamento. “Quem entrar pela primeira vez vai ter uma navegação. À medida que a gente vai entendendo o comportamento, a jornada vai ficando personalizada.” O objetivo, como ela definiu, é tratar o único no meio do massivo.

> “A IA traz qualidade, assertividade, além da escala e eficiência.”

Mas operar em larga escala exige governança. E esse foi o ponto em que as duas executivas mais convergiram: usar IA sem estrutura é um risco, não uma vantagem. A Netshoes estabeleceu pilares claros, que vão da transparência no consentimento do cliente à coleta inteligente de dados. “Dado custa caro. Armazenar inteligência artificial também é caro. Colete só o que você realmente vai usar”, disse Graciela, com a objetividade de quem já pagou para aprender.

Quem entrar pela primeira vez vai ter uma navegação. À medida que a gente vai entendendo o comportamento, a jornada vai ficando personalizada.

Milena trouxe o contraponto estrutural. O Google Cloud lançou uma plataforma voltada justamente para empresas que querem escalar o uso de agentes de IA com rastreabilidade e controle de permissões. A preocupação não é com o amanhã distópico: é com colaboradores usando ferramentas gratuitas e enviando dados sensíveis da empresa sem qualquer governança corporativa. “O processo não pode ser ingestado. As tecnologias estão aí para nos ajudar.”

> “Uma plataforma que ajuda as empresas nisso: rastreabilidade, orquestração, governança de todo esse processo, mas ao mesmo tempo torna tudo pronto pra todo mundo.”

Na questão do custo, Milena foi clara: a IA está ao alcance de todos, mas a arquitetura mal planejada pode transformar a oportunidade em problema. Ela citou o caso real de um cliente em que o custo de tokens superou o custo de infraestrutura, por falta de atenção ao desenho técnico desde o início. “O custo hoje não é um problema, mas ele pode vir a ser se as empresas não tomarem cuidado.”

A IA traz qualidade, assertividade, além da escala e eficiência.

Sobre o impacto no mercado de trabalho, o consenso foi pragmático: as funções repetitivas e de análise de volume serão absorvidas pela IA, mas o processo criativo permanece humano. O que muda é a exigência de adaptação. Graciela criou na Netshoes um grupo chamado Acelera IA, composto por colaboradores de diferentes áreas que testam, aplicam e disseminam casos práticos internamente, quebrando o medo pelo exemplo.

Para quem ainda está no ponto de partida, Graciela organizou o raciocínio em três movimentos: escolher bem o primeiro projeto com base no valor que ele gera, fazer as perguntas certas antes de implementar, e redefinir os processos do zero com IA, não apenas automatizar os existentes. “Não olhe a IA como algo que você vai automatizar um processo existente. Você precisa redefinir o processo com o uso da IA.”

✦ Aprendizados que ficam
  • Governança não é obstáculo ao uso da IA. É o que torna o uso sustentável. Sem rastreabilidade, controle de acesso e coleta inteligente de dados, a escala vira risco.
  • O custo da IA é gerenciável, mas exige atenção à arquitetura desde o início. Projetos sem planejamento técnico podem gerar custos maiores do que a infraestrutura convencional.
  • A mudança cultural precede a mudança tecnológica. Adoção massiva, capacitação interna e exemplos práticos dentro da organização são o que transformam a IA em vantagem competitiva real.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 2 · CorporateInnovationSummit · AISummit · IASoberana · Infraestrutura
🔥 Destaque

O Brasil acabou de entrar no jogo da IA com as peças que o mundo usa

Rodrigo Duclos
Rodrigo DuclosChief Innovation & Digital Officer · Claro
Marcio Aguiar
Marcio AguiarDiretor Executivo, América Latina · NVIDIA
Mara Luquet
Mara LuquetCEO · MyNews

O jogo está sempre recomeçando. A tecnologia cria novas técnicas, novas entradas, novos pontos de partida.

Quando Rodrigo Duclos, Chief Innovation & Digital Officer da Claro, e Marcio Aguiar, Diretor Executivo da NVIDIA para a América Latina, subiram ao palco principal do Web Summit Rio, o anúncio que carregavam parecia técnico à primeira vista: GPUs, computação acelerada, certificação de infraestrutura. Mas a tradução era outra. A Claro tornou-se a primeira empresa da América Latina a integrar o programa NVIDIA Cloud Partner para processamento de IA, em parceria com a Oracle. Pela primeira vez, uma startup no interior do Piauí ou um pesquisador em Belém podem acessar o mesmo poder computacional que empresas globais, pagando em reais, sem depender de infraestrutura estrangeira.

A pergunta que o painel se propôs a responder não muito mais estratégica do que técnica: o que acontece com um país quando esse poder chega nas mãos de quem até hoje não tinha acesso a ele?

Para Duclos, a resposta passa menos por adotar ferramentas do que por criar diferenciação. A visão que ele articula é a de um ecossistema onde a inventividade cultural brasileira encontra, finalmente, a infraestrutura que ela merecia: não apenas para usar modelos de IA existentes, mas para melhorá-los, para construir sobre eles, para resolver problemas locais de formas que nenhuma empresa do Vale do Silício pensaria primeiro. A Claro, nesse cenário, deixa de ser apenas operadora de telecomunicações e passa a se posicionar como um habilitador de computação de alta performance, adicionando uma nova camada de valor à sua base de dezenas de milhões de clientes.

Aguiar trouxe a perspectiva de quem acompanha o crescimento da demanda na região. Para a NVIDIA, o interesse no Brasil e no restante da América Latina não é especulativo: é real, mensurável e crescendo acima de 100% ao ano em programas de capacitação como o Developer, o Inception e o Deep Learning Institute. No debate, ficou claro que o tamanho da empresa nem sempre reflete o estágio de adoção: há muitas organizações de grande porte operando com estrutura enxuta de IA, o que torna a janela atual ainda mais relevante para quem quer sair na frente. Aguiar fez questão de desmistificar a narrativa de que quem ainda não começou perdeu o trem. “O jogo está sempre recomeçando. A tecnologia cria novas técnicas, novas entradas, novos pontos de partida.” A corrida por adoção de IA, segundo ele, não tem um vencedor fixo: as grandes empresas de hoje também estão aprendendo.

O pano de fundo do painel era mais amplo do que a parceria em si. Duclos e Aguiar tocaram em algo que raramente aparece com clareza nos debates de infraestrutura: a

soberania começa pelos dados. A IA que vale é a que foi treinada com dados de qualidade, e o Brasil tem uma vantagem que não se compra em nenhum data center estrangeiro: a quantidade e a diversidade dos dados gerados por uma população de mais de 200 milhões de pessoas. A Claro, com sua escala de clientes, carrega um ativo estratégico que vai muito além da conectividade.

O painel teve um encerramento fora do script institucional. Os finalistas do Campus Mobile, programa do Instituto Claro já em sua 14ª edição, subiram ao palco principal do Web Summit Rio pela primeira vez na história do programa. São jovens de todo o Brasil, com projetos que vão de realidade aumentada para o ensino fundamental a soluções de recrutamento inclusivo, construídos para ter impacto social real. São 18 finalistas, dos quais 61% são mulheres e 51% representam o Nordeste. Naquele momento, a narrativa de democratização da IA deixou de ser abstrata. A infraestrutura estava no palco. E quem vai construir sobre ela também.

O movimento que Claro e NVIDIA protagonizam no Brasil reflete uma mudança estrutural mais ampla: a soberania tecnológica deixou de ser conversa de política pública e entrou na agenda dos líderes empresariais. Quem controla o processamento, controla o modelo. Quem controla o modelo, controla o dado. E quem controla o dado, no longo prazo, controla a vantagem competitiva. Para os CEOs presentes no Riocentro naquela tarde, a mensagem era direta: a janela para construir essa posição no Brasil está aberta, mas ela não ficará aberta para sempre.

✦ Aprendizados que ficam
  • A Claro tornou-se a primeira empresa da América Latina a ser certificada como NVIDIA Cloud Partner para processamento de IA, criando uma plataforma de computação soberana disponível em reais para empresas de qualquer tamanho no Brasil.
  • A democratização da infraestrutura de IA não é um projeto social, é uma decisão de negócio: a base de dados e de clientes de quem entra agora determina quem terá vantagem competitiva na próxima rodada.
  • Não existe “tarde demais” em IA. A tecnologia continua criando novos pontos de entrada, e o diferencial competitivo não está em ter começado primeiro, mas em combinar infraestrutura, dados de qualidade e criatividade local.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 3 · AISummit · Latam · Regulação · OpenAI
🔥 Destaque

IA aberta ou IA controlada? O debate que o Brasil precisa ter e ainda não teve

Bruno Lewicki
Bruno LewickiHead de Public Policy, América Latina · OpenAI

O Brasil já é o terceiro maior mercado mundial em número de usuários da OpenAI e o segundo em desenvolvedores.

A frase de Bruno Lewicki, Head de Public Policy da OpenAI para a América Latina, soou como um dado que desmonta o argumento de que o país ainda está assistindo de fora à revolução da inteligência artificial. O Brasil está dentro. A questão é se está no lugar certo dentro.

Foi com essa tensão que Luciana Magalhães, correspondente da Reuters, mediou um dos painéis mais densos do Web Summit Rio 2026: uma conversa entre Lewicki e Ronaldo Lemos, advogado especialista em tecnologia, propriedade intelectual e direitos digitais, e arquiteto jurídico do Marco Civil da Internet. Dois personagens com visões complementares mas com foco distinto: um representa a empresa que está remodelando o trabalho, o aprendizado e a criação na América Latina; o outro representa quem pensa os limites e as responsabilidades dessa transformação.

O pano de fundo era o projeto de lei de regulação de IA que tramita no Brasil, e a pergunta central, implícita o tempo todo: regulação para quem?

Entre o propositivo e o paralisante

Lewicki destacou que a inteligência artificial já está presente na América Latina há anos, do chatbot de serviços públicos de Buenos Aires ao sistema de diagnóstico de diabetes com machine learning no Chile. O que muda agora não é a presença da tecnologia, mas a escala e a velocidade com que ela se integra ao cotidiano. E o Brasil, segundo ele, está na vanguarda: programas como o Rio AIC e iniciativas universitárias como a TecGraf da PUC-Rio compõem um ecossistema que “empilha tijolos” para que a IA chegue ao maior número de pessoas.

Mas Lemos trouxe o contraponto necessário. Para ele, o PL de regulação de IA, ainda em versão incerta já que a proposta original foi retirada e o texto definitivo ainda não foi reapresentado, parece ter sido “escalado com oito ou nove zagueiros e um atacante.” Muita defesa, pouca proposta. A crítica não é contra a regulação em si, ele é explícito em dizer que ter leis atualizadas é fundamental, mas contra uma lógica que regula por restrição em vez de regular por fomento.

“Regulação de IA toca em política industrial”, afirmou Lemos, citando o Vietnã como exemplo de país que, por não querer depender nem dos EUA nem da China, construiu uma legislação de IA que estimula desenvolvimento local e já colhe resultados: a economia cresce 8% ao ano e o país se tornou grande exportador de tecnologia. A analogia não foi casual. É o oposto do que o Brasil corre o risco de fazer.

escalado com oito ou nove zagueiros e um atacante.

O problema do alinhamento e a pergunta que ninguém sabe responder

Um dos momentos mais agudos do painel foi quando Lemos entrou na questão do alinhamento. Além dos guardrails internos que impedem os modelos de responder a pedidos extremos, há uma dimensão mais complexa: a IA que você usa está alinhada aos seus interesses como usuário? Aos interesses coletivos? Ou a interesses que você nem conhece?

“Os modelos estão ficando cada vez mais capazes. O papel do ser humano no treinamento começa a diminuir.” É um modelo capaz que já escreve o código do modelo seguinte. Quem audita o que foi criado por quem? Essa pergunta, por ora, não tem resposta consolidada, e é justamente por isso que o debate regulatório precisa ser mais profundo do que o Brasil tem conseguido fazer.

Transparência como resposta parcial

Os modelos estão ficando cada vez mais capazes. O papel do ser humano no treinamento começa a diminuir.

Lewicki citou a adesão da OpenAI ao protocolo Seed ID, uma espécie de marca d'água invisível que permite identificar se uma imagem foi gerada por IA. Qualquer pessoa pode fazer upload de uma imagem numa página pública e verificar a proveniência. Em ano eleitoral, com o TSE como parceiro ativo, é uma resposta concreta ao problema da desinformação gerada por IA, ainda que parcial.

O Brasil, reforçou Lewicki, não é uma tábua rasa regulatória: já existem o Marco Civil, a LGPD, o ECA Digital, um decreto sobre misoginia digital e regulações do TSE. O ecossistema legal existe. O que falta, na visão de Lemos, é coesão e visão estratégica: uma regulação que não apenas proteja, mas que posicione o Brasil como protagonista no desenvolvimento de IA tropicalizada, com modelos treinados localmente e capacidade de não depender de nenhum bloco externo.

O painel terminou com Lemos pedindo que o Brasil apoie seus desenvolvedores locais, não como romantismo tecnológico, mas como soberania. E Lewicki defendendo que a OpenAI quer ser parceira nesse processo, não obstáculo.

A questão que fica no ar é a mesma que Luciana formulou na moderação: como avançar com IA de forma segura sem criar armadilhas e sem criar censura? A resposta honesta é que ninguém tem a fórmula. Mas o Brasil tem os atores, tem o ecossistema e tem o contexto para construí-la, se o debate for à altura.

✦ Aprendizados que ficam
  • O Brasil é o terceiro maior mercado da OpenAI em usuários e o segundo em desenvolvedores. Não é coadjuvante: é protagonista involuntário que precisa assumir esse papel com intencionalidade.
  • Regulação de IA é política industrial. Uma lei desequilibrada não apenas restringe: ela paralisa o desenvolvimento local e aprofunda a dependência tecnológica externa.
  • O problema do alinhamento, se os modelos de IA servem a quem, é a questão mais urgente e menos debatida no Brasil. Nenhuma regulação será suficiente sem enfrentá-la. A sua empresa já sabe a quais interesses a IA que usa está alinhada, ou apenas sabe que ela funciona?
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 4 · AISummit · IA · SoberaniaDigital · Infraestrutura
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Quando a IA vira infraestrutura, a pergunta deixa de ser “adotar?” e passa a ser “de quem é o controle?”

Nelson Leoni
Nelson LeoniCEO · WideLabs
Marcio Aguiar
Marcio AguiarDiretor Executivo, América Latina · NVIDIA
Givanildo Menezes
Givanildo Menezes (Giva)Diretor de Jornalismo · CNN Brasil

disse Marcio Aguiar, diretor da NVIDIA para a América Latina.

Em um palco do Web Summit Rio, o executivo de uma das empresas que mais lucram com a corrida da inteligência artificial fez questão de pisar no freio. “Muita calma nessa hora”, disse Marcio Aguiar, diretor da NVIDIA para a América Latina. “Esqueça essa questão de ter que acelerar e entrar nesse vagão agora. O trem tá passando, ele vai continuar passando, são várias eras.”

A frase resume a virada que move toda a conversa. A IA ultrapassou os ganhos de eficiência e virou infraestrutura estratégica, e, quando os modelos começam a embasar decisões críticas de risco, operação e atendimento em larga escala, a decisão do executivo deixa de ser “adotar ou não” e passa a ser outra: qual problema resolver, quanto realmente gastar e de quem é o controle da cadeia. Ao lado de Nelson Leoni, cofundador e CEO da WideLabs, empresa brasileira de IA aplicada e parceira de NVIDIA e Oracle, Aguiar desmontou os três erros que mais queimam dinheiro corporativo. A mediação foi de Giva, diretor de jornalismo da CNN Brasil.

O problema vem antes da tecnologia O ponto de partida não é a máquina nem o modelo: é o negócio. “Sair implementando IA sem saber o seu problema, identificar pra quem você quer especificamente, a chance de você queimar dinheiro é grande”, advertiu Leoni. Para ele, a lógica é simples e brutal: “Você precisa entender antes de qualquer coisa do seu negócio, do problema que você tem que resolver. E aí sim a IA vai gerar resultado.” Implementar porque “virou moda” é o caminho mais curto para o prejuízo.

Aguiar confirmou com um caso de bastidor. Há quatro anos, um cliente o procurou já decidido a comprar hardware. A resposta da NVIDIA foi a contramão do óbvio: “Calma, mas pra que você quer rodar isso? Me conta um pouquinho mais do teu projeto.” A pergunta certa nunca é qual equipamento comprar, é qual dor de cabeça crítica e escalável a empresa precisa eliminar primeiro.

Sair implementando IA sem saber o seu problema, identificar pra quem você quer especificamente, a chance de você queimar dinheiro é grande

Caro ou barato depende do problema que se resolve O custo da IA só faz sentido medido contra o problema que ela ataca. Aguiar contou o caso de um banco que perdia mais de R$ 4 bilhões por ano por não conseguir ler a tempo todos os processos movidos contra ele. A solução em IA custou US$ 200 mil. “Duzentos mil dólares para resolver um problema recorrente de 4 bilhões? É caro ou é barato?”, provocou. A mesma lógica explica por que o portfólio vai de US$ 59 a US$ 10 milhões, com um produto de entrada para iniciar a jornada por cerca de US$ 4 mil, ou uma instância em nuvem por algo perto de US$ 10 a hora.

Daí o princípio que Aguiar cravou como teste de credibilidade de qualquer fornecedor: “O software ou os softwares são quem definem a tua infraestrutura.” Quem recomenda hardware sem perguntar sobre o software, “educadamente, você pode falar: esse cara não entende nada”. Leoni reforçou o papel do parceiro de frear o cliente, não de empurrar máquina: quando alguém chega pedindo US$ 3 milhões em equipamento, “o Márcio é o primeiro a perguntar: ele precisa mesmo?”. A receita prática é começar por quick wins, com foco em eficiência e redução de custos, onde o ROI aparece mais rápido, e escalar à medida que os resultados chegam.

Soberania: a decisão estratégica sobre o controle da sua IA É aqui que o tom muda de tático para existencial. “A gente fala de soberania de IA”, disse Leoni, antes de listar as perguntas que poucos executivos fazem: os dados que você sobe, onde estão sendo processados? Qual é o controle que você tem sobre a cadeia? Ele descreveu o estágio anterior com franqueza, áreas inteiras subindo processos judiciais no aplicativo do ChatGPT, e cravou o salto necessário: “A gente tem que passar de ter um pouco menos de ingenuidade e mais estratégia no que a gente está fazendo de implementação de IA.”

Você precisa entender antes de qualquer coisa do seu negócio, do problema que você tem que resolver. E aí sim a IA vai gerar resultado.

Soberania, porém, não significa que toda empresa precise do próprio data center. “Às vezes nem precisa”, ponderou Aguiar, depende do volume e do perfil de uso, e a nuvem costuma ser o ponto de partida certo. O que muda é como a decisão é tomada: não pode sair de “uma cadeira”, e sim de “uma mesa de pessoas”, um board de gestores executivos somado aos usuários reais da tecnologia. Leoni completou que o interlocutor não é primeiro o CTO, e sim o dono do problema. E encerrou com o lembrete que ancora tudo: “A IA não tem culpa nenhuma disso. Ela é uma ferramenta. Ela é um meio, ela não é um fim. O fim continua sendo o seu negócio.”

Análise: para onde o jogo está indo O recado dos dois converge com a maior inflexão do setor: a passagem da IA de prova de conceito para infraestrutura de produção. À medida que modelos passam a sustentar decisões críticas, controle de dados, modelos e cadeia deixa de ser detalhe técnico e vira fator competitivo, o que explica a ascensão das arquiteturas híbridas, do on-premise seletivo e da pauta de soberania de dados que governos e reguladores já abraçam. A vantagem competitiva migrou: não está mais em adotar IA, quase todos estão adotando, e sim em decidir deliberadamente onde mora o controle. Para o C-level, a leitura é direta: o risco não é ficar para trás na corrida, é correr na direção errada com o cheque na mão.

✦ Aprendizados que ficam
  • Comece pelo problema do negócio, não pela tecnologia, implementar IA por moda, sem uma dor crítica e escalável definida, é a forma mais rápida de queimar capital.
  • Dimensione o investimento ao problema, não ao hype, é o software que define a infraestrutura; comece por quick wins na nuvem, meça ROI por eficiência e só então escale.
  • Trate soberania e governança como decisão estratégica e coletiva, saiba onde seus dados rodam e quem controla a cadeia, e tire a decisão de uma única cadeira para um board que inclua o dono do problema.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Há cerca de 3 anos, a IA ainda era discutida como ferramenta, não como infraestrutura.
A interação com um dos clientes citados começou há cerca de 4 anos.
A NVIDIA assume errar cerca de 50% do que faz, como parte do processo.
Um banco perdia mais de R$ 4 bilhões por ano por não ler a tempo todos os processos contra ele.
O investimento em IA para resolver esse problema foi de US$ 200 mil.
O portfólio da NVIDIA vai de US$ 59 a US$ 10 milhões.
Há um produto de entrada para iniciar a jornada de IA por cerca de US$ 4 mil.
Uma instância de GPU em nuvem pode custar cerca de US$ 10 por hora.
Um cliente chegou pedindo US$ 3 milhões em máquinas, antes de a real necessidade ser questionada.
Marcio desenvolve software há 15 anos.
ARTIGO 5 · AISummit · CorporateInnovationSummit · AI · FuturodoTrabalho
🔥 Destaque

A IA que você instalou não basta: o que separa as empresas que capturam valor das que ainda esperam o retorno

Priscyla Laham
Priscyla LahamPresidente, Brasil · Microsoft

A maior parte da inteligência das empresas está na força de trabalho.

A frase é de Priscyla Laham, presidente da Microsoft Brasil desde janeiro de 2025, com mais de 25 anos de experiência em tecnologia. Dita no palco do Web Summit Rio 2026, ela funciona como um reset para uma conversa que o mercado insiste em travar no lugar errado: o de qual modelo usar, qual plataforma contratar, qual projeto lançar.

Laham não veio falar sobre infraestrutura. O investimento de quase R$ 15 bilhões que a Microsoft anuncia no Brasil, o maior da empresa em 37 anos de presença no país, é só o pano de fundo. O que ela trouxe ao palco, em conversa com Rafael Coimbra, editor-chefe da MIT Technology Review BR, foi uma pergunta mais incômoda: por que tantas empresas já têm acesso à IA e ainda não estão capturando valor?

A resposta que ela propõe é estrutural. E muda a conversa de “o que implementar” para “o que está impedindo”.

O gap não é de tecnologia. É de inteligência.

A Microsoft cunhou internamente o conceito que Laham chamou de “gap de inteligência” e que se tornou o eixo da apresentação. A ideia é simples na formulação e brutal na implicação: não basta ter acesso às ferramentas. A IA só gera valor quando é alimentada de contexto, e o contexto está represado.

“Boa parte da inteligência das empresas está nos dados, mas ela está na força de trabalho”, afirmou Laham. Não nos relatórios, não nos dashboards. Nas conversas do dia a dia, nos chats das equipes, nas decisões tomadas em reuniões que nunca são registradas de forma estruturada.

Isso tem uma consequência direta para quem lidera organizações: colocar IA em processos de trabalho ruins não gera nenhum benefício. A tecnologia amplifica o que já existe, para o bem e para o mal. Uma pesquisa que a Microsoft conduziu junto ao IDC, com cerca de 100 executivos C-level brasileiros, mostra que 90% deles enxergam a IA como fator de

competitividade. O problema revelado no mesmo estudo é o que fica entre o discurso e a prática: parte significativa desses líderes ainda não está disposta a redesenhar os processos de trabalho. O gap de inteligência, portanto, não é tecnológico. É de disposição para mudar.

A adaptação da força de trabalho é o verdadeiro gargalo

Laham foi direta ao deslocar o debate: “Acesso à ferramenta eu nem estou considerando. Dar acesso às ferramentas, essas empresas ainda não fizeram, e isso já é um problema grave.” A frase não é sobre plataformas. É sobre prioridade de liderança.

A Microsoft lançou o Conecta IA, uma plataforma de capacitação com trilhas que vão de letramento digital a cibersegurança. O compromisso inicial era treinar 5 milhões de pessoas em três anos. Até o momento da palestra, o programa já havia alcançado 3,8 milhões de pessoas que completaram trilhas de treinamento, além de 1 milhão com certificações em tecnologia. “Quem tem certificação em tecnologia tem emprego”, disse Laham, apontando para um mercado com mais vagas do que profissionais qualificados.

Boa parte da inteligência das empresas está nos dados, mas ela está na força de trabalho

O programa envolve 40 entidades parceiras, incluindo ONGs, governo e organizações como a Fundação Bradesco. E a outra frente, mais imediata, passou pelos próprios clientes: nos últimos dois meses anteriores à palestra, a empresa investiu no treinamento de 40.000 funcionários de empresas parceiras.

A lógica por trás disso não é filantrópica. É estratégica. Laham descreveu o que ela vê como a próxima fronteira profissional: executivos que não apenas usam IA, mas que chegam ao mercado “acompanhados de agentes” com habilidades específicas. Não vende mais o serviço de um profissional de marketing. Vende o que um departamento inteiro entrega. O currículo do futuro não vai listar “Excel” como habilidade: vai listar quais agentes você opera e o que eles entregam.

Os três fatores que posicionam o Brasil como player de valor

A pergunta de Coimbra era sobre o risco do Brasil se tornar apenas fornecedor de infraestrutura, energia barata e dados para o restante do mundo. A resposta de Laham foi articulada em três vetores, e cada um deles muda o peso da discussão.

O primeiro é a população digitalizada. O Brasil tem uma das bases de usuários tecnológicos mais engajadas do mundo, com alta taxa de adoção de serviços digitais. Isso não é curiosidade demográfica: é insumo direto para o treinamento, uso e customização de modelos de IA.

O segundo é a demanda por eficiência. “Isso sempre foi uma questão no Brasil”, disse Laham. Setores como varejo, manufatura e finanças operam com gargalos históricos de produtividade que a IA trata diretamente. Quem tinha menos vai se alavancar mais, porque tem mais a ganhar com automação.

O terceiro, e talvez o mais subestimado, é o ecossistema. Só no GitHub, o Brasil tem quase 5 milhões de desenvolvedores cadastrados. “Inteligência artificial é sobre ecossistema”,

disse Laham. Um ecossistema rico de desenvolvimento é o que transforma infraestrutura em produto, dado em serviço, capacidade computacional em inovação de negócio.

Acesso à ferramenta eu nem estou considerando. Dar acesso às ferramentas, essas empresas ainda não fizeram, e isso já é um problema grave.

Esses três fatores, combinados, não posicionam o Brasil como fornecedor da cadeia de IA. Posicionam o país como um dos poucos mercados emergentes com condição real de gerar valor ao longo de toda essa cadeia.

Como quem está no centro do furacão se mantém orientado

No encerramento, Coimbra perguntou o que Laham diria a alguém que passa o dia inteiro imerso no tema da IA, sem conseguir acompanhar tudo que muda. A resposta foi o trecho mais humano da conversa. E, paradoxalmente, o mais estratégico.

Ela reserva as tardes ou manhãs das sextas-feiras para estudar. Não para responder e-mails, não para reuniões. Para acompanhar um campo que se transforma em velocidade industrial. Depois veio o segundo ponto: pensamento crítico. “Tenha acurácia sobre o que você ouve da IA para pensar se é o mais adequado para você.” E o terceiro: foco. “É muito fácil se perder no frenesi da inteligência artificial.” Não perca o foco.

Três princípios que valem tanto para quem implanta sistemas quanto para quem os usa como ferramenta cotidiana. E que funcionam, sobretudo, como antídoto à armadilha mais comum que Laham descreveu ao longo de toda a apresentação: fazer da IA uma feira de ciências quando ela deveria ser uma alavanca estratégica.

“Se ela vem do topo, se ela vem como estratégia e como habilitador para mudança de negócio, as empresas já estão capturando.” A diferença não é de acesso. É de onde a decisão começa.

✦ Aprendizados que ficam
  • O verdadeiro gap não é tecnológico: é o gap de inteligência organizacional. Empresas que implementaram IA sem redesenhar processos e sem trazer contexto real para os modelos não estão capturando valor. O acesso à ferramenta é o mínimo. O que diferencia é a disposição da liderança para mudar como o trabalho é feito.
  • A adaptação da força de trabalho é o gargalo que mais poucos líderes querem enfrentar. Capacitar não é só dar acesso a uma plataforma: é redefinir como as pessoas trabalham, que contexto elas alimentam nos sistemas e quais habilidades passam a definir sua entrega no mercado.
  • O Brasil tem três vantagens competitivas reais na cadeia de valor da IA: uma população digitalizada em escala, uma demanda histórica por eficiência que a IA trata diretamente e um ecossistema de desenvolvimento com quase 5 milhões de desenvolvedores. Quem entender isso como estratégia, não como curiosidade, vai capturar a oportunidade.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
R$ 14,7 bilhões (quase R$ 15 bilhões): maior investimento único da Microsoft no Brasil em 37 anos de operação no país
90%: percentual de executivos C-level brasileiros que enxergam a IA como fator de competitividade (pesquisa Microsoft + IDC, ~100 entrevistados)
5 milhões: meta de pessoas a serem treinadas pelo programa Conecta IA em três anos (mesmo período da construção de infraestrutura)
3,8 milhões: pessoas que já completaram trilhas de treinamento no programa até a data da palestra
40: número de entidades parceiras do programa (ONGs, governo, empresas como Fundação Bradesco)
5 milhões: desenvolvedores brasileiros cadastrados no GitHub
11.000: modelos disponíveis na plataforma Azure AI Foundry para desenvolvimento de agentes
ARTIGO 6 · AISummit · IAdeVoz · IAConversacional · Brasil
🤖 IA

Para conquistar o Brasil, a IA de voz precisou aprender a falar

Brunno Santos
Brunno SantosHead Brasil · ElevenLabs

A voz vai ser o novo teclado.

A frase de Brunno Santos não é apenas uma previsão sobre interface, é a tese por trás de uma aposta concreta: a de que o Brasil é, hoje, o melhor mercado do mundo para a IA conversacional. E que entrar aqui não significa traduzir um produto pronto, e sim reconstruí-lo.

À frente da operação brasileira da ElevenLabs, plataforma de voz por IA que ele ajudou a trazer ao país há cerca de um ano, Santos já estruturou do zero as operações de Cisco, Dell, Meta e monday.com no Brasil. No palco do Web Summit Rio, em conversa com o repórter Nick Robins-Early, do The Guardian, ele explicou por que a próxima onda da tecnologia não acontece numa tela, e por que o jeito brasileiro de falar virou um problema de engenharia.

A oportunidade que já é grande, e só cresce O argumento começa com uma observação cotidiana: crianças não digitam, elas falam com os dispositivos. A voz deixa de ser recurso e passa a ser a camada principal de interação. E o Brasil, segundo Santos, reúne as condições ideais para liderar essa transição: cultura que prioriza o WhatsApp, histórico de adoção precoce de toda nova tecnologia e um apetite que coloca o país entre os 10 maiores mercados globais da plataforma, e em terceiro lugar mundial em tráfego no site da empresa. Para os executivos, o conselho é cirúrgico: comece por casos de “alto volume e baixa complexidade”. O ponto ideal é o atendimento ao cliente, onde cerca de 70% das interações são perguntas básicas e repetitivas, exatamente o terreno em que a voz por IA gera retorno rápido.

não um plug-and-play. E o uso está amadurecendo: a virada é de casos de

Não bastava traduzir: foi preciso reaprender o português Aqui está o aprendizado mais original da conversa. O maior desafio de abrir operação no Brasil não foi o produto, foi a localização da voz. O português brasileiro é fragmentado em sotaques, e o modelo precisava entender cada um deles. Para um cliente do setor bancário, a equipe construiu uma “biblioteca de interpretação” porque uma palavra tão simples quanto “sim” é dita de formas diferentes em São Paulo, em Minas e no Rio. Houve ajustes ainda mais inesperados: em algumas regiões, palavrões fazem parte da conversa normal e não são agressão ao interlocutor, a IA teve que aprender essa nuance para não interpretar o cliente da forma errada. Foram coisas que não faziam sentido em outros países. O

resultado prático: um modelo de speech-to-text dedicado ao português do Brasil com acurácia acima de 80%, um marketplace ampliado de vozes locais (mais de 11.000 no total) e uma tendência que executivos deveriam observar de perto, a da voz proprietária de marca. Santos prevê que cada organização terá sua própria voz por IA, “tão importante quanto o logo”.

O gargalo não é o produto, é a entrega Se a oportunidade é tão grande, por que ela não se captura sozinha? Porque o limite, hoje, não está na tecnologia. O produto está pronto e escala. O que falta é mão de obra qualificada para implementar voz por IA de forma assertiva dentro de ambientes corporativos cheios de CRMs, sistemas de telefonia, integrações e prompt engineering. A resposta da empresa é tripla: ativar um ecossistema de parceiros, contratar forward deployment engineers, há mais de 50 vagas abertas no Brasil só para essa função, e acompanhar o cliente de perto, porque adotar voz por IA é “uma jornada”, não um plug-and-play. E o uso está amadurecendo: a virada é de casos de “redução de custos” para casos de “geração de receita”, como cobrança, billing e qualificação de vendas.

Análise: para onde o jogo está indo A leitura para o C-level vai além da voz. O que a ElevenLabs demonstra é um novo manual de entrada em mercado: localizar deixou de ser cosmético e virou reconstrução estratégica de produto. Quem trata o Brasil como tradução de um roadmap global perde; quem trata como laboratório, ganha. A aposta em vozes proprietárias aponta para um futuro em que o timbre de uma marca será um ativo tão disputado quanto sua identidade visual. E o avanço para o setor público, com acordos anunciados com os governos da Grécia e do Reino Unido, sugere que a voz será a porta de entrada para serviços inteiros, substituindo dezenas de aplicativos por uma única conversa. A projeção da empresa: o Brasil entre os três maiores mercados globais em 3 a 5 anos. O recado para os líderes é claro: a vantagem competitiva migrou da tecnologia para a capacidade de implementá-la com profundidade local.

✦ Aprendizados que ficam
  • A voz é a nova interface e o Brasil é terreno fértil, aja cedo em casos de alto volume e baixa complexidade, começando pelo atendimento.
  • Entrar no Brasil é reconstruir o produto para a realidade local, não traduzi-lo, sotaques, gírias e jeitos de falar são engenharia, não detalhe.
  • O limite não é a tecnologia, é a capacidade de entregar, invista em talento de implementação e em ecossistema de parceiros antes que o gargalo trave o ROI.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Cerca de 12 meses de operação da ElevenLabs no Brasil.
Mais de 11.000 vozes disponíveis no marketplace.
Modelo de speech-to-text para português do Brasil com acurácia acima de 80%.
Cerca de 70% das interações de atendimento ao cliente são de baixa complexidade.
Brasil entre os 10 maiores mercados globais em adoção da plataforma.
Brasil é o 3º país em tráfego no site da empresa.
Mais de 50 vagas abertas de forward deployment engineer no Brasil.
Meta de mais de 50 funcionários no Brasil e mais de 100 na América Latina.
Projeção do Brasil entre os 3 maiores mercados globais da ElevenLabs em 3 a 5 anos.
ARTIGO 7 · NewEnergySummit · IA · DataCenters · Energia
🤖 IA

Sobra energia verde no Brasil para a era da IA. Falta o resto dos ingredientes.

Alessandro Lombardi
Alessandro LombardiFundador · Elea Data Centers
Victor Arnaud
Victor ArnaudPresidente Brasil · Equinix

O Brasil é o país mais rico do mundo em energia verde disponível

Enquanto os Estados Unidos travam uma corrida cara e desesperada por eletricidade para alimentar seus data centers, o Brasil faz o oposto: desperdiça, todos os dias, gigawatts de energia verde que ninguém consome.

Foi a partir dessa inversão que o painel “AI's power problem” se desenrolou em Rio. O título prometia falar do gargalo energético da IA. Em poucos minutos, Alessandro Lombardi, fundador da Elea Data Centers, e Victor Arnaud, presidente da Equinix no Brasil, viraram a pergunta de cabeça para baixo: aqui, energia não é o problema. O problema é tudo o que vem depois dela.

O gargalo que não existe A primeira tese do painel foi direta e contraintuitiva. “O Brasil é o país mais rico do mundo em energia verde disponível”, afirmou Lombardi, lembrando que o volume ocioso hoje seria suficiente para suprir boa parte da demanda de curto e médio prazo dos Estados Unidos. O excedente é resultado de anos de subsídios estatais à geração renovável, sem que a demanda crescesse no mesmo ritmo. Conclusão dos dois executivos: para um país que joga energia fora, falar de “gargalo energético” é importar um problema americano que não é o nosso. A questão real, disse Lombardi, é se o Brasil consegue criar um ambiente de confiança para que os grandes players construam infraestrutura aqui.

Se limitarmos a discussão só à energia, seremos o país que usa os recursos naturais enquanto outros extraem o valor

Os ingredientes não são o bolo Se a energia está resolvida, o risco se desloca, e é mais sutil. Arnaud propôs enxergar a IA como um bolo de cinco camadas: energia, chips, infraestrutura, modelos e aplicações. “Se limitarmos a discussão só à energia, seremos o país que usa os recursos naturais enquanto outros extraem o valor”, alertou. É o mesmo roteiro do petróleo e dos minerais: exportar matéria-prima barata e importar valor caro. A frase que sintetiza o painel veio dele: “Temos os ingredientes, mas precisamos fazer o bolo.” Subir na cadeia, da energia à infraestrutura, dos minerais aos chips, da infraestrutura aos modelos e aplicações, é o que separa ser plataforma de IA de ser apenas usuário pesado dela.

O verdadeiro gargalo está em Brasília Aqui o tom esquentou. O REDATA, plano de incentivos fiscais criado em setembro do ano passado para atrair data centers movidos a energia renovável, travou no Senado em fevereiro e nunca foi a voto. Um dos motivos apontados: a indústria de gás natural quer entrar no benefício pensado para infraestrutura verde. Lombardi foi categórico sobre essa hipótese, não aceitaria o incentivo com gás na mistura, e defendeu que nunca se deve construir um data center que não seja movido a energia limpa. Mas reconheceu a complexidade do tabuleiro: um país de mais de 35 partidos e 220 milhões de pessoas tem muitos interesses competindo, e por isso um projeto que ele chamou de pioneiro avança devagar. O recado implícito ao C-level: o risco regulatório, não o risco energético, é o que pode atrasar o Brasil.

Sob essa camada política corre uma terceira, igualmente decisiva: licença social. Lombardi se definiu como ativista do engajamento com comunidades e classificou a ausência desse diálogo como “um dos verdadeiros problemas do setor de data centers nos Estados Unidos hoje”. O contraponto que ele evita é o Chile: incentivos fiscais agressivos, porém energia suja e poluição visível. E há a pergunta que ativistas fazem em toda a América Latina, afinal, para quem servem esses data centers? A resposta dos dois passa por reduzir o abismo digital: num país onde 60% da população vive com cerca de US$ 3 mil por ano, infraestrutura barata e serviços digitais acessíveis são argumentos de inclusão, não só de negócio.

Temos os ingredientes, mas precisamos fazer o bolo.

Análise: para onde o jogo está indo O recado do painel ecoa muito além do Brasil. A demanda por inferência, IA rodando perto do usuário, está migrando para onde os dados e as pessoas já estão, e não para onde a energia é mais barata em teoria. A Equinix relatou que oito das dez maiores neo clouds e quatro das cinco maiores empresas de LLMs já compram capacidade no país. O crescimento, como resumiu Lombardi, “já está aqui”: ele investe 50% mais do que há 18 meses, com ou sem incentivo. A janela competitiva, porém, é estreita. Países que travarem a definição de políticas industriais e regulatórias claras assistirão ao valor escoar para fora, mesmo abrigando a infraestrutura física. Para líderes de qualquer setor intensivo em dados na região, a leitura é a mesma: vantagem de recurso natural não se converte sozinha em vantagem econômica, isso depende de cadeia de valor, regra clara e licença social.

◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Energia verde ociosa no Brasil suficiente para suprir boa parte da demanda de curto e médio prazo dos EUA.
Campus de IA no Rio: 1,5 GW na primeira fase e 3,0 GW no total, cerca de 2,5 vezes a capacidade atual instalada no Brasil.
Equinix: mais de 280 data centers, mais de 500 mil interconexões e 12 mil clientes globalmente.
8 das 10 maiores neo clouds e 4 das 5 maiores empresas de LLMs já compram capacidade no país.
Análise antifraude de um Pix exige latência inferior a 40 milissegundos.
PIB per capita de cerca de US$ 10 mil/ano; 60% da população (mais de 100 milhões de pessoas) vivem com cerca de US$ 3 mil/ano.
Mais de 200 milhões de celulares no país, mais de um por habitante.
Lombardi investe 50% mais do que investia há 18 meses.
Mais de 35 partidos políticos e 220 milhões de pessoas pesam sobre a tramitação do REDATA, criado em setembro e travado no Senado em fevereiro.
ARTIGO 8 · MarketingSummit · IA · AgenticAI · Personalização
🤖 IA

Muito investimento, pouco valor: o que separa quem só fala de IA de quem já colhe resultado

Nataliya Yarovinska
Nataliya YarovinskaCCO · SendPulse
Flavio Reis
Flavio ReisCDO · Renner
Shelley Pursell
Shelley PursellHubSpot LATAM

A IA é como um estagiário superqualificado.

A frase de Nataliya Yarovinska, CCO da SendPulse, resume o paradoxo que atravessou o painel sobre marketing agentivo no Web Summit Rio 2026: a tecnologia faz coisas impressionantes, mas ainda precisa de alguém olhando por cima do ombro.

Ao lado de Flavio Reis (CDO da Renner) e Shelley Pursell (HubSpot LATAM), o diagnóstico foi desconfortável para quem já abriu o talão de cheques: gasta-se muito, entrega-se pouco, e quase todo mundo se sente atrasado sem ter, de fato, feito muita coisa.

Gasta-se muito, entrega-se pouco Pursell descreve o momento como um “fogo cruzado”: empresas que saíram comprando ferramentas e montando agentes, mas pularam a base. Antes de automatizar, é preciso definir qual problema resolver e ter a estrutura de dados pronta para sustentar a resposta. “A IA é tão boa quanto os dados nos quais você a treina”, resume ela. Sem essa fundação, o agente vira despesa.

Sentir-se atrasado não é estar atrasado A pressão do “todo mundo já está fazendo” gera mais ruído do que valor. Não é preciso criar milhares de agentes para tudo, resposta automática de férias, lembra Flavio Reis, o Outlook já resolve. O atraso real só aparece quando a empresa deixa de aplicar IA no seu core, ali onde o concorrente pode estar avançando. “Você precisa olhar para o seu negócio e identificar onde realmente importa”, diz Reis. E aqui há uma virada: empresas menores, sem o peso de stacks legados, implementam, testam e veem retorno mais rápido do que as grandes.

Você precisa olhar para o seu negócio e identificar onde realmente importa

Os casos que já dão retorno Renner: a IA troca o look de um modelo conforme o que vende e o estoque disponível em segundos, no lugar dos dias de uma nova sessão de fotos. Na categoria infantil, onde fotografar bebês sempre foi difícil, o conteúdo gerado por IA, sempre sinalizado como tal, elevou a conversão em mais de 60%.

HubSpot: o agente de prospecção lê sinais de intenção (de dados de CRM a uma mudança de cargo no LinkedIn) para achar o momento certo de abordar e personalizar o contato, com 76% mais leads.

SendPulse: a IA ataca o ponto onde a verba de mídia mais se perde, quem clica no anúncio e não converte. Uma conversa imediata no WhatsApp ou Instagram, presa a um roteiro estreito, qualifica e, na dúvida, passa o bastão para o humano.

Análise: para onde o jogo está indo Marca, plataforma B2B e automação de marketing convergem no mesmo ponto: o humano permanece no circuito, e a decisão fica com a pessoa. O que muda é o ritmo de cobrança, saímos da era do potencial para a era do ROI agora, em que vence não quem tem o maior orçamento, mas quem escolhe o problema certo, mede e age antes do concorrente.

✦ Aprendizados que ficam
  • Defina o problema e organize os dados antes de comprar ferramentas. Investir sem base vira custo, não valor.
  • Sentir-se atrasado não é estar atrasado. Aplique IA onde é core e meça o retorno, em vez de espalhar agentes por tudo.
  • Comece por casos que funcionam, geração de conteúdo, qualificação de leads e conversão pós-clique, sempre com o humano no circuito.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Mais de 180 países atendidos pela SendPulse.
76% de aumento em leads com o agente de prospecção da HubSpot.
Mais de 60% de aumento na conversão da categoria infantil da Renner com conteúdo gerado por IA.
Produção de conteúdo que levava dias passou a acontecer em segundos ou minutos.
Milhares de produtos lançados por ano pela Renner.
ARTIGO 9 · AISummit · OpenSource · SoberaniaDigital · RegulacaoIA
🤖 IA

“Aberto” não é o que você pensa: o que líderes e reguladores precisam entender sobre IA de código aberto

Rodrigo Duclos
Rodrigo DuclosChief Innovation & Digital Officer · Claro
Fábio de Sá Cesnik
Fábio de Sá CesnikAdvogado · Direito Digital
Nick Robins-Early
Nick Robins-EarlyRepórter · The Guardian US

Em espanhol, você precisa de mais tokens, mas mais curtos, para o mesmo desempenho que em inglês. Isso não estava documentado antes porque ninguém havia feito um processo como o nosso.

Quando uma das maiores empresas de tecnologia do mundo anuncia que “abriu” seu modelo de IA, o que exatamente foi aberto? O código? Os pesos? Os dados de treinamento? O processo de governança? A resposta, na maioria dos casos, é: bem menos do que o comunicado de imprensa sugere. E essa distinção, aparentemente técnica, tem consequências diretas para reguladores, executivos e qualquer organização que esteja construindo estratégia sobre a premissa de que IA aberta é IA democrática.

Foi essa contradição que Rodrigo Durán, General Manager da CENIA e co-autor do Latin American AI Index, e Alexey Milovidov, co-fundador e CTO do ClickHouse, vieram desmontar no palco do Web Summit Rio 2026.

Aberto não é um estado. É um processo.

A primeira provocação veio de Milovidov, que passou 17 anos construindo um dos bancos de dados de código aberto mais adotados do mundo antes de fundar o ClickHouse. Para ele, publicar um arquivo de código não é suficiente para chamar algo de aberto.

“Open source é muito mais do que código aberto. Você pode publicar o código, pode publicar um arquivo, mas não é o suficiente. É também sobre colaboração aberta, infraestrutura aberta. Como o código é gerenciado, como contribuições externas são processadas, como você se comunica com as pessoas.”

Para Durán, a mesma lógica se aplica aos modelos de linguagem. A CENIA levou dois anos construindo o LatAm GPT, um modelo treinado com 100 bilhões de tokens de dados regionais que não existiam em nenhum dataset público, e que serão liberados nas próximas semanas. “Abertura, do nosso ponto de vista, significa pesos, dados, parâmetros e responsabilidade sobre o processo de engenharia, incluindo os benchmarks. Essa é a única forma de manter a América Latina no processo de construção de IA.”

O recado para executivos e formuladores de políticas é direto: quando avaliarem fornecedores, parceiros ou regulações que invoquem “open source” como argumento, a checklist precisa ir além do código. Dados de treinamento são auditáveis? O processo de curadoria está documentado? Há governança real sobre contribuições externas? Sem essas respostas, “aberto” é marketing, não arquitetura.

O que o espanhol ensinou sobre tokenização, e sobre os limites do conhecimento herdado

Um dos momentos mais reveladores da conversa foi a descrição do processo de engenharia do LatAm GPT, que expôs algo que raramente aparece em apresentações de produto: os manuais estabelecidos simplesmente não funcionavam para línguas latinas.

Durán descreveu mais de 30.000 experimentos em pequenos datasets para encontrar a combinação correta de dados e parâmetros antes de treinar o modelo final. O problema central era que as receitas documentadas no GitHub, pensadas para inglês, não eram adequadas para espanhol e português.

“Em espanhol, você precisa de mais tokens, mas mais curtos, para o mesmo desempenho que em inglês. Isso não estava documentado antes porque ninguém havia feito um processo como o nosso.”

Esse achado foi publicado no GitHub pela equipe da CENIA e representa uma contribuição genuína ao campo, não apenas um produto. É também um lembrete estratégico: soluções de IA construídas em outros contextos linguísticos e culturais carregam vieses não apenas nos conteúdos, mas na própria arquitetura técnica. Adotá-las sem adaptação não é neutralidade, é transferência de pressupostos.

Soberania digital começa antes da regulação: começa na infraestrutura

A parte mais incômoda da conversa foi também a mais honesta. Quando o mediador perguntou se o movimento de IA aberta estava realmente criando soberania tecnológica, ou se todos estavam apenas usando código gratuito para pagar as mesmas três empresas do Vale do Silício, Durán não desviou.

“Soberania vem do poder computacional. As leis que regem os dados são as leis do lugar onde a infraestrutura está fisicamente localizada. A nuvem é um datacenter em algum lugar do mundo. O único país da América Latina com infraestrutura soberana real é o Brasil, por causa da BNDES e da Petros. México não tem, Argentina não tem, Chile não tem. Não existe infraestrutura de GPU para treinamento em nenhum país da América Latina e Caribe, ponto.”

É uma afirmação que deveria atravessar qualquer conversa sobre regulação de IA na região. Políticas que restringem acesso a dados abertos enquanto ignoram a questão da infraestrutura computacional estão, na prática, protegendo um vácuo. E esse vácuo é preenchido pelos mesmos players que a regulação pretende balancear.

O ponto de Durán não é pessimismo, é sequenciamento. Antes de regular o uso, é necessário criar as condições para que alternativas existam. Isso passa por incentivos reais

a provedores de infraestrutura que queiram investir na região, e por decisores, públicos e privados, que entendam que investir em capacidade computacional não compete com hospitais e escolas. Compete, na verdade, com a dependência estrutural de longo prazo.

O futuro: modelos menores, mais distribuídos, mais acessíveis

Na visão de Milovidov, a trajetória da IA se aproxima da história do hardware: o que hoje exige o esforço de um país inteiro para construir, em poucos anos caberá no bolso. “Acredito que modelos não precisam ter trilhões de parâmetros. Podem ter menos de 100 bilhões e ainda assim ter capacidades bastante poderosas. E espero que esse processo leve não décadas, mas talvez um ano.”

Durán complementou com um dado concreto que empresas na América Latina deveriam tomar como sinal: após uma boa adoção de IA em processos internos, organizações no Chile têm registrado aumentos de produtividade entre 60% e 80%. Não é hype. É resultado mensurável, alcançado com modelos menores, dados locais e processos bem desenhados.

✦ Aprendizados que ficam
  • Redefinir “open source” como critério de avaliação: abertura real significa dados auditáveis, processo documentado e governança transparente, não apenas código ou pesos disponíveis para download. Qualquer política ou decisão de adoção que não exija esse nível de transparência está operando sobre uma premissa falsa.
  • Adaptar, não apenas adotar: modelos treinados para o inglês carregam limitações técnicas e culturais que não são visíveis na interface. Organizações que operam em português e espanhol precisam avaliar se a arquitetura subjacente foi pensada para suas línguas, ou se estão aceitando performance degradada como padrão.
  • Soberania digital é uma questão de infraestrutura antes de ser uma questão regulatória: sem capacidade computacional local, regulações sobre IA aberta protegem um vácuo. A prioridade estratégica para governos e empresas da região é criar as condições de infraestrutura que tornam alternativas soberanas possíveis.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
100 bilhões de tokens de dados regionais coletados e curados pela CENIA para o LatAm GPT
Dataset será liberado publicamente em 2 a 3 semanas a partir da data do painel
Mistura de dados no treinamento: aproximadamente 40% dados novos, 60% dados já existentes em outros conjuntos
Mais de 30.000 experimentos realizados em pequenos datasets para calibrar parâmetros do modelo
LatAm GPT tem 70 milhões de parâmetros, versão 3
Aumento de produtividade de 60% a 80% registrado em empresas chilenas após boa adoção de IA em processos internos
Brasil é o único país da América Latina com infraestrutura soberana real de computação, segundo Durán
Investimento privado em IA na América Latina e Caribe é inferior ao de regiões com nível de desenvolvimento comparável, como Oriente Médio e Sudeste Asiático
ARTIGO 10 · AISummit · OpenSource · AgenticAI · CorporateInnovationSummit
🤖 IA

Open source é a nova infraestrutura da inovação em IA

Marcio Aguiar
Marcio AguiarDiretor Executivo, América Latina · NVIDIA

Existe uma crença ainda bastante disseminada no mundo corporativo de que inteligência artificial de ponta é território exclusivo de quem tem orçamento para pagar por ela. Que os grandes modelos pertencem às grandes empresas, e que o restante do mercado consome o que sobra. Marcio Aguiar, Diretor Executivo da NVIDIA para a América Latina, subiu ao palco do Web Summit Rio para desmontar essa narrativa com uma tese direta: a espinha dorsal da inovação em IA hoje é aberta, acessível e, em grande parte, gratuita.

O argumento não é retórico. A NVIDIA, empresa que construiu boa parte da infraestrutura física sobre a qual a revolução da IA corre, tem investido desde 2019 na construção de uma camada de software aberta, o ecossistema Nemotron, com mais de 80 milhões de downloads registrados na plataforma Hugging Face. O modelo roda em GPUs comuns, pode ser treinado localmente, e a propriedade intelectual do que for desenvolvido sobre ele pertence integralmente a quem o usa.

Open source como estratégia, não como concessão

Quando uma empresa do porte da NVIDIA opta por abrir sua plataforma de linguagem sem cobrar licença, o gesto merece leitura estratégica. Aguiar foi explícito: “A inteligência é tua, o produto é teu.” Não há custo de token, não há dependência de nuvem obrigatória, não há contrato de exclusividade. O modelo pode ser instalado localmente, treinado com os dados da própria empresa e colocado em produção dentro da infraestrutura existente.

Para executivos que hoje avaliam o custo de adoção de IA e encontram pela frente APIs proprietárias com precificação variável e questões de governança de dados, essa arquitetura representa uma alternativa real de soberania. Você controla o modelo, controla os dados, controla o custo.

A era agêntica e o que ela exige das empresas

Aguiar situou o momento atual como a terceira era da IA: depois do machine learning clássico e da IA generativa popularizada a partir do ChatGPT em 2022, chegamos à IA agêntica, sistemas capazes de agir de forma autônoma, encadear decisões e executar fluxos de trabalho sem intervenção humana a cada etapa.

O Nemotron foi desenhado para essa camada. Com versões que vão do modelo Nano, treinável com cerca de 30 bilhões de parâmetros em uma GPU de gaming de médio alcance, até a versão Super, que escala para 120 bilhões de parâmetros, a plataforma foi projetada para ser o motor de agentes construídos por empresas de qualquer porte. O dataset de pré-treinamento soma mais de 10 trilhões de tokens, e o modelo já conta com suporte a mais de 29 línguas.

A mensagem para lideranças é menos sobre escolher entre plataformas e mais sobre não postergar: “O momento é esse”, disse Aguiar. Empresas que ainda tratam agentes de IA como projeto piloto de TI estão perdendo a janela em que o custo de experimentação é baixo e a vantagem competitiva de quem aprende primeiro ainda é real.

Propriedade intelectual como diferencial competitivo

Talvez o ponto mais subestimado da apresentação tenha sido o da propriedade intelectual. Em um ambiente onde muitas empresas alimentam modelos de terceiros com seus dados internos sem clareza sobre os termos de uso, a arquitetura open source da NVIDIA inverte a lógica: o conhecimento que sua empresa embute no modelo treinado é seu, e só seu.

Isso tem implicações diretas para setores onde dados proprietários são ativos estratégicos, como saúde, finanças, varejo e manufatura. Treinar um modelo com dados internos sobre comportamento de clientes, eficiência operacional ou histórico clínico, e manter a titularidade desse modelo, é uma posição muito diferente de terceirizar essa inteligência para uma API que você não controla.

Aguiar citou o setor de saúde como exemplo concreto: grandes laboratórios farmacêuticos já utilizam a plataforma para acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos, reduzindo o tempo e a invasividade de estudos clínicos.

O que líderes podem fazer a partir de agora

A apresentação foi, em grande parte, um convite à ação. Aguiar listou três pontos de entrada concretos: o programa NVIDIA Inception, voltado a startups e empresas de IA; o Deep Learning Institute, com cursos técnicos certificados, a maioria gratuitos; e o portal developer.nvidia.com, onde estão disponíveis mais de 900 frameworks, blueprints e modelos pré-treinados para download imediato.

O recado para CEOs não é que precisam entender os detalhes técnicos, mas que precisam garantir que alguém em suas organizações esteja explorando esse ecossistema agora. A infraestrutura está disponível. O custo de entrada nunca foi tão baixo. O que falta, na maioria dos casos, é decisão.

✦ Aprendizados que ficam
  • Open source não é nicho de pesquisador: é a nova infraestrutura de inovação em IA, e ignorá-la significa depender de plataformas proprietárias cujos custos e termos você não controla.
  • Propriedade intelectual sobre dados e modelos é um ativo estratégico: empresas que treinam modelos com seu conhecimento interno e retêm essa propriedade estão construindo vantagem competitiva que terceiros não podem replicar.
  • A janela de vantagem para quem age agora é real e finita: a era agêntica já começou, e o custo de experimentação nunca foi tão acessível. Postergar é uma decisão, não uma postura neutra.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 11 · AISummit · AI · BusinessStrategy · Culture
🤖 IA

O gargalo da IA não está no algoritmo. Está na cultura da empresa.

Leandro Angelo
Leandro AngeloGlobal CTIO · CI&T

A tecnologia não falhou. Nós falhamos.

A frase de Leandro Angelo, Global CTIO da CI&T, resume uma das discussões mais urgentes para CEOs hoje: por que tantas empresas investem em IA generativa, mas tão poucas conseguem transformar esse investimento em resultado real?

Segundo ele, apenas 5% das organizações conseguem extrair valor significativo da IA generativa. O dado é duro, mas a leitura é ainda mais provocadora: o problema não está na maturidade da tecnologia. Está na maturidade cultural das organizações.

A IA chegou prometendo ganhos exponenciais. Mas a maior parte das empresas ainda pensa, decide e executa de forma incremental.

“Nós não estamos acostumados com evoluções exponenciais. Estamos acostumados com evoluções incrementais.”

Esse é o primeiro grande aprendizado da sessão: IA é um desafio cultural antes de ser tecnológico.

Ferramentas, modelos e plataformas importam. Mas não bastam. Sem líderes e equipes preparados para repensar processos, abandonar certezas e aprender em velocidade, a IA vira mais um piloto isolado, sem impacto no cliente, no bottom line ou no modelo de negócio.

Leandro foi direto ao ponto: “Apesar da solução ser tecnológica, a transformação é humana.”

A segunda provocação é sobre retorno.

Muitas empresas ainda olham para a IA apenas como ferramenta de eficiência: reduzir horas, cortar custos, automatizar tarefas. Esse é um começo importante, mas limitado.

Para Leandro, o verdadeiro potencial está em outra camada: criar novas receitas, novas capacidades e novos negócios.

Nós não estamos acostumados com evoluções exponenciais. Estamos acostumados com evoluções incrementais.

“Uma coisa é colocar ferramentas de IA nos processos atuais. Outra é ganhar confiança para mudar o processo e reinventar o negócio.”

Essa diferença é crítica. Automatizar o que já existe pode melhorar a operação. Mas repensar o que deixa de fazer sentido em um mundo com agentes inteligentes pode transformar a empresa.

O executivo trouxe um dado que ajuda a dimensionar essa mudança: projetos digitais que antes levavam, em média, 28 meses para sair do papel passaram para 9 meses com práticas digitais e ágeis. Agora, com IA generativa e sistemas agentivos, alguns ciclos podem ser reduzidos para dias.

A terceira lição talvez seja a mais estratégica: vantagem competitiva não será ter a melhor ferramenta. Será aprender mais rápido.

“Não é sobre a empresa que contratou o melhor modelo ou tem as melhores ferramentas. É sobre a velocidade que ela é capaz de aprender.”

Essa frase deveria estar na mesa de todo conselho.

Porque, se a IA estará disponível para todos, a diferença estará na capacidade de cada organização de absorver, testar, medir, governar e escalar aprendizados.

Apesar da solução ser tecnológica, a transformação é humana.

Isso exige uma nova lógica de liderança.

Leandro defende que empresas precisam estabelecer objetivos claros, criar governança baseada em métricas, capacitar pessoas, desmistificar a tecnologia e equilibrar experimentos de curto, médio e longo prazo.

Também surgem novos papéis dentro das organizações: profissionais capazes de desafiar processos, construir agentes inteligentes e conectar desafios de negócio a soluções ponta a ponta.

No fundo, a IA não elimina a importância das pessoas.

Ela aumenta a responsabilidade das lideranças sobre cultura, aprendizado e adaptação.

Para CEOs, a pergunta deixa de ser “qual IA vamos usar?” e passa a ser outra: “o que precisamos nos tornar para que a IA funcione de verdade?”

✦ Aprendizados que ficam
  • IA é um desafio cultural antes de ser tecnológico.
  • O maior retorno da IA não está apenas na eficiência, mas na criação de novos negócios e novas receitas.
  • A vantagem competitiva será a velocidade com que a empresa aprende, adapta e escala. Se a inteligência artificial está cada vez mais acessível, talvez o diferencial mais raro continue sendo profundamente humano: a capacidade de mudar.
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Apenas 5% das organizações conseguem extrair resultado significativo da IA generativa.
70% dos investimentos em inovação vão para evoluir produtos existentes e atender clientes existentes.
10% dos investimentos direcionados à disrupção representaram um terço dos resultados de vendas após cinco anos.
Os investimentos globais em IA passaram de US$ 1,5 trilhão para US$ 3 trilhões.
O consumo de tokens aumentou 400%.
Projetos digitais levavam em média 28 meses antes da era digital.
Com práticas digitais e ágeis, esse prazo caiu para 9 meses.
Com IA generativa e sistemas agentivos, alguns ciclos podem ser reduzidos para dias.
Em um exemplo de produtividade, uma funcionalidade que consumia 20 horas passou a consumir 10 horas na etapa AI Augmented.
A CI&T mira uma operação em nível 5X de eficiência.
Algumas operações experimentais já alcançaram ganhos de eficiência de até 10 vezes.
ARTIGO 12 · AISummit · Neurotech · HealthTech · Data
🤖 IA

Ainda não leem nossos pensamentos. Mas talvez esse seja apenas o começo.

Daniele De Mari
Daniele De MariCofundadora & CEO · Neurogram
David Pares
David ParesChief Medical Officer · ISA Saúde

Big Tech não está lendo seu pensamento. Vai conseguir um dia? Talvez. Eu acredito que sim.

A frase de Daniele De Mari, cofundadora e CEO da Neurogram, captura o ponto mais fascinante, e inquietante, da conversa sobre neurotecnologia no Web Summit Rio.

O tema parecia futurista: controlar dispositivos com o cérebro. Mas a discussão rapidamente saiu do imaginário de ficção científica e entrou em um território muito mais concreto: dados neurológicos, inteligência artificial, diagnóstico médico, regulação e os limites entre promessa e realidade.

Daniele foi clara ao separar hype de aplicação real. Hoje, exames como o eletroencefalograma não leem pensamentos. Eles identificam padrões em ondas cerebrais, como alterações associadas a epilepsia, sono, UTI e outros diagnósticos neurológicos.

“A gente não está lendo pensamento. A gente está procurando padrões em ondas cerebrais.”

Mas é justamente aí que está a virada estratégica.

Se o cérebro produz ondas, e se a IA consegue reconhecer padrões nessas ondas, a possibilidade de transformar sinais cerebrais em comandos deixa de ser fantasia. Controlar uma luz, acionar um telefone ou mover um dispositivo pode ser, no limite, uma questão de treinar modelos para reconhecer padrões específicos.

“Controlar coisas com o cérebro nada mais é do que reconhecimento de padrão de onda.”

O desafio é que o cérebro humano não é um banco de dados limpo. Pelo contrário. É um dos ambientes mais ruidosos e individuais que existem.

Daniele trouxe uma lição valiosa para qualquer líder que trabalha com IA: modelos treinados apenas com dados perfeitos podem impressionar no laboratório, mas falham no mundo real.

“Se você quer construir tecnologia para o mundo real, o dado não vai ser cristalino.”

A gente não está lendo pensamento. A gente está procurando padrões em ondas cerebrais.

Na prática, isso significa que a Neurogram treina seus modelos com dados ruidosos: eletrodos que caem, interferência do ambiente hospitalar, pacientes se mexendo, acompanhantes batendo na mesa, mastigação gerando falsos alarmes.

Essa talvez seja uma das maiores provocações da sessão: o futuro da IA aplicada à saúde não dependerá apenas de modelos mais sofisticados, mas de dados mais próximos da vida como ela é.

David Pares, médico e Chief Medical Officer da ISA Saúde, trouxe a perspectiva clínica. Para ele, a maior transformação nos próximos anos pode não estar em aplicações espetaculares, mas no acesso.

O cérebro ainda é pouco monitorado, em parte porque os exames são complexos, pouco acessíveis e historicamente presos a processos analógicos. Com digitalização, nuvem e IA, abre-se a possibilidade de levar diagnósticos neurológicos para mais pacientes, inclusive no cuidado domiciliar.

O impacto pode ser enorme em áreas como demência, crises epilépticas, alterações de consciência e diagnósticos diferenciais.

“Se a gente tiver mais dados para ter o diagnóstico certo, consequentemente vai ter um tratamento mais precoce e mais assertivo.”

Para CEOs e líderes de inovação, a mensagem vai além da saúde.

Controlar coisas com o cérebro nada mais é do que reconhecimento de padrão de onda.

Toda tecnologia emergente passa pelo mesmo dilema: a distância entre laboratório e escala. A pesquisa avança, o mercado se entusiasma, mas a vida real impõe ruído, regulação, segurança, custo e acesso.

Na neurotecnologia, essa tensão é ainda mais sensível. China, Estados Unidos e Brasil avançam em ritmos diferentes, especialmente por diferenças regulatórias e pela velocidade com que novas soluções podem ser testadas em pacientes.

O ponto não é defender menos segurança. É reconhecer que, quando a tecnologia corre mais rápido que a regulação, o diálogo entre empresas, pesquisadores, médicos e órgãos reguladores se torna urgente.

Nos próximos cinco anos, Daniele acredita que interfaces cérebro-máquina poderão começar a entrar mais na vida de pacientes com paralisia, permitindo maior autonomia. David aposta em algo mais amplo para a população: diagnósticos neurológicos mais acessíveis, precoces e precisos.

No fundo, a pergunta não é apenas se um dia vamos controlar dispositivos com o cérebro.

É o que faremos quando sinais antes invisíveis começarem a virar dados, comandos, diagnósticos e decisões.

✦ Aprendizados que ficam
  • A neurotecnologia ainda não lê pensamentos, mas a leitura de padrões cerebrais pode transformar a interação entre humanos e máquinas.
  • O futuro da IA aplicada à saúde dependerá menos de dados perfeitos e mais da capacidade de treinar modelos para lidar com o ruído da vida real.
  • A grande oportunidade está no acesso: transformar dados neurológicos em diagnósticos mais precoces, precisos e escaláveis. Se hoje ainda não lemos pensamentos, talvez a pergunta mais importante seja outra: estamos preparados para um mundo em que o cérebro também se tornará uma interface?
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
O exame citado utiliza 19 eletrodos ao redor da cabeça do paciente.
A patente mencionada da Apple era de 2023 e veio à tona cerca de dois meses antes da conversa.
A espessura da calota craniana foi citada como aproximadamente 1 centímetro, contribuindo para o ruído dos sinais cerebrais.
Foi mencionado que cerca de 90% de acurácia em dados muito “cristalinos” pode não refletir a performance real no mundo prático.
Daniele citou trabalhos com interface cérebro-máquina desde 2019.
A expectativa discutida foi de avanços mais concretos nos próximos 5 anos para pacientes e aplicações clínicas.
O cérebro humano foi citado como tendo cerca de 86 milhões de neurônios na fala da palestrante.
ARTIGO 13 · CreativeSummit · MediaSummit · AI · MusicBusiness
🤖 IA

Quando a IA Escala Demais, o Que Sobrevive É o Que Tem Alma

Rodrigo Vicentini
Rodrigo VicentiniGeneral Manager, América Latina · Deezer

Daqui a dois anos, o que vai prevalecer é o conteúdo autêntico. A música autêntica.

A frase é de Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer para a América Latina, e foi dita com a segurança de quem já viu os números. Na mesma semana em que o painel acontecia no Web Summit Rio, a maior união de músicos dos Estados Unidos entrava com processo contra gravadoras alegando uso não autorizado de gravações para treinar modelos de IA. O campo de batalha está armado. E a indústria da música, mais uma vez, é quem está na linha de frente.

O painel reuniu três perspectivas que raramente dividem o mesmo espaço: o direito, na figura do advogado Fábio de Sá Cesnik, sócio fundador do CQS/FV Advogados; a arrecadação, com Isabel Amorim, CEO do ECAD e uma das vozes mais qualificadas do Brasil em propriedade intelectual; e a distribuição, com Vicentini, que transformou a Deezer no laboratório mais avançado de categorização de música gerada por IA no país. O que emerge dessa conversa vai além da música.

Volume não é valor

A Deezer recebe diariamente cerca de 150 mil novas músicas. Desse total, aproximadamente 44% são 100% geradas por IA, número que no início do ano era de 25%. Crescimento de quase 80% em poucos meses. O efeito é previsível: inundação. As plataformas de streaming viraram depósito de conteúdo sintético sem nenhuma camada de criação humana identificável.

A resposta da Deezer foi direta: desmonetizar. Obras 100% geradas por IA não recebem repasse financeiro e não entram em recomendações editoriais ou algorítmicas. “A lógica é que o dinheiro da cadeia realmente produza uma obra”, explicou Vicentini. No ECAD, a lógica é equivalente: a cobrança das plataformas segue igual, mas a distribuição dos valores arrecadados vai apenas para titulares de obras com autoria humana identificada. Conteúdo sintético sem autor? Fica fora da fila.

O mercado, antes da regulação, já está punindo o excesso. Isso é um sinal importante para qualquer indústria criativa que esteja navegando essa curva.

A autoria humana como diferencial competitivo, não como detalhe jurídico

A lei brasileira é clara nos artigos 7 e 11 da Lei de Direitos Autorais: obra intelectual é criação de espírito, e criação de espírito pressupõe um ser humano como autor. A IA, por definição legal, não cria. Produz. Cesnik foi preciso ao traçar a distinção entre IA como ferramenta assistiva e IA como substituto do criador: “Como tecnologia assistiva ela é extremamente saudável. Agora, é diferente quando você entrega a criação totalmente.”

Vale notar que o Papa Leão XIV, no início de sua encíclica Laudate Deum et Humanitas, publicada em maio deste ano, tocou exatamente nesse ponto: as inteligências artificiais não vivem experiências, não possuem corpo, não amadurecem em relações. A criatividade, em sua essência, nasce da experiência humana.

A lógica é que o dinheiro da cadeia realmente produza uma obra

Nos Estados Unidos, o U.S. Copyright Office chegou à mesma conclusão no ano passado: só há obra protegida se houver pessoa por trás dela. A convergência entre lei brasileira, direito americano e posição institucional global não é coincidência. É uma direção.

Para executivos, o que isso implica é direto: autoria humana verificável não é apenas um requisito legal. É, cada vez mais, um critério de distribuição, monetização e relevância de mercado.

O ponto cego que ninguém resolveu ainda: quem paga pelo treino?

A questão mais complexa do painel não era o output, era o input. As ferramentas de IA generativa foram treinadas em catálogos inteiros de obras humanas, muitas vezes sem consentimento e sem compensação. Cesnik trouxe o caso de uma jornalista que teve textos publicados há 20 anos replicados quase integralmente por um modelo de IA, que estimou em 90% a probabilidade de ter sido treinado no seu catálogo.

No Brasil, o cenário é agravado pela ausência do instituto do fair use americano. Qualquer uso de uma obra por tecnologia, incluindo o treinamento de modelos, exigiria autorização prévia do titular. O PL 2338, que busca regular IA no país, ainda não foi aprovado. A União Europeia já regulou. Os Estados Unidos estão em movimento. O Brasil está na espera.

Isabel Amorim foi contundente: “Está acontecendo uma pirataria de algo muito mais valioso do que um álbum novo, que é todo o conhecimento humano.” O que está em jogo não é apenas a compensação de artistas. É a estrutura de valor sobre a qual toda a economia criativa foi construída.

Como tecnologia assistiva ela é extremamente saudável. Agora, é diferente quando você entrega a criação totalmente.

A discussão sobre como remunerar criadores pelo uso de suas obras no treinamento de IA é o próximo campo de batalha regulatório, e vai se estender muito além da música.

O que permanece quando a escala perde o sentido

Há um paralelo que merece atenção: após a pandemia, o presencial voltou a ser valorizado. Não porque o digital falhou, mas porque o excesso de digital criou demanda por autenticidade. A escala permitida pela IA generativa vai produzir um movimento semelhante: quando tudo pode ser gerado, o que foi verdadeiramente criado vira o ativo mais raro.

Rodrigo Vicentini traduz isso em dado comportamental: 97% dos brasileiros já não conseguem distinguir uma música feita inteiramente por humanos de uma feita inteiramente por IA. A diferença técnica desapareceu. Isso não significa que a autoria deixou de importar. Significa que o valor vai migrar da percepção sonora para a certificação de origem e a credibilidade do criador.

O artista, o escritor, o jornalista, o designer que documentar sua autoria, construir sua trajetória criativa e tornar verificável o humano por trás do trabalho vai ter, em dois anos, uma vantagem competitiva que nenhuma ferramenta consegue replicar. Não porque a IA vai ficar para trás. Mas porque a autenticidade vai se tornar o produto mais escasso do mercado.

✦ Aprendizados que ficam
  • Volume sem autoria não gera valor. As plataformas já desmonetizam conteúdo 100% sintético. O mercado chegou antes da regulação. Qualquer estratégia de conteúdo baseada apenas em escala gerada por IA está construída sobre areia.
  • A autoria humana verificável é um ativo estratégico. Não apenas por exigência legal, mas como critério crescente de distribuição, monetização e diferenciação de mercado. Documentar e proteger o processo criativo humano passou a ser decisão de negócio.
  • A questão do treinamento está em aberto, e vai custar caro para quem ignorar. O uso de obras humanas para treinar modelos sem consentimento e sem compensação é o próximo front regulatório global. Empresas que hoje dependem desses modelos precisam antecipar esse passivo.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 14 · AISummit · AI · ROI · FutureOfWork
🤖 IA

As empresas nunca investiram tanto em inteligência artificial. E, paradoxalmente, poucas conseguem provar o retorno desse investimento. O maior desafio da IA em 2026 não será implementá-la. Será extrair valor dela.

Laura Kroeff
Laura KroeffBox1824
Victor Travalon
Victor TravalonGerente de Transformação Digital · Kraft Heinz

Essa não é uma transformação tecnológica. É uma transformação humana viabilizada por tecnologia

Foi a partir dessa provocação que Laura Kroeff, da Box1824, e Victor Travalon, gerente de Transformação Digital da Kraft Heinz, discutiram um dos temas mais relevantes para 2026: como fechar a lacuna entre adoção de IA e geração de valor.

Depois de anos de experimentação, a conversa deixou de ser sobre tecnologia. Passou a ser sobre resultado.

Essa foi a principal mensagem da masterclass apresentada no Web Summit Rio. Em um momento em que os investimentos em IA continuam crescendo aceleradamente, a pressão para demonstrar ROI nunca foi tão grande.

A explicação para essa lacuna pode parecer contraditória: a tecnologia está avançando mais rápido do que as empresas conseguem se transformar.

“Essa não é uma transformação tecnológica. É uma transformação humana viabilizada por tecnologia”, resumiu Laura Kroeff.

A fala ajuda a explicar por que tantas iniciativas ainda não entregam o retorno esperado. Se os últimos anos foram marcados pela experimentação e pela proliferação de casos de uso, 2026 surge como o ano da aceleração e dos resultados concretos.

A jornada apresentada durante a palestra passa por três etapas: experimentação, aceleração e disrupção. A primeira foi marcada pelos testes e aprendizados. A segunda exige foco, governança e métricas. A terceira será o momento em que a IA deixará de apenas otimizar processos para criar novas formas de operar e gerar valor.

Mas existe um obstáculo importante: a prontidão das organizações ainda é baixa.

Um dos insights mais interessantes da apresentação foi reconhecer que os colaboradores não estão no mesmo estágio de adoção da IA. Existem os pioneiros, que exploram as ferramentas antes de todos; os que aprendem observando; e os que só aderem quando a mudança já está consolidada.

Tratar todos da mesma forma é um erro.

Para que a adoção aconteça em escala, é preciso desenvolver estratégias diferentes para cada perfil. Mais do que tecnologia, isso exige gestão da mudança, comunicação e construção de confiança.

A partir dos aprendizados acumulados com clientes e projetos, a Box1824 e a CI&T apresentaram cinco caminhos comprovados para capturar valor com IA.

O primeiro é confiança. As empresas precisam alinhar ambição, propósito e benefícios concretos para os colaboradores, reduzindo resistências e aumentando o engajamento.

O segundo é priorização. Em vez de dezenas de iniciativas dispersas, é necessário concentrar esforços nos casos de maior potencial de impacto e persistir até gerar resultados.

O terceiro é métricas. O retorno financeiro importa, mas não basta. Adoção, utilização, satisfação dos usuários e impacto operacional precisam ser monitorados continuamente.

O quarto é orquestração. À medida que agentes de IA passam a atuar em diferentes áreas da empresa, cresce a necessidade de plataformas unificadas, ambientes seguros e supervisão humana.

E o quinto é requalificação contínua. A aprendizagem deixa de ser um evento pontual e passa a ser uma competência permanente da organização.

O case da Kraft Heinz mostrou como esses princípios funcionam na prática.

Segundo Victor Travalon, a empresa não começou pela tecnologia. Começou pelos problemas de negócio. O foco estava em identificar oportunidades reais de gerar produtividade, melhorar decisões e criar impacto operacional.

Mais do que desenvolver ferramentas, o desafio era garantir adoção. Afinal, uma solução só cria valor quando as pessoas efetivamente a utilizam.

Por isso, métricas de uso, acompanhamento constante e objetivos financeiros claros passaram a fazer parte da estratégia desde o início. A evolução deixou de ser apenas transformar dados em insights e passou a utilizar IA para gerar prognósticos, apoiar decisões e ampliar a capacidade de resposta do negócio.

A principal lição do painel talvez seja justamente essa.

O futuro da IA não será definido por quem possui mais tecnologia, mas por quem consegue transformar tecnologia em comportamento, comportamento em adoção e adoção em resultado.

✦ Aprendizados que ficam
  • O maior desafio da IA não é tecnológico. É humano, cultural e organizacional.
  • O ROI surge quando as empresas priorizam casos de maior valor e medem resultados continuamente.
  • A era agentic exige confiança, governança e aprendizagem permanente para transformar experimentação em impacto real.
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Investimentos globais em IA saindo de aproximadamente US$ 1,5 trilhão para uma projeção de US$ 2,5 trilhões em 2026.
Crescimento de aproximadamente 400% nos custos relacionados ao uso de IA em organizações que já operam em escala.
Apenas 12% das empresas conseguem combinar simultaneamente redução de custos e aumento de receita por meio de iniciativas de IA.
Mais da metade dos CEOs entrevistados afirmam sentir forte pressão para demonstrar retorno concreto dos investimentos em inteligência artificial.
ARTIGO 15 · CreativeSummit · AI · Creativity · Marketing
🤖 IA

Quanto mais inteligente a inteligência artificial se torna, mais valiosa se torna a criatividade humana. Na era da IA, o diferencial não está em ter respostas. Está em fazer as perguntas certas.

Mari Pinudo
Mari PinudoCountry Manager, Brasil · Adobe

Durante anos, a tecnologia foi apresentada como uma ferramenta para aumentar produtividade, automatizar tarefas e acelerar processos.

Agora, pela primeira vez, ela também parece capaz de criar.

É justamente por isso que uma das discussões mais interessantes do Web Summit Rio não foi sobre o poder da inteligência artificial, mas sobre aquilo que continua exclusivamente humano.

A criatividade.

No painel que reuniu Mari Pinudo, Country Manager da Adobe no Brasil, e Giovana Giroto, CMO da Serasa Experian, surgiu uma provocação relevante para qualquer executivo: em um mundo onde algoritmos produzem textos, imagens, vídeos e campanhas em segundos, qual passa a ser o verdadeiro papel da criatividade?

A resposta das duas executivas foi clara.

Mais do que nunca, criatividade deixa de ser execução e passa a ser direção.

Essa talvez seja a principal mudança em curso.

Durante décadas, profissionais de marketing, comunicação e criação foram treinados para produzir respostas. Hoje, a inteligência artificial é extremamente eficiente nessa tarefa. O que ela ainda não faz é identificar oportunidades inéditas, compreender contextos complexos ou formular perguntas realmente transformadoras.

Como destacou Mari Pinudo, a IA parte de um repertório baseado no passado. Ela organiza informações existentes e acelera caminhos já conhecidos.

Criar futuros continua sendo uma tarefa humana.

Por isso, pensamento crítico, repertório, contexto e capacidade analítica ganham ainda mais importância.

A competência mais valiosa da próxima década talvez não seja saber responder.

Será saber perguntar.

A segunda reflexão importante do painel foi a mudança do papel da criatividade dentro das organizações.

Historicamente, grande parte da energia dos times era consumida por tarefas operacionais: produzir peças, adaptar formatos, analisar informações, consolidar dados e gerar relatórios.

Com a IA assumindo boa parte dessas atividades, abre-se espaço para uma contribuição mais estratégica.

A criatividade sobe de andar.

Ela deixa de estar concentrada na produção e passa a atuar na interpretação.

Os dados continuam fundamentais. A tecnologia continua indispensável. Mas o valor passa a estar na capacidade de transformar informação em significado.

Giovana trouxe uma reflexão interessante sobre esse ponto ao destacar que nunca tivemos acesso a tantos dados, métricas e sinais de comportamento. O desafio já não é obter informação.

O desafio é entender o que realmente importa.

Em um ambiente saturado por dados, criatividade passa a ser também a capacidade de separar sinal de ruído, encontrar padrões invisíveis e transformar insights em ações relevantes para as pessoas.

Mas houve um terceiro aprendizado que talvez seja o mais importante para líderes.

A tecnologia pode acelerar soluções.

Ela não substitui a compreensão do problema.

Ao final da conversa, surgiu uma reflexão poderosa sobre um erro recorrente dentro das empresas: apaixonar-se pela solução antes de entender a dor.

A abundância de novas tecnologias cria uma tentação constante de buscar aplicações para ferramentas recém-lançadas. Mas inovação relevante raramente começa pela tecnologia.

Ela começa pelo problema.

As melhores ideias continuam nascendo da observação humana, da empatia e da compreensão profunda das necessidades das pessoas.

Nesse sentido, a IA não reduz a importância da criatividade.

Ela aumenta sua responsabilidade.

Quanto mais acessíveis se tornam as ferramentas, menos diferencial existe na execução.

O diferencial migra para a qualidade do pensamento.

A própria personalização em escala, um dos grandes benefícios proporcionados pela inteligência artificial, depende dessa lógica. A tecnologia pode entregar a mensagem certa, para a pessoa certa, no momento certo. Mas somente seres humanos conseguem decidir qual mensagem merece ser enviada.

Essa talvez seja a grande ironia da revolução da IA.

As máquinas estão aprendendo a criar.

E isso está obrigando os humanos a serem ainda mais criativos.

✦ Aprendizados que ficam
  • A inteligência artificial torna a criatividade mais importante, não menos, porque o diferencial passa a ser formular perguntas e não apenas responder a elas.
  • A criatividade está migrando da execução para a interpretação, transformando dados e informações em significado e direção estratégica.
  • As melhores ideias continuam começando por problemas reais e necessidades humanas, e não pela tecnologia disponível.
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 16 · CreativeSummit · IA · DesignGenerativo · EconomiaCriativa
🤖 IA

Quando a execução vira commodity, o que do seu negócio ainda não pode ser clonado?

Oli Mival
Oli MivalVP, Product Strategy, AI Innovation & Experience · Picsart

Ideias são baratas, execução é tudo.

Por toda a carreira de Oli Mival, foi essa regra que sustentou empresas e carreiras, inclusive a dele. Nos últimos 18 meses, ela se inverteu: a execução virou commodity e o valor migrou de volta para a ideia. Resta uma pergunta: se qualquer um pode construir qualquer coisa, o que ainda vale?

Mival lidera estratégia de produto e inovação em IA na Picsart, que atende mais de 130 milhões de usuários mensais, e cunhou o conceito de “Vibe Design”. Sua tese para o C-level é direta: quando construir deixa de ser diferencial, o que importa é tudo o que não pode ser copiado.

A era das Guerras dos Clones

Qualquer ferramenta ou capacidade criativa pode hoje ser clonada em dias por poucos dólares. Não aproximada: clonada. Mival compara o momento ao Napster, que não só facilitou a pirataria como desvinculou música de escassez. O que sobreviveu não foi o produto, foi a marca, a relação com o artista, o momento ao vivo. O software, diz ele, vive agora seu próprio “momento Napster”.

A pergunta útil é uma só: o que não pode ser clonado? A lista é curta, marca, relações, velocidade e repertório de gosto (taste), mas decisiva. Daí o teste que ele propõe: “isto poderia ser clonado em uma semana?” Se sim, não é o seu fosso competitivo.

Empoderamento, não automação

: em vez de o humano cavalgar a máquina, o humano vira apêndice dela.

Há duas IAs que parecem iguais e levam a destinos opostos. Uma prevê você, completa suas frases e assume o volante, puxando tudo para a média confortável. Mival batiza esse fracasso de “centauro invertido”: em vez de o humano cavalgar a máquina, o humano vira apêndice dela. “A IA preditiva homogeniza; a IA provocadora liberta.”

A evidência: a OpenAI reverteu uma atualização por ter deixado seu modelo bajulador demais, chamando ideias ruins de brilhantes. A lição: aprovação não é alinhamento. O bom colaborador provoca, não elogia. Por isso Mival propõe um dial entre três modos, delegar, dirigir e fazer, que o usuário controla tarefa a tarefa.

A barreira que caiu foi a articulação, não a imaginação

Esse é o coração da palestra. Ao medo de que ferramentas iguais nivelem tudo por baixo, Mival responde com o cinema: há 25 anos, quando a produção foi para o digital, previa-se mediocridade em massa. O que veio foram histórias que jamais seriam contadas. A curva de qualidade manteve o formato; o volume explodiu. “A barreira que caiu foi a articulação, não a imaginação.” O gosto ainda precisa vir de algum lugar humano.

A barreira que caiu foi a articulação, não a imaginação.

Na prática: mover o trabalho “para cima e para a esquerda”, ideação, julgamento, imaginação, e delegar a produção à máquina. Mival conta que seu agente, o Kit, nasceu de uma conversa de quatro horas sobre quem ele é; certa noite, no tempo de escovar os dentes, construiu e testou uma ferramenta funcional. E, fiel ao princípio, o desafiou: disse que ele ainda forçava a piada e que não estava engraçado.

Para onde o jogo está indo

A tese conversa com a ascensão da “generative UI”: a interface deixa de ser uma parede fixa de ferramentas e se monta em tempo real em torno da intenção, algo que o Google já faz na busca, entregando layouts sob medida em vez de só links. Para quem entrega software, a pergunta não é se isso chega à sua interface, mas se você vai construí-la de propósito ou ser pego de surpresa. Com a execução tendendo a custo zero, a vantagem migra para o que está ao redor: contexto, marca, distribuição e velocidade.

✦ Aprendizados que ficam
  • Rode o teste do clone em tudo: se pode ser copiado em uma semana, não é diferencial. Invista no que não se clona, marca, relações, velocidade e gosto.
  • Construa IA que provoca, não que bajula. Troque “isto está bom?” por “qual o argumento mais forte contra isto?” e mantenha o controle do dial entre delegar, dirigir e fazer.
  • Mova as pessoas para a imaginação e entregue a produção à máquina. A tecnologia existe para encurtar a distância entre a imaginação e sua articulação no mundo.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Por mais de 30 anos, o software criativo entregou uma parede de cerca de 400 ferramentas.
Há 25 anos, o cinema migrou para o digital, derrubando as barreiras de custo de produção.
A Picsart atende cerca de 130 milhões de usuários mensais, com mais de 1 bilhão de projetos por mês.
A camada criativa reúne mais de 140 modelos generativos de imagem e vídeo.
Oli faz cerca de 90% de suas interações com o Kit por voz.
ARTIGO 17 · FintechSummit · AISummit · Inovação · LiderançaExecutiva
🔥 Destaque

A IA não toma decisões. Ela devolve tempo para o que importa: o relacionamento

Tarciana Medeiros
Tarciana MedeirosPresidente · Banco do Brasil
Marcelo Braga
Marcelo BragaCEO · IBM Brasil

O maior desafio que encontro para o avanço da IA é conseguir que os humanos tenham a oportunidade de acompanhar o avanço da IA na velocidade que ela avança.

A frase é de Tarciana Medeiros, primeira mulher a presidir o Banco do Brasil, e resume com precisão cirúrgica a tensão central que dominou o palco do Web Summit Rio 2026. Ao lado de Marcelo Braga, CEO da IBM no Brasil, e mediados pelo colunista do Valor Econômico Guilherme Ravache, os dois executivos construíram um argumento que vai na contramão do discurso mais ansioso sobre IA corporativa: a tecnologia não veio para substituir o julgamento humano. Veio para liberar espaço para ele.

O ponto de partida foi a escala. Liderar uma transformação cultural em uma organização de 125 mil funcionários não é uma questão de software. “Criar cultura de inteligência artificial em toda a empresa ao mesmo tempo é um desafio”, reconheceu Tarciana. A resposta do banco foi estrutural: a Academia, plataforma interna de formação contínua disponível para todos os colaboradores, teve como tema central deste ano letramento em IA, com trilhas tanto conceituais quanto operacionais. A premissa é direta: não adianta implementar tecnologia sem preparar as pessoas para entendê-la, questioná-la e usá-la com critério.

Marcelo Braga trouxe a perspectiva de quem acompanha esse movimento de fora para dentro. Para ele, o erro mais comum das empresas é tratar IA como um projeto de tecnologia. “Se você não tem um problema de negócio para resolver, se você não tem métricas de sucesso, é um projeto que tende a fracassar como qualquer outro.” A lógica, segundo ele, é a mesma de qualquer iniciativa corporativa séria: clareza de propósito, pessoas certas, indicadores reais.

Na prática, o Banco do Brasil já colhe resultados concretos dessa abordagem. O Resolve Aí, assistente de IA voltado para gerentes de relacionamento, consolida automaticamente todas as informações de um cliente antes do atendimento, gerando ao menos 30% de incremento nos resultados comerciais daquelas interações. Outro caso apresentado foi o dossiê eletrônico de câmbio, processo que levava dias para ser concluído e hoje é resolvido em quatro horas. O efeito não é a eliminação do gerente, mas o oposto: com menos tempo gasto em trabalho operacional, o profissional volta a fazer o que a tecnologia não consegue replicar.

Criar cultura de inteligência artificial em toda a empresa ao mesmo tempo é um desafio

> “A gente passou por um processo em que deslocamos as pessoas para operações muito operacionais. E agora, com a IA, a gente volta a se relacionar”, disse Tarciana. É uma das afirmações mais reveladoras do painel. A digitalização da última década, paradoxalmente, afastou os bancários do atendimento humanizado. A IA, bem aplicada, reverte esse movimento.

Outro produto citado foi o Minhas Finanças, solução integrada ao aplicativo do banco que usa IA para orientar clientes na gestão do próprio dinheiro. Já foram entregues mais de 700 milhões de recomendações, e os usuários que adotaram a ferramenta demonstram melhora mensurável em seus comportamentos financeiros, de forma orgânica, sem campanhas ou treinamentos separados.

O debate também tocou em um ponto que poucos executivos têm coragem de nomear em público: o risco de atrofia. Guilherme Ravache observou que jornalistas que passaram a depender de IA para escrever relatam escrever pior. Tarciana não desviou da questão. Para ela, o mesmo risco existe dentro das organizações, e a resposta está na governança: “Eu utilizo a IA muito para buscar informações que sustentem a execução da nossa estratégia corporativa, e muito menos para guiar a decisão.” A ferramenta informa. A decisão permanece humana.

Se você não tem um problema de negócio para resolver, se você não tem métricas de sucesso, é um projeto que tende a fracassar como qualquer outro.

Marcelo completou o raciocínio com um alerta sobre velocidade. As empresas que não construírem capacidade interna de orquestração e governança de IA vão se ver permanentemente correndo atrás de atualizações, sem nunca consolidar valor real. “Você vai ficar esperando qual é a mais moderna e não vai dar certo.”

O painel terminou onde começou: na centralidade do humano. Para Tarciana, o Banco do Brasil não está construindo um banco mais automatizado. Está construindo um banco “muito digital, profundamente digital, essencialmente humano”. São 80 milhões de clientes, em regiões com realidades completamente distintas, e a estratégia precisa dar conta de todas elas, do interior com baixa conectividade até os grandes centros onde a adoção digital é orgânica.

✦ Aprendizados que ficam
  • IA sem cultura é infraestrutura sem uso: a adoção tecnológica só gera resultado quando acompanhada de letramento real, do C-level à operação.
  • O critério de sucesso de um projeto de IA é o mesmo de qualquer outro projeto: problema de negócio claro, métricas definidas e as pessoas certas envolvidas.
  • A IA não toma decisões, ela amplia a capacidade de tomá-las melhor: empresas que entenderem isso vão usar a tecnologia para liberar o julgamento humano, não para substituí-lo.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
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ARTIGO 18 · CreativeSummit · Streaming · Música · EconomiaCriativa
🔥 Destaque

Relevância não se prevê, se escuta: a lição do Spotify para qualquer negócio

Carolina Alzuguir
Carolina AlzuguirHead of Music, Brasil · Spotify
Bryan Johnson
Bryan JohnsonHead of Artist & Industry Partnerships, Intl · Spotify

era o momento errado, o público errado; mas são recursos que trazemos de volta pensando em novos públicos

Há alguns anos, o Spotify lançou mensagens sociais dentro do app. Fracassou. Em 2025, trouxe o recurso de volta. O que mudou não foi a ideia, foi o público e o momento. A história, contada no palco do Web Summit Rio, resume uma lição que vale para qualquer empresa: relevância não se prevê, se escuta.

Foi o que defenderam Carolina Alzuguir, Head of Music do Spotify no Brasil, e Bryan Johnson, Head of Artist & Industry Partnerships International, ela à frente da estratégia musical do país há quase uma década, ele com 13 anos de casa e um passado como músico de turnê. Em conversa com Claudia Assef, da Billboard Brasil, os dois abriram o capô de uma plataforma que, aos 20 anos, atravessou “da pirataria à recuperação” e hoje reúne mais de 750 milhões de pessoas por mês.

*O consumidor trocou de categoria, e o produto precisa trocar junto*

A primeira mudança é de comportamento. A nova geração não se ancora num único gênero. “A nossa geração dizia 'sou roqueiro' ou 'sou sambista'”, lembrou Carolina; a Gen Z mistura tudo, a qualquer hora. O reflexo aparece na produção, álbuns que já não cabem num só rótulo, e no próprio produto: o Spotify passou a organizar playlists “que falam mais de humor e de momentos do que de gênero”. A leitura para qualquer negócio é direta: as caixas que sempre definiram o seu mercado podem não ser mais como o cliente pensa. Estruture a oferta em torno do comportamento real, humor, momento, contexto, não da categoria herdada.

*Nenhuma boa ideia morre: quase sempre, o problema é o tempo*

fomos consistentes em uma coisa: escutar, permanecer relevantes, entender o público

O Spotify observa os perfis de escuta de centenas de milhões de pessoas para antecipar o que elas vão querer a seguir, e lança a partir disso. Vídeo entrou aos poucos nos perfis de artistas até virar vídeo de tela cheia. Sobre o fracasso da primeira tentativa, Bryan foi cirúrgico: “era o momento errado, o público errado; mas são recursos que trazemos de volta pensando em novos públicos”. A disciplina por trás disso, ele resume, é simples: “fomos consistentes em uma coisa: escutar, permanecer relevantes, entender o público”. A lição executiva: trate o fracasso de produto como dado de timing, não como veredito. Decisões nascem do comportamento observado, e uma ideia que falhou pode estar apenas adiantada.

*Autenticidade não é barreira para escalar, é o motor*

A premissa antiga dizia que, para ir global, era preciso se homogeneizar: cantar em inglês, diluir a raiz. O streaming inverteu isso. O funk foi um dos gêneros que mais cresceram no mundo, acima do K-pop, e o português foi o idioma que mais avançou, à frente de inglês, espanhol e coreano. O Top 50 Global tinha 16 idiomas no último ano, contra 8 cinco anos atrás. Bad Bunny lota estádios cantando na própria língua para plateias que não falam espanhol, mas “entendem a cultura, entendem a música”. Como sintetizou Carolina, “você não precisa mudar para ter sucesso globalmente”. Para o C-level, o recado atravessa a música: especificidade cultural viaja, e dobrar a aposta no que te torna distinto pode ser o caminho mais seguro para escalar.

*Para onde o jogo está indo*

As três lições convergem para uma única postura operacional. As empresas que duram não vencem por adivinhar o futuro, vencem por ler o presente de forma contínua e remodelar produto, categorias e apostas a partir do comportamento real. Numa era em que todos correm para prever com IA, a vantagem durável é a infraestrutura de escuta: dados sobre o que o cliente faz (não o que diz) e a humildade organizacional para ressuscitar, aposentar e reposicionar iniciativas no tempo certo. A jogada contraintuitiva, apostar em autenticidade em vez de homogeneização, vale muito além da música, de marcas a conteúdo. E a transparência (o relatório Loud and Clear) é o tecido conectivo: quando os parceiros questionam como o valor circula, abrir o capô constrói a confiança que mantém o ecossistema alimentando a plataforma com dados e criação.

✦ Aprendizados que ficam
  • Pare de segmentar por categorias herdadas. O consumidor, sobretudo o mais jovem, se organiza por humor e momento, não por rótulo. Estruture a oferta em torno do comportamento real.
  • Trate o fracasso como dado de timing. Produto nasce do comportamento observado, e uma ideia que falhou pode estar apenas adiantada, mantenha um backlog de boas ideias à espera do público e do momento certos.
  • Autenticidade escala. Diluir a identidade para parecer global é a aposta antiga; a nova é dobrar no que te diferencia. Especificidade cultural viaja, e cresce acima da média.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Spotify completa 20 anos e está presente em mais de 180 mercados.
Mais de 750 milhões de pessoas usam o Spotify todos os meses.
US$ 11 bilhões pagos à indústria musical no último ano, parte dos US$ 70 bilhões pagos desde a fundação; metade foi para artistas e selos independentes.
Quase 14 mil artistas geraram mais de US$ 100 mil cada no último ano.
O funk foi um dos gêneros que mais cresceram globalmente, acima do K-pop.
O português foi o idioma que mais cresceu, à frente de inglês, espanhol e coreano.
16 idiomas no Top 50 Global, contra 8 cinco anos atrás.
Brasil é o 8º maior mercado de música gravada (IFPI); a receita cresceu 14% e o streaming, 13%, 87% da receita vem do streaming.
Artistas brasileiros geraram quase R$ 2 bilhões no Spotify no último ano, alta de 24%.
América Latina foi a região que mais cresceu globalmente, com o Brasil como principal motor.
Mais da metade dos royalties de um artista costuma vir de fora do mercado de origem poucos anos após a estreia.
ARTIGO 19 · MarketingSummit · Hiperpersonalização · Confiança · IA
📺 Mídia

Confiança é a nova conversão: por que a hiperpersonalização se tornou central para crescer e atender melhor

Roberta Savattero
Roberta SavatteroCMO · Arco Educação
Sandra Montes
Sandra MontesCMO · Olist

A partir do momento que eu uso dados só para me beneficiar, eu quebrei a relação de confiança. E se eu quebrei essa relação, dificilmente eu continuo numa trajetória de longo prazo.

A frase de Roberta Savattero, CMO da Arco Educação, sintetiza a virada que duas das principais lideranças de marketing do país vieram defender no palco: a hiperpersonalização deixou de ser um recurso de campanha para se tornar o eixo da confiança, e, por consequência, do crescimento.

As credenciais das duas dão peso ao recado. Sandra Montes, CMO da Olist, é economista com formação executiva em Harvard e no MIT, passou por Electrolux, OLX e Rappi e foi eleita uma das 10 melhores CMOs do Brasil pela Forbes. Roberta construiu carreira entre gigantes como Unilever e Nestlé e hoje lidera o marketing de um ecossistema educacional que chega a mais de quatro milhões de alunos no país. A conversa foi conduzida por Rebecca Silva, repórter da Pequenas Empresas & Grandes Negócios.

O ponto de partida é desconfortável: a mesma personalização que encanta pode afastar. Roberta descreveu a linha tênue entre as duas reações. A recomendação da Netflix é bem-aceita porque entrega ultraconveniência em meio ao excesso de escolhas. Já o anúncio que aparece logo depois de uma conversa íntima dentro de casa empurra a marca para o que ela chamou de “cestinha da rejeição”. O número que sustenta o alerta é contundente: quase 40% dos consumidores brasileiros rejeitam uma marca quando sentem que ela invadiu sua privacidade.

A diferença entre um lado e outro tem nome: valor. “Em primeiro lugar, eu preciso gerar valor. A venda tem que ser uma consequência”, resumiu Roberta. Inverter essa ordem, pensar na venda antes do valor, é o caminho mais curto para a rejeição. Personalizar bem, portanto, é usar o dado do consumidor a favor dele, não da marca.

Em primeiro lugar, eu preciso gerar valor. A venda tem que ser uma consequência

Sandra ampliou o argumento para a essência da relação. Defendeu que a conexão emocional está longe de ser coisa do passado: é justamente ela que constrói confiança, autoridade e reputação, condições para que uma mensagem específica seja recebida com

conforto, e não como intrusão. “Não existe maior ensinamento do que conhecer realmente com quem você lida”, disse. Conhecer o consumidor, via comunidades, programas de afiliados, influenciadores, é o que permite personalizar sem invadir.

Essa confiança também passa pelo jurídico. Para Sandra, marketing e compliance hoje são inseparáveis: é preciso saber o que se fala, como se fala e estar amparado pela lei, mensurando o risco em vez de terceirizá-lo. “Não existe mais comunicação sem risco”, afirmou, e o que diferencia as empresas é a capacidade de medir esse risco e mesmo assim entregar valor com transparência.

Não existe maior ensinamento do que conhecer realmente com quem você lida

Foi também Sandra quem deslocou a discussão de canais para resultado. Visualizações e cliques, lembrou, são apenas pano de fundo; o que realmente prova a estratégia é quanto o cliente se aprofunda dentro do ecossistema, share of wallet, adoção de novos produtos, recorrência. “As métricas que são de ego ficam pra trás. As métricas de negócio são as que vão pra frente”, disse, antes de redefinir o próprio papel do marketing: “Não existe um marketeiro hoje que, se não entender de negócio, faça mais sentido.” Para ela, branding é growth e growth é branding, e a personalização só cresce quando é medida pela expansão real do cliente, não pela vaidade da campanha.

A leitura para qualquer C-level é clara: Uma conversa sobre personalização se tornou sobre proposta de valor e alinhamento com a necessidade do cliente. A personalização migrou do território das campanhas para o da relação. Ela só sustenta crescimento quando entrega valor real, respeita a fronteira da privacidade e é avaliada por métricas de negócio. Num mercado em que quase metade dos consumidores pune quem ultrapassa o limite, confiança virou o ativo mais difícil de construir, e o mais caro de perder.

✦ Aprendizados que ficam
  • Valor antes da venda. A personalização é aceita quando gera conveniência e confiança, e rejeitada quando invade a privacidade; usar o dado a favor do consumidor é o que separa o encantamento da rejeição.
  • Personalização é relação, não campanha. Mais do que canais e mensagens, ela é a capacidade de entregar valor de forma contínua, e é isso que constrói confiança, autoridade e reputação de longo prazo.
  • Meça pelo negócio, não pelo ego. O sucesso da personalização aparece na expansão do cliente dentro do ecossistema, não em cliques e visualizações.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Quase 40% dos consumidores brasileiros rejeitam uma marca quando sentem que ela invadiu sua privacidade.
Mais de 12 mil escolas atendidas pela Arco no Brasil, base sobre a qual é feito o cruzamento individual de dados do ENEM.
Como contexto adicional, a Arco Educação alcança mais de 4 milhões de alunos no país.
ARTIGO 20 · MarketingSummit · AI · Data · CustomerExperience
📺 Mídia

A hiperpersonalização não começa na tecnologia. Começa na pergunta certa.

Sandra Montes
Sandra MontesCMO · Olist
Roberta Savattero
Roberta SavatteroCMO · Arco Educação

A distância entre a promessa e a prática da hiperpersonalização é maior do que as empresas gostariam de admitir.

Foi com esse alerta que a discussão sobre hiperpersonalização no Web Summit Rio 2026 saiu do campo do hype e entrou no terreno que realmente interessa aos CEOs: execução, dados, confiança e resultado de negócio.

Mediada por Rebecca Silva, repórter da Pequenas Empresas & Grandes Negócios, a conversa reuniu Sandra Montes, CMO da Olist, executiva com passagens por Electrolux, OLX e Rappi, reconhecida pela Forbes como uma das 10 melhores CMOs do Brasil, e Roberta Savattero, CMO da Arco Educação, ecossistema educacional que alcança mais de 4 milhões de estudantes no país.

A promessa é sedutora: entregar a mensagem certa, para a pessoa certa, no canal certo, no momento certo, com a oferta certa. Mas a realidade é bem mais complexa.

Sandra foi direta ao ponto: antes de escolher uma ferramenta, automatizar jornadas ou pedir respostas para a inteligência artificial, as empresas precisam olhar para dentro.

“Você precisa entender quais dados você já tem e como pode usar esses dados com propriedade.”

Esse talvez seja o grande choque de realidade da hiperpersonalização. Muitas empresas estão olhando para fora, buscando novas plataformas, novas soluções e novas tecnologias, mas ainda não organizaram o básico: seus próprios dados, suas dores de negócio e seus objetivos estratégicos.

Roberta reforçou a mesma visão ao falar sobre inteligência artificial. A tecnologia pode acelerar testes, análises e decisões, mas não substitui clareza estratégica.

“Se você não fizer as perguntas certas, provavelmente vai receber respostas erradas ou alucinadas.”

Esse ponto é central. A IA não resolve falta de estratégia. Ela potencializa o que já existe. Se a empresa não sabe o que quer medir, que problema quer resolver ou qual experiência deseja criar, a tecnologia apenas acelera a confusão.

Sandra trouxe um dado importante de uma pesquisa global da McKinsey: apenas 10% das empresas na América Latina conectam inteligência artificial à estratégia de negócio. E apenas 6% afirmam que a IA gera valor real para suas empresas.

O número revela uma contradição poderosa. Nunca se falou tanto em IA, automação e personalização. Mas poucas empresas conseguiram transformar essas ferramentas em vantagem competitiva concreta.

Você precisa entender quais dados você já tem e como pode usar esses dados com propriedade.

Na prática, a personalização eficiente nasce menos da sofisticação tecnológica e mais da capacidade de entender uma dor específica do cliente.

No caso da Olist, Sandra explicou que a empresa já possui informações valiosas sobre seus empreendedores: notas fiscais, datas de pagamento, envios, necessidades financeiras, gestão, crédito e carteira digital. A oportunidade está em usar esses dados para oferecer soluções realmente úteis no momento certo.

“Quando você entende a dor, consegue oferecer melhor. E aí a conversão aumenta.”

Roberta trouxe a perspectiva da educação. Na Arco, a personalização passa por dados pedagógicos, escolas, famílias e alunos. O desafio é usar informações para entender competências, identificar lacunas de aprendizagem e apoiar escolas na construção de jornadas mais efetivas.

É uma personalização com impacto profundo: não apenas vender melhor, mas ajudar alunos a aprenderem mais e se prepararem melhor para a vida.

Mas a conversa também trouxe um alerta essencial: personalização sem confiança vira invasão.

Rebecca provocou o painel com uma experiência conhecida por muitos consumidores: falar sobre uma marca em uma conversa privada e, pouco depois, ser bombardeado por anúncios relacionados. O efeito é imediato: em vez de encantamento, surge desconforto.

Sandra lembrou que quase 40% dos consumidores brasileiros rejeitam abordagens que parecem invadir sua privacidade.

Se você não fizer as perguntas certas, provavelmente vai receber respostas erradas ou alucinadas.

Esse é o limite mais delicado da hiperpersonalização. O consumidor aceita compartilhar dados quando percebe benefício claro. Mas rejeita quando sente vigilância, excesso ou uso indevido de informações.

Roberta resumiu bem esse equilíbrio: a relação com o consumidor precisa ser baseada em transparência, benefício e longo prazo.

“Se eu quebro essa relação de confiança, dificilmente ela continua no longo prazo.”

Para CEOs, esse ponto é decisivo. A hiperpersonalização não pode ser tratada apenas como uma iniciativa de marketing. Ela exige governança, compliance, clareza de uso de dados, colaboração entre áreas e uma pergunta permanente: o cliente percebe valor real nessa troca?

No fim, a sessão mostrou que a hiperpersonalização não é sobre falar mais com o consumidor. É sobre falar melhor.

Não é sobre ter mais dados. É sobre saber o que fazer com eles.

Não é sobre usar IA porque todos estão usando. É sobre conectar tecnologia à estratégia, à experiência e às métricas que realmente importam.

✦ Aprendizados que ficam
  • Hiperpersonalização começa dentro de casa: antes de comprar novas ferramentas, a empresa precisa organizar seus dados, seus objetivos e suas dores de negócio.
  • IA sem estratégia não gera valor: a tecnologia acelera testes e respostas, mas depende de boas perguntas, bons indicadores e clareza sobre o problema a ser resolvido.
  • Personalização exige confiança: quanto mais individualizada for a comunicação, maior precisa ser a transparência sobre o uso de dados e o benefício gerado para o cliente. A pergunta que fica é: sua empresa está usando dados para servir melhor o cliente ou apenas para falar mais com ele?
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Apenas 10% das empresas na América Latina conectam inteligência artificial à estratégia de negócio, segundo pesquisa global da McKinsey citada no painel.
Apenas 6% das empresas afirmam que a IA gera valor real para o negócio.
Quase 40% dos consumidores brasileiros rejeitam abordagens que percebem como invasivas em relação à privacidade.
A Arco Educação alcança mais de 4 milhões de estudantes no Brasil.
O Brasil tem mais de 12 mil escolas, contexto citado por Roberta Savattero ao falar sobre uso de dados educacionais.
Sandra Montes foi reconhecida pela Forbes como uma das 10 melhores CMOs do Brasil em 2022.
ARTIGO 21 · NewMediaSummit · AI · Jornalismo · Desinformação
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A verdade ainda existe. Mas cada vez menos gente sabe de onde ela vem

Julie Pace
Julie PaceExecutive Editor · Associated Press
Ayesha Chowdhury
Ayesha ChowdhuryBBC World Service

Se as pessoas estão obtendo informações em novas plataformas, eu quero que seja jornalismo da Associated Press que elas estão consumindo.

Julie Pace passou anos cobrindo a Casa Branca para a Associated Press. Hoje, como editora-executiva da agência, ela lida com uma questão que transcende qualquer presidente: quando 4 bilhões de pessoas por dia consomem jornalismo da AP, muitas sem saber disso, e esse conteúdo passa a chegar via assistentes de IA, quem garante que o fato ainda é um fato ao chegar do outro lado?

No Web Summit Rio 2026, ao lado de Ayesha Chowdhury, da BBC World Service, Pace não veio falar sobre tecnologia. Veio falar sobre o que acontece com a verdade quando ela passa a ser mediada por sistemas que ninguém controla completamente.

“Se as pessoas estão obtendo informações em novas plataformas, eu quero que seja jornalismo da Associated Press que elas estão consumindo.”

Em algum ponto dessa cadeia, alguém precisou estar lá. Sem o jornalismo testemunhal, tudo o que vem depois é remixagem de algo que talvez nunca tenha sido verificado.

O argumento central dela é menos óbvio do que parece: a AP não é um site de notícias, é uma infraestrutura. Aquela foto de conflito, aquele resultado eleitoral que você viu em algum lugar hoje? Provavelmente saiu da AP. Você só não sabia. E é exatamente esse anonimato que torna o momento atual tão delicado: quando a IA reprocessa e entrega essa informação sem citar a origem, a cadeia de responsabilidade se rompe.

Pace fez questão de nomear o que mais a preocupa: não é a IA em si, é a crescente incapacidade do público de rastrear a origem de uma informação. Num ecossistema em que conteúdo sintético melhora a cada mês e algoritmos reforçam o que cada pessoa já quer acreditar, a proveniência virou o único atributo que ainda distingue o real do fabricado. E verificar proveniência é um esforço que a maioria das pessoas simplesmente não faz.

“Em algum ponto dessa cadeia, alguém precisou estar lá. Sem o jornalismo testemunhal, tudo o que vem depois é remixagem de algo que talvez nunca tenha sido verificado.”

✦ Aprendizados que ficam
  • A disputa com as plataformas de IA não é só sobre dinheiro. É sobre quem define o valor do jornalismo verificado num mundo onde qualquer conteúdo pode ser gerado instantaneamente.
  • O jornalismo testemunhal, com repórteres presentes onde os fatos acontecem, é o único ponto de origem que nenhuma IA consegue substituir. Quem financia essa camada tem influência real sobre o que o mundo sabe.
  • A cadeia de responsabilidade sobre os fatos está se fragmentando. Veículos e plataformas precisam saber onde cada um responde, antes que um erro em larga escala force essa conversa da pior forma.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 22 · MediaSummit · AISummit · Branding
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A próxima vantagem competitiva das marcas não está nas ferramentas de IA. Está no universo que elas constroem

Tiago Lara
Tiago LaraHead of Brand Excellence · Nubank
Eduardo Ferreira
Eduardo FerreiraDiretor de Operações Comerciais · Globo Ads

Quando todo mundo tem acesso às mesmas ferramentas, o universo construído em cima dessa marca faz toda a diferença.

A frase é de Tiago Lara, Head of Brand Excellence do Nubank, e resume com precisão cirúrgica o que estava em jogo no primeiro painel do dia no Web Summit Rio 2026. Ao lado de Eduardo Ferreira, Diretor de Operações Comerciais da Globo Ads, Lara não veio falar sobre qual ferramenta de IA usar. Veio falar sobre o que acontece depois que todos já as estão usando.

A pergunta não é mais “como automatizar”. É “como existir”, na mente do consumidor e, cada vez mais, na memória das máquinas que intermediam a jornada de compra.

A disputa migrou do clique para a autoridade

Durante anos, a lógica do marketing digital foi construída em torno de cliques, posições e palavras-chave. A IA generativa está desfazendo essa lógica em tempo real.

“Eu tenho que me preparar para alimentar também as LLMs”, disse Lara. “Antes era uma lógica de cliques. Agora é uma lógica de autoridade. Como eu construo uma autoridade semântica para que aquela LLM identifique o meu produto como uma referência?”

O exemplo é revelador: quando alguém digita na GE o resultado de um jogo, a LLM já respondeu antes do clique. O site não foi visitado. O anúncio não foi visto. A marca ou estava na memória do modelo ou simplesmente não existia naquela jornada.

Eduardo Ferreira reforçou o mesmo ponto pela ótica da Globo: a plataforma produz conteúdo em escala industrial e, ao fazer isso, está simultaneamente alimentando a base semântica que as LLMs consomem. “A LLM vai pesquisar qual é a referência. Quantas camadas existem entre nós e o usuário final?”

A resposta a essa pergunta é o novo campo de batalha do marketing.

Autoridade semântica não é SEO. É construção de universo

Aqui está o ponto que separa a discussão superficial da estratégica: autoridade semântica não se constrói com volume de conteúdo otimizado. Ela se constrói com o que Lara chama de “lore”, o universo narrativo, a mitologia e a atmosfera acumulada de uma marca ao longo do tempo.

Antes era uma lógica de cliques. Agora é uma lógica de autoridade. Como eu construo uma autoridade semântica para que aquela LLM identifique o meu produto como uma referência?

“É assim com O Senhor dos Anéis, é assim com a novela das três, é assim com Thunderbolts agora no cinema”, disse ele. “O universo construído em cima dessa marca faz toda a diferença quando todo mundo tem a mesma informação, quando todo mundo tem acesso ao mesmo potencial.”

A implicação para o marketing executivo é direta: posicionamento e propósito já não bastam. O que uma marca precisa construir é uma presença semântica densa o suficiente para que os modelos de linguagem a reconheçam como referência antes que o consumidor sequer formule a pergunta.

No caso do Nubank, Lara descreveu isso como uma construção cinematográfica: “Um lugar de transgressão e pensamento diferenciador, mas que ao mesmo tempo traz segurança, responsabilidade e cuidado.” Não é um tagline. É uma atmosfera que precisa ser respirável em todos os pontos de contato, inclusive os que nenhum ser humano vai ver diretamente.

“Design nunca foi tão importante”, afirmou. “E não só design gráfico. Design de experiência, design de conceito.”

A transformação que importa é estrutural, não ferramental

Se a construção de autoridade semântica exige essa profundidade de universo, ela não pode ser delegada a uma ferramenta. Exige uma reorganização de como as áreas de marketing pensam e colaboram.

O modelo que o Nubank adotou abandona a lógica de departamentos em favor do que Lara chama de “espaços semânticos”: estruturas integradas em que SEO, estratégia de comunicação, community management e influência compartilham inteligência em tempo real. “A gente não trabalha o processo criativo como áreas. A gente trabalha como Strategic Space”, explicou.

Isso não é otimização. É redesenho. A IA entra não para substituir uma função, mas para conectar aprendizados que antes ficavam isolados em silos. O resultado é um “universo semântico de problema”, uma visão consolidada do que o consumidor pensa, sente e procura, capaz de escalar para qualquer mercado onde a empresa decidir atuar.

A LLM vai pesquisar qual é a referência. Quantas camadas existem entre nós e o usuário final?

Eduardo Ferreira acrescentou uma camada crítica: a governança desse processo precisa preservar a curadoria humana como filtro insubstituível. “Você não está abrindo mão da curadoria humana em hipótese alguma.” A Globo, como maior produtora de conteúdo do Brasil, vive isso na prática: o volume de análise escalou, mas a decisão sobre o que merece ou não ser abordado ainda passa por uma pessoa.

Lara foi além e incluiu a dimensão ética desse cuidado: “Existem muitas ferramentas que podem substituir um locutor, um fotógrafo. E eu entendo que é nosso papel ajudar no fortalecimento desse ecossistema, porque essas pessoas ainda são importantes.”

A conversa entre Nubank e Globo não foi sobre IA como ferramenta de eficiência. Assim como em outros tantos palcos do WebSummit nos últimos dias, a pauta foi sobre um deslocamento mais profundo: à medida que a IA nivelar o acesso a dados, análise e geração de conteúdo, a vantagem competitiva vai migrar para aquilo que não pode ser comoditizado, o universo narrativo que uma marca construiu, a autoridade semântica que ela acumulou e a estrutura organizacional que permite alimentar esse universo de forma contínua.

O Nubank nasceu de uma aposta contra os dados disponíveis na época: conta sem tarifa, cartão sem custo, numa indústria que não via demanda para isso. “Se a gente fosse seguir uma lógica de base de dados anterior, essa proposta nunca teria vindo”, disse Lara.

A provocação que ele deixou é a primeira e talvez a seja a mais honesta do dia: “Mesmo como gestores de marca, permitir-se se perder. Permitir-se arriscar.”

Em um cenário de abundância de informação e ferramentas idênticas, a imprevisibilidade humana, a capacidade de apostar no que os dados ainda não mostram, pode ser a última vantagem genuinamente difícil de replicar.

✦ Aprendizados que ficam
  • A jornada do consumidor agora passa pela memória das LLMs antes de chegar ao seu site: marcas que não constroem autoridade semântica ativa já estão perdendo visibilidade onde ela mais importa.
  • Autoridade semântica é construção de universo, não de conteúdo em volume: narrativa, atmosfera e consistência conceitual são o diferencial quando todos têm acesso às mesmas ferramentas.
  • Essa transformação exige redesenho estrutural: espaços semânticos integrados no lugar de departamentos isolados, com curadoria humana preservada como camada de decisão insubstituível.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 23 · NewMediaSummit · StreamingLatam · ContentStrategy
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O early adopter não assiste. Ele decide. Como o espectador pioneiro está redesenhando a cadeia do streaming na América Latina

Adriana Naves
Adriana NavesHead de Distribuição, América Latina · Roku
João Worcman
João WorcmanCCO · Sofá Digital

A concorrência não é mais a outra plataforma. É o tempo da pessoa.

Essa frase, dita quase de passagem durante o painel na Web Summit Rio 2026, resume melhor do que qualquer slide o estado do streaming na América Latina hoje.

Adriana Naves, head de distribuição de conteúdo da Roku para a América Latina, e João Worcman, CCO da Sofá Digital, se sentaram para discutir o comportamento do early adopter brasileiro. O que veio à tona foi mais estratégico do que parece: quem entende esse espectador hoje tem vantagem sobre o mercado de amanhã.

O early adopter como termômetro de mercado

No Brasil, o early adopter de streaming não é apenas um usuário ávido. É um sinalizador. Ele testa antes, abandona antes e migra antes. Quando um gênero explode, ele já estava lá. Quando aquele gênero esgota, ele também foi o primeiro a se cansar. A moderadora Carla Domingues, da Vitrine Filmes, apontou bem o nó do problema para quem senta na cadeira de produtor ou investidor: o medo é sempre chegar tarde. Apostar em um formato que já foi exaurido pelo ciclo. E como o processo de produção leva tempo, a antecipação não é luxo. É sobrevivência.

A Roku, plataforma com mais de 100 milhões de domicílios globalmente, opera no Brasil desde 2020 e tem acesso privilegiado a esses padrões de comportamento. Adriana explica que a plataforma combina dados de navegação com curadoria humana para transformar o sinal do early adopter em produto. “A gente faz um mix bem interessante entre inteligência artificial e o dedinho e o cérebro humano.”

Da audiência ao produto: o novo ciclo de descoberta

A gente faz um mix bem interessante entre inteligência artificial e o dedinho e o cérebro humano.

O exemplo mais concreto do painel veio da trajetória do criador digital Lucas Neto. A Sofá Digital identificou, antes do mercado convencional, que a audiência fiel dele no YouTube sinalizava apetite por conteúdo premium. O passo seguinte foi convencê-lo a produzir filmes de 70 a 80 minutos distribuídos via modelo de locação (TVOD) a R$ 14,90 na Apple TV e Google Play. O resultado? 17 filmes produzidos e distribuídos com sucesso. “A gente pegou essa audiência do YouTube e envolveu”, disse Worcman.

O raciocínio é replicável: testar o conteúdo onde a audiência já existe, validar o sinal de demanda, depois migrar para uma janela de distribuição com monetização maior. O digital não substitui o cinema. Ele funciona como laboratório.

Um paralelo global reforça essa lógica. O filme Backrooms, dirigido pelo YouTuber Kane Parsons, com apenas 20 anos e sem histórico em longas, foi produzido com orçamento de aproximadamente US$ 10 milhões pela A24 e se tornou o maior sucesso de bilheteria da distribuidora, superando US$ 200 milhões globalmente. A A24 apostou em um criador digital porque os dados de audiência já provavam o que o mercado convencional ainda não via.

A plataforma como curadoria, não como catálogo

A terceira aprendizagem do painel é talvez a mais urgente para quem pensa em experiência do consumidor. Com a fragmentação das plataformas, a batalha não é mais por conteúdo. É por atenção. E atenção se conquista com facilidade, não com abundância.

A Roku investiu na área de esportes como ponto de entrada: um hub único que consolida onde cada jogo está passando, gerencia assinaturas e permite favoritar times. A lógica é clara: levar o consumidor ao conteúdo com um clique é mais poderoso do que ter o maior catálogo disponível.

A recomendação, combinada com funcionalidades como “Continue Assistindo” e curadoria contextual, transforma a plataforma em editora, não em prateleira. E quem edita com inteligência retém o usuário para além do conteúdo que ele veio buscar.

✦ Aprendizados que ficam
  • O early adopter é seu melhor dado de inteligência de mercado. Monitorar seu comportamento com antecedência é a única forma de evitar chegar tarde à tendência.
  • Audiência digital é ativo, não contexto. Creators com base consolidada já provaram demanda. Levar esse sinal para janelas premium é estratégia, não aposta.
  • Curadoria inteligente vale mais do que catálogo extenso. A plataforma que reduz o atrito entre intenção e consumo ganha a atenção, e portanto o tempo, do usuário.
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Arthur Graziadio
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ARTIGO 24 · NewMediaSummit · CommerceSummit · Marketing
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De espectadora a protagonista: como o branded entertainment aprendeu a falar brasileiro

Claudine Bayma
Claudine BaymaGeneral Manager · Kwai Brasil
Mare Leal
Mare LealBranded Entertainment Director · Endemol Shine Brasil

A gente primeiro foi nas periferias do interior, pra depois chegar na metrópole

Se você ainda mede o sucesso de uma ação de marca pelo alcance do influenciador contratado, este painel foi um recado direto ao seu modelo de negócio.

Claudine Bayma, General Manager do Kwai Brasil, e Mare Leal, Branded Entertainment Director da Endemol Shine Brasil, subiram ao palco do Web Summit Rio para discutir a nova era do entretenimento de marca. O que emergiu da conversa foi algo mais preciso do que uma tendência: foi um diagnóstico de por que tantas campanhas de alto investimento entregam tão pouco, e por que certas iniciativas de baixo perfil convertem de forma surpreendente.

A resposta tem muito a ver com o Brasil, com quem vive nele, e com a decisão de ir buscá-los onde eles estão.

A estratégia que começou de trás para frente

Quando o Kwai chegou ao Brasil, o mercado de plataformas de vídeo já estava consolidado. A escolha mais óbvia seria disputar a mesma audiência já servida por concorrentes estabelecidos, com criadores conhecidos, nos mesmos mercados: São Paulo, Rio, as grandes capitais.

O Kwai fez o contrário.

“A gente primeiro foi nas periferias do interior, pra depois chegar na metrópole”, explicou Claudine. A decisão não foi por ausência de alternativa. Foi estratégia deliberada de mapear criadores capazes de revelar a diversidade cultural brasileira em toda a sua extensão, desde o xegue-xegue de Petrolina, uma corrida de jegues que termina em desfile de moda, até as festas de São João do interior nordestino, que em 2025 atraíram 15 marcas de grande porte para ativações integradas.

Essa lógica ressoa diretamente com o que a L'Oréal Brasil apresentou no dia anterior no mesmo evento: a empresa que cresceu em duplo dígito consistente foi aquela que entendeu que o consumidor brasileiro define sua tribo antes de a marca definir seu target. Entrar pelo

interior, pelo criador regional, pelo nicho cultural específico não é uma estratégia menor. É uma estratégia de profundidade.

Quando a marca é o conteúdo, não o patrocinador

Mare Leal trouxe ao debate um case que merece atenção de qualquer CMO: o Pantene Hair, reality criado há dez anos com a missão de conectar a marca a adolescentes de 14 a 18 anos que não eram público-alvo da marca até então. O programa atraiu 41 inscritas em sua primeira edição, rodou três temporadas no Brasil e viajou para Portugal, onde chegou a seis edições.

A marca ela tá ali porque ela quer se aproximar daquela audiência, então a gente também não pode distanciar isso

O ponto central não era o produto. Era a dor que o produto poderia resolver: a autoestima de meninas jovens em relação ao cabelo. A marca entrou como viabilizadora de uma narrativa que o público já queria ter.

“A marca ela tá ali porque ela quer se aproximar daquela audiência, então a gente também não pode distanciar isso”, disse Mare sobre o princípio que guia a criação na Endemol.

Essa lógica reaparece no modelo que a Endemol desenvolveu para o próprio Kwai, o Tela Kwai: microdramas de 1,5 a 2 minutos, co-criados com os próprios criadores da plataforma. Não são comerciais. São programas, com narrativa, com personagens, com continuidade. O product placement existe, mas está dentro da história, não interrompendo-a.

Não por acaso, esse modelo acompanha uma constatação que a On Running descreveu de forma diferente no mesmo Web Summit: “participar da conversa” e “entender quem você é naquele espaço” é o que separa marcas com relevância cultural de marcas com presença paga.

O criador que a mamãe conhece converte mais do que a celebridade

Um dos dados mais reveladores do painel veio de uma experiência que o Kwai chamou de A Casa do Kwai: um reality com dez participantes, sendo sete ex-BBBs reconhecidos nacionalmente e três criadores da própria plataforma.

O resultado contradiz a lógica de compra de mídia tradicional.

“Apesar de toda a notoriedade, o participante que mais engaja é o criador do conteúdo da plataforma”, revelou Claudine. O motivo não é misterioso: o criador da plataforma tem comunidade simbiótica. Seu público conhece sua rotina, sua frequência de postagem, seu jeito de falar. Quando esse criador aparece num reality, a audiência não está assistindo a um personagem famoso em situação artificial. Está vendo alguém de quem sente proximidade real.

O programa acumulou 24 milhões de visualizações em pouco mais de dez semanas, num formato que deliberadamente rejeitou a produção glamourosa: a casa era alugada no interior, tão real que uma cama quebrou no primeiro capítulo e os participantes tiveram que conviver com ela.

Apesar de toda a notoriedade, o participante que mais engaja é o criador do conteúdo da plataforma

“A gente escolheu não fazer escude”, disse Claudine, “alugamos uma casa no interior, uma casa tão real, que no primeiro capítulo eles foram sentar numa cama quebrou.”

Aqui o paralelo com a Heineken e a Amazon é direto: ambas construíram vantagem no Brasil precisamente por não importar o modelo global, por criar algo que só funciona aqui porque só faz sentido aqui. Autenticidade não é estética. É decisão operacional.

Performance e narrativa não são opostos

O painel não fugiu da tensão real do mercado: o imperativo de performance de vendas que pressiona cada vez mais o branded entertainment a se justificar em números de conversão imediata.

“Antes a gente tinha o awareness, agora a gente tem o performance”, reconheceu Mare. O desafio, nas palavras dela, é vender sem que o público perceba que está sendo vendido, mas ao mesmo tempo sem abrir mão da venda.

A resposta não é uma fórmula. É uma aposta na comunidade como mecanismo de conversão. Quem constrói pertencimento genuíno com um criador que o público confia tem, na outra ponta, um sistema de recomendação que nenhum banner e nenhum retargeting replica.

O que o Kwai opera na China desde 2018, com 6 mil títulos lançados por ano naquele mercado, e o que a Endemol construiu ao longo de uma década de branded entertainment no Brasil, aponta para a mesma conclusão que atravessa praticamente todos os painéis desta edição do Web Summit Rio: a tecnologia escala o conteúdo, mas é a conexão humana que converte.

✦ Aprendizados que ficam
  • A diversidade cultural brasileira não é cor local, é infraestrutura estratégica. Marcas que mapeiam os criadores de nicho regional e entram em sua narrativa antes de tentar vender para sua audiência chegam à conversão com um custo de credibilidade muito menor.
  • O criador com comunidade simbiótica supera a celebridade com alcance. O engajamento que converte não é o do seguidor que admira de longe. É o do seguidor que sente que conhece quem está falando.
  • Branded entertainment eficaz é aquele em que a marca financia a narrativa sem sequestrar o controle dela. A produção profissional entra para viabilizar; o criador entra para garantir que a linguagem seja real. Quem inverte essa ordem paga mais para converter menos.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 25 · MarketingSummit · IA · Personalização · Retenção
📺 Mídia

Personalizar melhor não basta: a lacuna que separa marketing de receita

Thiago Albuquerque
Thiago AlbuquerqueChief Strategy & Revenue Officer · Snoonu

algo que está otimizando para o objetivo errado, só que mais rápido

A inteligência artificial tornou a personalização barata e abundante. Produzir mensagens sob medida nunca foi tão fácil. E, ainda assim, os números de retenção seguem decepcionando. A pergunta incômoda que abriu este painel é simples: se a mensagem melhorou tanto, por que o resultado não acompanhou?

A resposta dos palcos foi direta e desconfortável para muito C-level: a lacuna não está na mensagem. Está na conversa que não acontece entre marketing e receita. Como resumiu Thiago Albuquerque, da super app catariana Snoonu, sem resolver os problemas de estrutura e incentivo, a IA apenas automatiza “algo que está otimizando para o objetivo errado, só que mais rápido”. Ao lado dele, Jason Lyman, CMO da Customer.io, plataforma de engajamento que orquestra comunicação multicanal, completou o diagnóstico de quem passou por Dropbox e Podium antes de chegar lá.

Personalizar mais não é converter mais

O barateamento tem um efeito colateral. Ao reduzir a barreira de entrada, a IA aumentou a frequência da personalização nas comunicações, mas, como observou Jason, essas mensagens muitas vezes não entregam o resultado de negócio para o qual foram desenhadas. O problema, segundo Thiago, é um desencontro de objetivos: marketing otimiza para engajamento, receita otimiza para valor de vida do cliente. O exemplo dele é certeiro: existe aquele cliente que abre todas as push, tem ótima frequência, engaja com tudo, e que, lá na frente, nunca compra a preço cheio e não gera margem. Ele é amado pelo dashboard de engajamento e irrelevante para o resultado.

Por isso, nem todo momento merece personalização profunda. Thiago propõe medir onde cada cliente está numa escala de confiança e calibrar o esforço a partir daí. E lança a metáfora que ficou: “a confiança é uma moeda, e ela não é infinita”. Com clientes pouco fiéis, é preciso ser cirúrgico e oferecer a coisa certa na hora certa. Com os mais leais, dá para ser ousado e influenciar a próxima compra, desde que o cliente termine agradecendo, e não se arrependendo.

Quem é o dono do cliente?

Existe um único número de pipeline, e a gente não liga de onde ele veio, desde que entregue a meta.

O ponto mais provocativo do painel não foi sobre tecnologia, e sim sobre poder. Thiago descreveu uma tendência silenciosa nas empresas: o poder do marketing sendo reduzido e a responsabilidade pelo cliente sendo fragmentada entre áreas. A correção, para ele, começa no topo. Cabe ao CEO trazer o CMO, ou quem quer que detenha a visão do cliente, de volta ao centro do palco, alinhado com receita, comercial e finanças, com clareza sobre o que se está otimizando.

O desalinhamento aparece nos números. Jason reforçou que a IA piora o problema quando a empresa convive com fragmentação de dados: o marketing roda a análise, chega a um resultado, leva ao parceiro de receita, e descobre que ele cortou os dados de outro jeito. A saída que mais funcionou para ele foi banal e poderosa ao mesmo tempo: métricas iguais. “Existe um único número de pipeline, e a gente não liga de onde ele veio, desde que entregue a meta.”

Ferramentas feitas para o marketing de ontem

Foi aqui que os dois convergiram sem rodeios. A inércia faz as equipes manterem ferramentas familiares que não foram construídas para a necessidade do marketing moderno. Jason foi enfático: é hora de olhar para o seu stack e garantir que ele serve ao revenue team de hoje, não ao de uma década atrás.

E há uma razão técnica por trás disso. A IA, lembrou ele, é o exemplo clássico de “lixo entra, lixo sai”. Bons resultados dependem de contexto e dados limpos, organizados e em tempo real. Sem sistemas que ingiram e categorizem essa informação de forma confiável, a recomendação da IA nasce torta. Personalização em escala que gera resultado não é só uma questão de modelo melhor, é uma questão de fundação de dados.

Análise: para onde o jogo está indo

A tese do painel se encaixa numa virada maior no martech. Por mais de 20 anos, empresas já usavam IA preditiva para personalizar; a novidade da IA generativa é automatizar a ponta a ponta, escrever e disparar a mensagem, o que coloca personalização sofisticada ao alcance de empresas menos maduras. Justamente por isso, a vantagem competitiva migra da mensagem para o sistema. Em 2026, as marcas que se destacam não são as que mandam campanhas mais espertas, e sim as que constroem ambientes onde relevância e retorno comercial são a mesma coisa. Mecanismos como retail media só funcionam, lembrou Thiago, quando a relevância entra como restrição clara, caso contrário, alargam a lacuna em vez de fechá-la. O recado para o C-level é que IA não substitui estratégia: ela amplifica a que já existe, boa ou ruim.

✦ Aprendizados que ficam
  • Personalização não é o objetivo, valor comercial é. Meça onde cada cliente está na escala de confiança e reserve o esforço profundo para os momentos em que o cliente vai agradecer, não se arrepender.
  • Defina quem é o dono do cliente e alinhe métricas e incentivos entre marketing, receita, finanças e comercial. Sem isso, a IA só automatiza o objetivo errado mais rápido.
  • Reavalie suas ferramentas. Sistema familiar não é sinônimo de sistema adequado ao marketing moderno; sem dados unificados e confiáveis, a IA entrega lixo entrando e lixo saindo.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Estudo McKinsey 2025: 70% dos CEOs medem o sucesso do marketing por receita e margem.
No mesmo estudo, apenas 35% dos CMOs usam essas métricas para medir o sucesso do marketing.
Há mais de 20 anos, empresas já usam IA preditiva com machine learning para personalização.
ARTIGO 26 · MarketingSummit · BrandExperience · LiveMusic · FanJourney
🔥 Destaque

O Show Não Começa no Palco: Como Itaú e 30e Transformaram Música em Relacionamento

Rodrigo Montesano
Rodrigo MontesanoHead of Brand Experiences & Connections · Itaú
Pepeu Correa
Pepeu CorreaFundador & CEO · 30e

O show é do artista, mas a emoção é de todo mundo.

A frase, dita no palco do Web Summit Rio, resume a tese que Rodrigo Montesano, Head of Brand Experiences & Connections do Itaú, e Pepeu Correa, fundador e CEO da 30e, defenderam diante de uma plateia lotada: a experiência de um show não nasce quando as luzes acendem nem morre quando elas apagam.

O Brasil é hoje o segundo maior mercado de shows do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com um setor de eventos que movimenta mais de R$300 bilhões por ano. Mas, para os dois executivos, o tamanho é o detalhe menos interessante. O que importa é a mudança de lógica: “Antes, o show ao vivo se restringia ao evento. Hoje, é um grande desenho de experiência que começa há muitos anos”, resumiu Rodrigo.

Esse desenho é a base da plataforma que Itaú e 30e construíram juntos, mais de 800 shows ao longo de cinco anos, ancorados num conceito que os dois repetem como mantra: delivery happiness, entregar felicidade ao fã. A vitrine mais conhecida é a Madonna que o Itaú levou a 1,6 milhão de pessoas em Copacabana. Mas o que sustenta a estratégia não é o evento único, e sim a recorrência: estar presente em toda a jornada do fã, da descoberta à memória.

Antes, o show ao vivo se restringia ao evento. Hoje, é um grande desenho de experiência que começa há muitos anos

O ponto central é uma mudança no que significa relevância de marca. Em vez de disputar atenção dentro do show, onde, como admite Rodrigo com honestidade rara, “as pessoas não estão indo lá para se conectar com a marca, estão indo para assistir ao seu artista preferido”, o Itaú aposta em ser útil ao longo de toda a experiência. A aposta funciona: metade dos fãs presentes nos shows da plataforma são clientes Itaú, com picos de 70%.

as pessoas não estão indo lá para se conectar com a marca, estão indo para assistir ao seu artista preferido

A lição vale para qualquer CEO. Quando o produto é cada vez mais comoditizado, a conexão emocional vira o verdadeiro diferencial, e ela não se compra no dia do evento. O entretenimento abre uma janela rara para a marca encontrar o consumidor num momento de alta carga afetiva, entregando acesso a experiências que importam de verdade para ele. “Ninguém troca de banco na mesma velocidade com que troca de cerveja”, disse Rodrigo, e é justamente essa fidelidade que se constrói quando a marca participa da jornada inteira, não só do clímax.

✦ Aprendizados que ficam
  • O entretenimento é uma das poucas portas que conecta a marca ao consumidor em um momento de emoção genuína, quem ocupa esse espaço com relevância constrói um vínculo que a publicidade tradicional não alcança.
  • O valor está no acesso a experiências significativas, não no patrocínio: deixar de interromper e passar a ampliar o que importa para o fã transforma exposição em fidelidade duradoura.
  • A conexão começa antes e dura depois do evento, marcas que participam de toda a jornada, e não só do palco, colhem engajamento concreto, como os 50% a 70% de clientes Itaú presentes nos shows.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Brasil: 2º maior mercado de shows do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
Setor de eventos: mais de R$300 bilhões por ano, cerca de 5% do PIB.
Plataforma Itaú + 30e: mais de 800 shows ao longo de 5 anos.
Madonna em Copacabana: 1,6 milhão de pessoas, em show gratuito do centenário do Itaú.
Engajamento: 50% dos fãs nos shows da plataforma são clientes Itaú, com picos de 70%.
ARTIGO 27 · MarketingSummit · Branding · Purpose · Innovation
🔥 Destaque

Ayrton Senna: o que marcas imortais sabem fazer que as outras ainda não entenderam

Ana Simões
Ana SimõesCMO · Senna Brands
Renato Pezzotti
Renato PezzottiJornalista & Podcaster · UOL

A marca Senna nunca foi criada em cima de produto. Ela nasceu em cima de valores.

Como manter viva a relevância de um ícone para uma geração que nunca o viu correr?

Essa foi a pergunta central da sessão “The immortal brand of Ayrton Senna”, conduzida por Renato Pezzotti, jornalista e podcaster do UOL, com Ana Simões, CMO da Senna Brands. A conversa foi uma verdadeira aula sobre legado, propósito, comunidade e construção de marca em um mundo onde atenção é disputada segundo a segundo.

Trinta anos após sua morte, Ayrton Senna continua sendo muito mais do que um piloto. Ele se tornou uma marca global, um símbolo cultural e uma referência emocional que atravessa gerações.

Ana Simões foi direta ao explicar por que essa força permanece.

“A marca Senna nunca foi criada em cima de produto. Ela nasceu em cima de valores.”

Coragem, determinação, excelência, propósito e busca pela melhor versão de si mesmo. Esses são os pilares que sustentam a marca e explicam por que Senna continua relevante mesmo para pessoas que não viveram sua trajetória em tempo real.

O grande desafio, segundo Ana, é transformar uma memória individual em uma experiência coletiva para novas gerações. Quem viu Senna correr tem uma lembrança afetiva. Quem nasceu depois conhece a lenda por meio de histórias, séries, experiências, cultura pop, games, redes sociais e novos formatos de entretenimento.

É aí que entra a estratégia.

A Senna Brands passou a profissionalizar a gestão da marca a partir de 2020, com uma visão mais estruturada de licenciamento, parcerias, alcance global e conexão com novas audiências. Mas Ana deixou claro: nem toda parceria faz sentido.

“Comercialmente falando, as decisões nunca podem ser apenas comerciais.”

Para a marca Senna, autenticidade, transparência e alinhamento de valores são critérios inegociáveis. A parceria precisa respeitar o legado e, ao mesmo tempo, ajudar a manter viva a mensagem para novas gerações.

Comercialmente falando, as decisões nunca podem ser apenas comerciais.

Essa é uma das maiores lições para CEOs: marcas fortes não crescem apenas por exposição. Crescem por coerência.

A estratégia da Senna Brands mostra isso em diferentes frentes. A série da Netflix ampliou o alcance global da história de Senna. A presença em ambientes como Roblox e TikTok aproxima a marca de públicos mais jovens. A entrada na cultura pop, com produtos como Funko, cria novos pontos de contato. E experiências presenciais, como a corrida no autódromo de Interlagos, permitem que fãs vivenciem fisicamente os valores de performance, superação e emoção associados ao ídolo.

Segundo Ana, mais de 11 mil pessoas participam dessa corrida, não apenas para correr, mas para viver uma experiência simbólica ligada ao universo de Senna.

A marca também avança para territórios inesperados, como empreendimentos imobiliários e colaborações internacionais. São universos muito diferentes, mas conectados por um mesmo fio condutor: transformar legado em experiência.

A grande sofisticação está justamente aí. A Senna Brands não tenta congelar Ayrton Senna no passado. Ela traduz seus valores para novas linguagens.

E essa tradução precisa ser feita com muito cuidado.

“Quando você trabalha com uma marca icônica, nada pode parecer errado. Você mexe num lugar muito caro para as pessoas.”

A frase revela a responsabilidade de gerir uma marca emocional. Senna não é apenas uma imagem. Para muitos brasileiros, ele está conectado à infância, à família, aos domingos, à memória dos pais, dos avós e a um sentimento coletivo de orgulho nacional.

Quando você trabalha com uma marca icônica, nada pode parecer errado. Você mexe num lugar muito caro para as pessoas.

Por isso, cada ação exige um nível superior de excelência. Não basta ser bonito, moderno ou viral. Precisa ser verdadeiro.

Em um mundo de marcas canceladas, discursos frágeis e narrativas descartáveis, a força de Senna vem justamente da autenticidade. Ana lembrou que ele era competitivo, buscava excelência, inovava, mas também parava para ajudar, se importava com o outro e inspirava por atitude.

“Ele era autêntico. Pessoas autênticas atravessam qualquer época.”

Essa talvez seja a principal mensagem da sessão. Tecnologia, plataformas e formatos mudam. Mas valores consistentes continuam sendo a base das marcas que permanecem.

Para líderes empresariais, o caso Senna é um lembrete poderoso: legado não é nostalgia. Legado é ativo estratégico quando consegue se renovar sem perder a essência.

A marca imortal não é aquela que repete o passado. É aquela que encontra novas formas de contar sua história sem trair o que a tornou única.

✦ Aprendizados que ficam
  • Marcas longevas não nascem de produtos, mas de valores fortes, consistentes e reconhecíveis ao longo do tempo.
  • Relevância para novas gerações exige tradução cultural: é preciso estar em novas plataformas, mas sem perder autenticidade.
  • Parcerias devem ser guiadas por propósito e coerência estratégica, não apenas por oportunidade comercial ou alcance. A pergunta que fica é: sua marca está apenas tentando ser lembrada ou está construindo razões reais para continuar relevante no futuro?
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Trinta anos após a morte de Ayrton Senna, sua marca segue alcançando novas gerações.
A gestão da marca passou a ser profissionalizada pela Senna Brands a partir de 2020.
A campanha e os conteúdos recentes ligados a Senna ultrapassaram 1 bilhão de visualizações, segundo o painel.
A marca recebeu centenas de solicitações de parcerias após o aumento de visibilidade.
Mais de 11 mil pessoas participam da corrida promovida no autódromo de Interlagos.
A marca Senna atua em diferentes territórios, incluindo Netflix, Roblox, TikTok, Funko, experiências presenciais e empreendimentos imobiliários.
Renato Pezzotti atua há 20 anos no mercado de comunicação e publicidade e conduz um videocast com mais de 230 episódios.
ARTIGO 28 · CommerceSummit · MarketingSummit · Criatividade · Varejo
🔥 Destaque

Sua marca não fala com o Brasil. Ela fala para o Brasil. E o Brasil não está ouvindo.

Marcelo Zimet
Marcelo ZimetPresidente · Grupo L’Oréal Brasil
Deborah Secco
Deborah SeccoAtriz
Ricardo Cubba
Ricardo CubbaEmbaixador Global · CeraVe
Fernanda Almeida
Fernanda AlmeidaEditora Mulher e Carreira · Forbes Brasil

As marcas querem ser amadas. Elas não querem ser compradas.

A frase é de Marcelo Zimet, primeiro brasileiro a presidir o Grupo L'Oréal no Brasil, e ela carrega mais estratégia do que parece. Num palco do Web Summit Rio dividido com a atriz Deborah Secco e o criador Ricardo Cubba, embaixador global da CeraVe, Zimet não veio apresentar cases de sucesso. Veio, na prática, desmontar a lógica com que a maioria das marcas internacionais ainda opera no maior mercado de beleza do hemisfério sul.

O Brasil é o terceiro maior mercado global de beleza. É também o país onde o consumidor passa mais tempo nas redes sociais. Qualquer executivo de marketing já sabe esses números. O que poucos parecem ter absorvido é o que eles exigem: não uma estratégia global adaptada, mas uma escuta radicalmente local, que começa muito antes da campanha, dentro do próprio time.

Do monólogo ao diálogo: a virada que não é opcional

Deborah Secco tem 37 anos de carreira construída sobre campanhas altamente produzidas, perfeitas, distantes. Ela mesma usou a palavra: monólogo. “A gente propunha, apresentava, contava. Acho que hoje não. Acho que hoje a gente precisa trazer proximidade, verdade, autenticidade. E ao invés de fazer esse monólogo, a gente precisa construir um diálogo mesmo.”

Essa transição não é tendência, é ruptura. O consumidor brasileiro não quer ser alcançado. Ele quer ser reconhecido. E reconhecimento, no Brasil, passa por cultura, história e pertencimento, não por alcance ou frequência de mídia.

Zimet foi fundo nessa raiz. Contou que a L'Oréal passou anos estudando a ancestralidade brasileira, a miscigenação de indígenas, africanos e europeus, para entender por que o brasileiro é, acima de tudo, um ser social. E por que beleza, nesse contexto, funciona como moeda social. “Se a gente entender isso, a gente tem presença no Brasil como um país gigante. Mas o Brasil também é um país muito criativo e pode inspirar o mundo.”

A regra é não ter regras, e as marcas ainda não entenderam isso

O trecho mais desafiador da conversa não foi sobre campanha nenhuma. Foi quando Zimet explicou por que os modelos antigos de comunicação já não funcionam: “Talvez no passado o acesso à informação era muito mais limitado. Hoje uma pessoa simplesmente fala: eu quero essa tribo, eu me identifico com ela. E se você quiser se conectar com ela, tem que ser muito mais real.”

Se a gente entender isso, a gente tem presença no Brasil como um país gigante. Mas o Brasil também é um país muito criativo e pode inspirar o mundo.

Isso derruba uma premissa cara ao mercado: a de que campanha boa é campanha que fala com todo mundo. “Você já não pensa uma campanha pra todo mundo. Você pensa para uma determinada comunidade.” Esporte, autocuidado, comunidade LGBTQIA+, cada uma com sua linguagem, seu humor, seu contrato emocional com a marca. A L'Oréal identificou, por exemplo, que um de seus produtos tinha engajamento orgânico expressivo dentro da comunidade LGBTQIA+. A resposta não foi adaptar a campanha existente. Foi entrar genuinamente naquela conversa.

Liberdade criativa não é concessão. É condição.

Ricardo Cubba virou embaixador global da CeraVe sem ter imaginado que trabalharia com marcas. Começou no humor como escudo contra o bullying, foi ator, virou criador, e hoje tem mais de 6 milhões de seguidores e o título de Creator of the Year da L'Oréal. O que o diferencia não é o alcance, é o método: ele não vende produto, ele cria situações em que o produto aparece como consequência natural de uma história que já era engraçada.

O lançamento do “Potinho” da CeraVe é o exemplo mais concreto. Cubba transformou a chegada do novo produto numa cena de parto, com lençolzinho, respiração e tudo. Absurdo? Sim. Eficaz? Completamente. “Essa liberdade criativa que a CeraVe me dá é muito incrível, porque é através dela que eu consigo comunicar e passar a ação do produto de uma forma leve.”

Zimet endossou sem hesitar: a campanha do “geladinho”, desenvolvida no Brasil quando alguém percebeu que o hidratante colocado na geladeira mantinha a textura e adicionava uma sensação refrescante, nasceu de uma observação orgânica nas redes, virou campanha local e foi adotada globalmente. “O Brasil está liderando muito essa frente de encontrar criatividade para campanhas mais orgânicas.”

Você já não pensa uma campanha pra todo mundo. Você pensa para uma determinada comunidade.

O que o Brasil está mostrando ao mundo é que velocidade e autenticidade não são opostos. Com IA, é possível identificar em tempo real quais criações estão gerando engajamento real, pegar esses assets, combiná-los com a força da marca e escalar em dias algo que antes levaria seis ou sete semanas numa agência.

O que os executivos precisam levar daqui

O Brasil não é um mercado difícil. É um mercado que exige honestidade. Ele rejeita marcas que chegam com discurso pronto, equipes homogêneas e campanhas traduzidas. E cada vez mais, as ferramentas para identificar esse descompasso, e para corrigi-lo, estão disponíveis.

A L'Oréal Brasil não cresceu em duplo dígito consistente porque encontrou a fórmula perfeita. Cresceu porque aceitou que não existe fórmula. Que o consumidor define sua tribo antes de a marca definir seu target. Que a diversidade dentro do time não é pauta de ESG, é pré-requisito estratégico. E que o criador com liberdade real entrega mais do que a agência com briefing fechado.

Para qualquer marca internacional que ainda opera no Brasil com estratégia global levemente adaptada, a pergunta que fica é simples e incômoda: você está construindo diálogo ou ainda fazendo monólogo?

✦ Aprendizados que ficam
  • Marcas que querem ser amadas precisam abrir mão do controle da narrativa e co-criar com criadores que tenham liberdade real, não briefings disfarçados de liberdade.
  • Campanhas segmentadas por comunidade superam campanhas universais: o consumidor brasileiro define primeiro sua tribo, depois decide se a marca pertence a ela.
  • O Brasil está à frente do mundo na combinação entre criatividade orgânica e escala via IA, e quem aprender com esse modelo aqui tem vantagem competitiva global.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Brasil: terceiro maior mercado global de beleza
Brasil: quinto país do mundo em uso de redes sociais
Ricardo Cubba: 6 milhões de seguidores (TikTok e Instagram)
Deborah Secco: 26 milhões de seguidores digitais
Marcelo Zimet: mais de 14 anos na L'Oréal, passando por diferentes países
L'Oréal possui um dos sete centros globais de pesquisa e inovação no Rio de Janeiro
Tempo de produção de campanha tradicional via agência: 6 a 7 semanas, contra dias com uso de IA e assets de criadores
ARTIGO 29 · CommerceSummit · Innovation
🇧🇷 Marca

Bauducco e Blue Man no WebSummit: como marcas brasileiras se tornaram parte da identidade cultural do país

André Britto
André BrittoCMO · Bauducco
Sharon Azulay
Sharon AzulayDiretora Criativa · Blue Man

A emoção gera memória. É ela que transforma um momento em memória.

A frase de André Britto, CMO da Bauducco, resume com precisão o que esteve no centro do palco do WebSummit Rio 2026: a diferença entre marcas que vendem e marcas que ficam.

Ao lado de Sharon Azulay, diretora criativa da Blue Man, Britto participou de uma conversa mediada pela jornalista Tatiana Schibuola, do UOL, que foi muito além do marketing tradicional. O tema era como transformar uma marca em pilar da cultura pop, mas o que se desenrolou foi uma aula sobre legado, adaptação e a coragem de ceder para encantar.

Sharon Azulay assumiu a Blue Man após a morte do fundador, seu pai, há 18 anos. Ela não tinha formação em moda e não tentou fingir que tinha. “Eu cheguei lá e tudo bem. O cuidado de manter uma marca viva, uma marca que tinha quase o dobro da minha idade naquela época, me fez querer proteger muito isso.” Essa postura de guardiã, e não de reinventora a qualquer custo, foi o que permitiu à Blue Man chegar até hoje como sinônimo do verão carioca, com desfiles que incluem Heloísa Pinheiro aos 82 anos, tiktokers, casal LGBTQIA+ e personagens do cotidiano da praia no mesmo passarela. “A gente não precisou se apropriar de nada. Era tudo muito nosso.”

Já a Bauducco enfrentou um desafio diferente: renovar sem perder a alma. A marca era reconhecida como “o homem mais velho”, um personagem que não conectava mais com as novas gerações. A resposta não veio de um brainstorm interno, mas de sociólogos e antropólogos que foram a campo entender o que os consumidores pensavam, não apenas o que declaravam. “A gente queria entender a cabeça dele. Não só o que ele fala, mas o que ele pensa.” Cinco anos depois, a Bauducco avançou 14 posições no ranking das marcas mais amadas do Brasil, entre 750 marcas, e hoje é mais forte entre os jovens do que em gerações anteriores.

Eu cheguei lá e tudo bem. O cuidado de manter uma marca viva, uma marca que tinha quase o dobro da minha idade naquela época, me fez querer proteger muito isso.

Os dois cases convergem num ponto que define a nova lógica das marcas de consumo: o produto virou porta de entrada, e a experiência é o produto final. A Blue Man cria colaborações com os quatro grandes times cariocas de futebol, com a rede de sucos Biburcos e com a sorveteria Itália, tornando-se presença constante na rotina do carioca, do pós-praia ao armário do torcedor. A Bauducco dividiu sua icônica embalagem amarela ao

meio para acomodar a identidade da Netflix, um gesto que Britto descreveu como essencial: “A colaboração também é ceder. E é o ceder que encanta o consumidor.”

A gente não precisou se apropriar de nada. Era tudo muito nosso.

O conceito que emergiu da conversa foi o de cooperação como nova forma de competição. “Antigamente, para eu ganhar, alguém precisava perder. Hoje a colaboração é uma nova forma de competição”, disse Britto. Para que uma parceria faça sentido, ela precisa gerar algo que só poderia existir em conjunto, um produto, uma coleção, uma experiência que não seria possível isoladamente.

E com cinco gerações consumindo simultaneamente pela primeira vez na história, nenhuma das duas marcas pode se dar ao luxo de falar com apenas um público. A arquitetura de comunicação precisa ser modular: a mensagem central permanece, mas os pontos de contato, o tom e os canais se adaptam a cada audiência. “Como é que a gente consegue conquistar a atenção das pessoas no meio de 10 mil estímulos por dia? Precisa fazer sentido. E a emoção é o que transforma o momento em memória.”

✦ Aprendizados que ficam
  • Legado não é museu. Preservar a identidade de uma marca não significa engessá-la, mas entender quais valores são inegociáveis e o que pode, e precisa, evoluir com o tempo e com o consumidor.
  • Pesquisa qualitativa profunda revela o que a pesquisa de mercado comum não captura. Trazer sociólogos e antropólogos para entender o que o consumidor pensa, e não só o que ele diz, foi o que permitiu à Bauducco se reinventar sem perder relevância.
  • Colaboração é estratégia, não ação de marketing. As melhores parcerias geram algo que só existe por causa da união das duas marcas, e criam presença em comunidades onde a marca, sozinha, nunca chegaria.
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 30 · MarketingSummit · Gaming · Roblox · BrandExperience
🇧🇷 Marca

Sua marca precisa não interromper e sim virar experiência

Diego Dzodan
Diego DzodanGerente Geral, América Latina · Roblox
Fernanda Verdi
Fernanda VerdiCEO · Uncover Studios

Aqui é a própria emoção, a experiência que você está criando

Uma igreja, o maior canal de esporte do Brasil e o governo de um estado. À primeira vista, nada conecta esses três clientes, exceto a decisão de estar onde a geração Z e a geração alfa realmente passam o tempo. Foi esse o fio condutor do painel sobre marketing imersivo no Web Summit, que reuniu Diego Dzodan, gerente geral da Roblox para a América Latina, e Fernanda Verdi, CEO da Uncover Studios, mediados por Bruno De Blasi, editor do Canaltech.

Dzodan é executivo de tecnologia com mais de 20 anos de operações na região, ex-VP do Meta e ex-presidente da SAP, que levou a Facily ao status de unicórnio antes de assumir a Roblox na América Latina. Verdi atua há mais de uma década na interseção entre cultura, impacto social e inovação, liderando experiências para marcas como Sportv e Senna Brands.

A escala explica parte do interesse, e é grande demais para ignorar. Dzodan apontou crescimento anual de quase 90% na América Latina, sustentado pela abertura de um data center em São Paulo e por um ecossistema de criadores robusto: são cerca de 29 milhões de usuários diários na região e aproximadamente 3.000 desenvolvedores de experiências, metade deles no Brasil. Verdi reforçou a dimensão do território com um dado que costuma surpreender executivos: o mercado de games “é maior do que cinema e música juntos”.

O ponto que mais interessa a quem decide orçamento é a mudança de papel da marca. Em vez de comprar atenção, ela passa a oferecer experiência, diversão e desafio. “Aqui é a própria emoção, a experiência que você está criando”, afirmou Dzodan. E isso só funciona quando a marca abre mão do controle: “A autonomia que você dá para o jogador é a coisa mais valiosa que você pode oferecer”, disse Verdi.

A autonomia que você dá para o jogador é a coisa mais valiosa que você pode oferecer

A relevância, segundo ela, nasce da cultura local. Memes globais convivem com referências profundamente brasileiras, a capivara, o cachorro caramelo, a camiseta de time. Com a Sportv, a Uncover transformou a paixão pelo futebol em campeonatos com centenas de milhares de jogadores; o governo de Minas usou o programa Trilhas de Futuro para atacar a evasão escolar com um público nativo da plataforma; a Igreja Adventista construiu um ambiente seguro para falar com a juventude na própria linguagem. O denominador comum: adaptar-se aos tópicos culturalmente ativos que fazem sentido para cada marca. “A forma

de convencer as marcas é entender o que elas realmente querem resolver, e como o mundo dos games pode ser essa solução“, resumiu.

Há ainda um vento estrutural a favor de quem hesita. Tanto Dzodan quanto Verdi destacaram que a inteligência artificial barateou e acelerou a produção de experiências, derrubando a barreira técnica. O gaming deixou de ser obstáculo e virou facilitador de tirar ideias do papel. “O começo é se jogar”, disse Verdi, testar, errar e criar de novo.

E aqui está o insight mais valioso para a liderança: quando a marca tem interesse e maturidade para explorar esse ambiente, o próprio exercício de definir o que fazer e o que seria relevante para o consumidor já responde, muitas vezes, à pergunta de milhões de dólares. A audiência já está lá, a tecnologia ficou acessível, e os primeiros movimentos definem quem terá relevância cultural na próxima década. A pergunta deixou de ser “se”, e passou a ser “com que maturidade”.

✦ Aprendizados que ficam
  • Para as novas gerações, o que importa é contribuir e estar onde elas estão, oferecer experiência, diversão e desafio é mais relevante do que qualquer mensagem genérica. Relevância nasce da adaptação à cultura local: comprar os tópicos culturalmente ativos que fazem sentido para a marca conecta de verdade. A barreira caiu com a IA e a escala de audiência é grande demais para ignorar. Para a marca madura, o exercício de definir o que é relevante ao consumidor já responde à pergunta de milhões de dólares.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Crescimento anual de quase 90% da Roblox na América Latina.
Cerca de 29 milhões de usuários diários na América Latina.
Aproximadamente 3.000 desenvolvedores de experiências na América Latina, sendo cerca de 1.500 no Brasil.
Aproximadamente 150 milhões de pessoas por dia na plataforma globalmente (dado citado por Fernanda Verdi).
Um data center inaugurado em São Paulo para reduzir latência.
Mais de 4 anos de parceria entre Uncover Studios e Sportv, com três campeonatos de futebol por ano.
O mercado de games é maior do que cinema e música somados.
ARTIGO 31 · GrowthSummit · NewVentureSummit · Innovation · Leadership
🇧🇷 Marca

O brasileiro que conquistou o mundo: resiliência como vantagem competitiva global

Marcello Gonçalves
Marcello GonçalvesCofundador & Sócio Sênior · DOMO.VC
IG
Izabel GalleraSócia · Canary
ML
Marcelo LimaGeneral Partner · Monashees

Mais da metade dos unicórnios dos Estados Unidos foram construídos por empreendedores imigrantes.

A frase, dita no palco do Web Summit Rio 2026, resume uma virada de chave que o ecossistema de inovação latino-americano ainda está processando: o fundador brasileiro não é mais coadjuvante da história global. Ele pode ser o protagonista, desde que entenda as regras do jogo.

O painel reuniu três dos investidores mais relevantes do venture capital da América Latina: Marcello Gonçalves, co-fundador e sócio sênior da DOMO.VC, fundo com mais de 100 startups no portfólio e apostas históricas em Hotmart, Loggi e Gympass; Izabel Gallera, sócia da Canary, uma das firmas de early-stage mais ativas da região; e Marcelo Lima, General Partner da Monashees desde 2010, com investimentos em Neon, Clara, Flash e Méliuz. A mediação ficou com Maria Luiza Filgueiras, editora do Pipeline e colunista do Valor Econômico.

A conversa foi direta ao ponto: ir global é exagero ou necessidade?

A resposta unânime foi: depende, mas o tamanho do mercado muda tudo. “Se você está em Israel, tem 8 milhões de pessoas. É metade de São Paulo. Pequenos mercados geram pequenas empresas”, provocou Gonçalves. O Brasil, por ser um mercado continental, sempre deu às startups locais uma zona de conforto que, ao mesmo tempo, é armadilha. A empresa cresce, fica grande o suficiente para ser respeitada no mercado doméstico, e o impulso de cruzar fronteiras some. “O mito do mercado grande é exatamente o que trava o brasileiro de crescer internacionalmente.”

Mas quando o desconforto entra pela janela, a criatividade brasileira aparece pela porta. Este talvez seja o ponto mais importante de toda a sessão. A escassez de recursos - impostos proibitivos, falta histórica de liquidez, concorrência assimétrica e distâncias geográficas absurdas dentro do próprio país - forjou um tipo de empreendedor que não existe em Silicon Valley.

Se você está em Israel, tem 8 milhões de pessoas. É metade de São Paulo. Pequenos mercados geram pequenas empresas

> “Na América Latina, historicamente não existe muita liquidez. Você tem que fazer muito com pouco”, disse Izabel Gallera. “E isso, na prática, é uma força que podemos exportar.”

A resiliência não é soft skill. É vantagem competitiva real. O fundador que aprendeu a operar com restrição orçamentária em um ambiente regulatório hostil, que sobreviveu a

crises cambiais e mercados voláteis, chega a qualquer outra geografia com uma musculatura que o empreendedor americano médio nunca precisou desenvolver. A escassez que durante décadas foi vista como handicap virou ativo de exportação.

Isso não significa que a decisão de internacionalizar é simples. Marcelo Lima foi preciso ao elencar os erros mais comuns. O primeiro é ir pela razão errada, movido pela busca por valuation em vez de ambição real pelo problema. O segundo é escolher o momento errado, antes de provar o modelo em pelo menos um mercado. O terceiro é executar sem prioridade de verdade, mandando um profissional júnior como representante em vez de comprometer um fundador. “Se não é prioridade de verdade, vai falhar.”

O mito do mercado grande é exatamente o que trava o brasileiro de crescer internacionalmente.

A janela de expansão também mudou. Durante anos, o caminho natural de uma startup brasileira era Argentina primeiro, depois México. Hoje, a lógica foi virada. “A distância para ir ao México às vezes é tão grande quanto ir para os Estados Unidos. Então por que não ir direto?” O conceito que a Monashees chama internamente de “global atômico” descreve fundadores que já nascem globais, que decidem construir a empresa fora do Brasil desde o primeiro dia. O ecossistema, segundo Lima, ainda não sabe muito bem como reagir a isso.

Há um risco real nesse movimento. Se os melhores talentos e fundadores migrarem para o Vale do Silício atraídos pelo ambiente de IA e pela liquidez de lá, o capital de risco global pode começar a olhar menos para o Brasil. “Se os brasileiros vão para lá, os investidores ficam menos tentados a vir até aqui”, alertou Gallera.

Gonçalves encerra com uma perspectiva mais tranquila. “São muito poucos, e muito especiais, os brasileiros que foram e estão competindo lá fora. A grande maioria dos empreendedores brasileiros ainda vai continuar resolvendo os enormes problemas que temos aqui.” O Brasil é um país de problemas de escala continental. Isso, por si só, é o maior laboratório de inovação do mundo.

✦ Aprendizados que ficam
  • Resiliência operacional forjada em mercados complexos é uma vantagem competitiva exportável, não apenas um traço de caráter.
  • A decisão de internacionalizar deve nascer da ambição pelo problema, não da busca por valuation. Fundamentos primeiro, fronteiras depois.
  • O desconto de valuation aplicado a empresas latino-americanas pode ser revertido quando a receita começa a vir em dólar e o modelo se prova além das fronteiras regionais.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 32 · CommerceSummit · Branding · BrasilCore · GlobalBrands
🇧🇷 Marca

“Lá fora, o Brasil é um estado de espírito”, e três marcas estão engarrafando isso para o mundo

Liel Miranda
Liel MirandaCEO Global · Alpargatas
Sissi Freeman
Sissi FreemanCMO · Granado
Fabio Barreto
Fabio BarretoFARM Rio

Quando você põe uma Havaianas, é uma mini férias.

Quando uma marca brasileira cruza a fronteira, o que o estrangeiro coloca no carrinho não é exatamente um chinelo, um sabonete ou um vestido. É uma sensação. “Lá fora, o Brasil é um estado de espírito”, resumiu Liel Miranda, CEO global da Alpargatas, em uma frase que organizou todo o painel no Web Summit Rio.

Ao lado dele, dois operadores que vivem o mesmo desafio em categorias diferentes: Sissi Freeman, CMO da Granado, formada por Georgetown e Harvard, à frente do marketing de uma casa de mais de 150 anos, e Fabio Barreto, CEO global da FARM Rio, que liderou a internacionalização da marca desde 2019. Três marcas, uma tese comum: o mundo não está comprando “produto brasileiro”. Está comprando o Brasil. E isso muda completamente como você expande.

1. O Brasil é um estado de espírito, não um SKU. O ativo que essas marcas exportam é um desejo universal embrulhado em brasilidade. Liel descreve com precisão clínica: “Quando você põe uma Havaianas, é uma mini férias.” É o momento de “descer do salto”, de sol, de transformar o dia comum em algo extraordinário, uma necessidade global numa era de performance e velocidade. Sissi traduz o mesmo movimento para a alta perfumaria: “O Brasil é um lifestyle para o estrangeiro.” E Fabio sintetiza no tagline da FARM, “Dressing Happiness”, o que ele chama de “a felicidade criativa do brasileiro”. O detalhe que separa essas marcas de uma commodity exótica é que a origem não é enfeite, é o multiplicador. Liel foi direto: se a Havaianas tivesse o mesmo produto, mas fosse “uma marca sueca, não ia ter o mesmo efeito”. A combinação produto universal + lugar Brasil é o que faz o preço e o desejo subirem juntos. E essa conexão se ancora na memória. Sissi lembra que “a memória olfativa é uma das mais fortes que a gente tem”, por isso a Granado produz tudo no Brasil, para que o cliente nos EUA ou na Europa sinta exatamente o que sentiria aqui. Parte do jogo é resgatar memórias afetivas; outra parte é criar memórias novas, em lojas e parcerias com hotéis, para quem nunca pisou no país.

de sol, de transformar o dia comum em algo extraordinário, uma necessidade global numa era de performance e velocidade. Sissi traduz o mesmo movimento para a alta perfumaria:

1. Traduzir, não exportar.

Aqui mora o erro mais caro, e o aprendizado mais valioso. A FARM tentou simplesmente exportar no início. Não funcionou. “A gente entendeu que não ia funcionar, então a gente decidiu lançar de verdade”, contou Fabio. Lançar de verdade significou coleção internacional diferente da nacional (por sazonalidade, clima, leitura cultural), paleta de cores ajustada ao calendário do hemisfério e cuidado obsessivo com o contexto, uma estampa de coqueiro no inverno europeu, exemplificou, causa estranheza, não desejo. Mais importante: a marca precisa ser preparada antes do produto. A FARM foi primeiro aos EUA, depois à Europa, decompôs o que significava operar no Reino Unido versus na França, e só então colocou produto à venda, a marca tinha que ser “apresentada, lançada e explicada para o consumidor” primeiro. A Havaianas faz o equivalente: no Brasil é “o CPF do brasileiro”, dispensa apresentação; lá fora precisa ser posicionada como acessório de moda, via colaborações, comunicação e preço diferenciados. A Granado descobriu que precisava se reapresentar do zero, e que o best-seller do Reino Unido não é o da França, nem o dos EUA.

1. Foco e paciência vencem velocidade. A lição mais contraintuitiva para um board ansioso por escala: vá devagar e vá fundo. “Não adianta querer vender em muitos lugares. Você tem que escolher poucos lugares e fazer bem feito”, disse Liel. A Alpargatas só destravou crescimento quando concentrou foco e adaptou os canais à realidade de cada mercado, distribuidor, key account ou loja própria, em vez de replicar a fórmula brasileira. A Granado levou cerca de 13 anos justamente porque optou por avançar com cautela, esbarrando em legislações que mudam o tempo todo na Europa e no Japão. Fabio coloca o filtro financeiro por trás da disciplina: fora do Brasil o mercado é “extremamente competitivo”, e não basta ter algo diferente, é preciso entregá-lo com margem, de forma perene. “Senão vai ficar cara a brincadeira.”

. O detalhe que separa essas marcas de uma commodity exótica é que a origem não é enfeite, é o multiplicador. Liel foi direto: se a Havaianas tivesse o mesmo produto, mas fosse

O que isso diz ao mercado O “Brasil Core” deixou de ser tendência de feed para virar vetor de receita, grandes campanhas globais de perfumaria já são fotografadas em Ipanema, e o apetite mundial por leveza, autocuidado e desaceleração joga a favor de quem nasceu fluente nesse idioma. Mas o recado para qualquer executivo, em qualquer setor, vai além do Brasil: autenticidade não escala sozinha. Ela escala quando é traduzida com rigor, lançada com preparação e expandida com foco. A origem é o diferencial; a disciplina é o que o transforma em negócio duradouro. E há um risco a gerir, Fabio alerta que a marca “não está numa foto estática de vender o Brasil”: ser autêntico exige permanecer culturalmente relevante, não congelar no clichê.

✦ Aprendizados que ficam
  • Venda o desejo universal, não o produto, e use sua origem como multiplicador, não como enfeite. O que escala é a sensação que só a sua marca entrega daquele jeito. Traduza em vez de exportar. Adapte produto, portfólio e narrativa, e prepare o mercado explicando a marca antes de colocar produto à venda. Escolha poucos mercados e faça bem feito. Foco, adaptação de canais e crescimento gradual com margem batem expansão acelerada e dispersa.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
FARM Rio
Faturamento superior a R$3 bilhões, com cerca de R$1 bilhão proveniente do mercado internacional (conforme citado em palco) E-commerce: cerca de 50% do negócio Atacado e lojas de departamento: cerca de 40% 12 lojas próprias no exterior, representando cerca de 10% do faturamento Estudo dos mercados americano e europeu desde 2018; lançamento internacional em 2019
Havaianas / Alpargatas Cerca de 1.000 lojas no mundo (600 no Brasil e 400 em outros países) Presença principal em 25 mercados 300 mil pontos de venda no Brasil
Granado Mais de 150 anos de história 126 lojas próprias no Brasil 10 lojas próprias no exterior Mais de 100 pontos de venda nos EUA e na Europa Cerca de 13 anos de presença internacional
ARTIGO 33 · MarketingSummit · Branding · Community · SportsMarketing
🇧🇷 Marca

O maior erro das marcas hoje? Interromper a cultura em vez de fazer parte dela.

Alexandre Martinez
Alexandre MartinezHead of Marketing Brasil · On
Cléber Rodrigues
Cléber RodriguesCNN Brasil

Não interrompa a comunidade.

Foi com essa frase simples e poderosa que Alexandre Martinez, Head of Marketing Brasil da On, resumiu uma das grandes transformações do marketing contemporâneo. Em um mercado saturado por campanhas, mensagens e disputa por atenção, as marcas mais relevantes não são necessariamente as que falam mais alto, mas as que conseguem se integrar de forma genuína aos movimentos culturais que já estão acontecendo.

Ao lado de Cléber Rodrigues, da CNN Brasil, Martinez contou como a On nasceu da busca de Olivier Bernhard, ex-triatleta profissional, por uma solução para aliviar dores no tendão de Aquiles. A ideia inicial parecia improvável: adaptar pedaços de mangueira à sola de um tênis. O resultado foi uma sensação de correr “nas nuvens”, e o início de uma marca que hoje combina tecnologia, design minimalista e performance.

“O produto nasceu de uma necessidade humana real. A inovação veio para resolver um problema concreto.”

Mas a tecnologia é apenas parte da história.

A On construiu sua diferenciação também pela forma como entende cultura. Em vez de atuar apenas no território tradicional da performance esportiva, a marca busca conexões menos óbvias, como sua aproximação com Inhotim, unindo corrida, arte, dança e movimento.

“Estamos criando uma plataforma de movimento que envolve corrida, dança e arte. É um território que outras marcas ainda não ocupam.”

O produto nasceu de uma necessidade humana real. A inovação veio para resolver um problema concreto.

Essa estratégia mostra uma mudança importante: marcas fortes não vendem apenas produtos. Elas constroem pertencimento, participam de comunidades e ajudam a dar forma a novos estilos de vida.

Martinez também destacou que influência não depende apenas de grandes celebridades. No universo da corrida, muitas vezes a maior referência é o amigo que corre ao lado. Por

isso, a On trabalha tanto com atletas de alta performance, como João Fonseca e nomes globais, quanto com embaixadores locais capazes de gerar identificação real.

“Quem corre sabe que muitas vezes sua maior influência é o amigo que corre ao seu lado.”

O crescimento da corrida no Brasil reforça essa oportunidade. Segundo Martinez, o país já tem cerca de 15 milhões de corredores e ganhou aproximadamente 2 milhões de novos praticantes no último ano. A pandemia acelerou a busca por bem-estar, saúde mental e conexão social, e a corrida se tornou uma prática democrática, acessível e profundamente comunitária.

Estamos criando uma plataforma de movimento que envolve corrida, dança e arte. É um território que outras marcas ainda não ocupam.

Para CEOs, a provocação é clara: comunidades não esperam marcas criarem tendências. Elas já estão em movimento. O desafio é entender como participar delas sem interrompê-las.

“Entenda o território que você quer ocupar. Entenda qual é o seu diferencial. Parece simples, mas poucas marcas realmente fazem isso.”

No fundo, a trajetória da On mostra que inovação não nasce apenas de tecnologia. Nasce da capacidade de identificar espaços ainda não ocupados, construir relevância cultural e criar conexões autênticas com as pessoas.

✦ Aprendizados que ficam
  • Relevância cultural vale tanto quanto inovação tecnológica.
  • O futuro do branding está na expansão de territórios: esporte pode conversar com arte, dança, bem-estar e cultura.
  • Influência não está apenas nas celebridades, mas nas comunidades e nas relações de proximidade. Sua empresa está tentando chamar atenção da cultura ou já faz parte dela?
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Cerca de 15 milhões de brasileiros praticam corrida.
O Brasil ganhou aproximadamente 2 milhões de novos corredores no último ano.
O novo tênis apresentado pela On pesa cerca de 175 gramas.
O produto é fabricado em aproximadamente 3 minutos por braços robóticos.
A nova fábrica da On na Coreia do Sul opera com mais de 30 robôs.
Alexandre Martinez tem mais de 15 anos de experiência em marketing, branding e marcas globais.
ARTIGO 34 · MarketingSummit · Branding · Storytelling · Publicidade
🇧🇷 Marca

30 anos de Priceless: o que a Mastercard fixou e o que ela muda o tempo todo

Taciana Lopes
Taciana LopesVP de Marketing e Comunicação · Mastercard Brasil

Isso é atemporal, porque dialoga com o que a gente tem de mais humano

Um consumidor médio é exposto a cerca de 5 mil anúncios por dia. No dia seguinte, lembra de apenas dois. Foi com esse dado que Taciana Lopes abriu sua fala no Web Summit Rio para explicar por que uma marca de pagamentos decidiu, há três décadas, falar justamente de tudo aquilo que o dinheiro não compra.

À frente do marketing da Mastercard no Brasil e com mais de 20 anos de carreira em multinacionais como Coca-Cola, Visa e WhatsApp, Taciana carrega o legado da plataforma Priceless, uma campanha que nasceu em 1997 e que, em vez de envelhecer, virou o DNA da marca. A pergunta que interessa ao C-level não é por que ela emociona, mas por que ela dura. E a resposta tem menos a ver com sentimento e mais a ver com método.

O funcional é só o ingresso

No Brasil, um dos mercados de pagamento mais avançados do mundo, a Mastercard não disputa atenção nem aquisição, o brasileiro já carrega, em média, 2,3 cartões na carteira. O jogo é de preferência: dar motivo para alguém puxar justamente o seu cartão. Conveniência e segurança importam, mas Taciana as classifica como table stakes, aquilo que o consumidor já dá como garantido. “Isso não é suficiente pra gente se diferenciar”, resumiu. A aposta na conexão emocional, hoje quase óbvia, era visionária e ousada há 30 anos, quando o dinheiro em espécie dominava e o caminho lógico seria explicar que o cartão é prático. A marca escolheu o oposto.

A essência é fixa; o meio é descartável

para ir ao ar hoje. O que envelhece é a superfície.

A longevidade vem de uma separação clara entre o que nunca muda e o que muda o tempo todo. O núcleo é uma verdade humana: emoções, experiências com quem importa e as memórias que ficam. “Isso é atemporal, porque dialoga com o que a gente tem de mais humano”, disse ela, ancorada no dado de que 95% das decisões de consumo são baseadas em emoção. A prova de conceito é o primeiro filme, de 1997: segundo Taciana, estaria “praticamente pronto” para ir ao ar hoje. O que envelhece é a superfície. “A gente muda o meio e a execução”, mas sem abrir mão do que é atemporal, por isso ela aposta que a plataforma terá “mais 30, quem sabe mais”.

Forte para guiar, flexível para localizar

O segundo motor é o equilíbrio entre direção global e adaptação local: uma base forte e clara, mas “maleável e adaptável o suficiente pra fazer sentido pra cada um dos mercados”. Na prática, começa por falar do que o consumidor quer falar, não de pagamentos, o que a marca chama de Passion Web. No Brasil, isso significa mapear paixões como futebol, viagens, música e gastronomia e se tornar relevante dentro delas. O Carnaval virou laboratório: em vez de só marcar presença, a Mastercard se perguntou qual era seu espaço legítimo ali e transformou o pagamento por aproximação em maquiagem com chip, camuflada entre os adereços da folia. E quando uma campanha global de mobilidade pregava transporte público por sustentabilidade, argumento que não colava por aqui, o time local teve liberdade para reconectá-la ao Carnaval: passar o cartão na catraca sem perder o bloquinho. A emoção, lembra Taciana, nem sempre vem da lágrima fácil; pode vir de resolver um perrengue.

mas sem abrir mão do que é atemporal, por isso ela aposta que a plataforma terá

Análise: para onde o jogo está indo

Em um setor obcecado por dados e automação, a fala da Mastercard é um contraponto disciplinado: storytelling e experiência no centro, com a mídia a serviço da história, e não o contrário. “Às vezes é atropelado por tanto dado, por tanto AI”, reconheceu Taciana, mas defende que emoção e narrativa seguem insubstituíveis. O movimento mais revelador é o próprio cartão se dissolvendo: plástico, relógio, celular, app, “o formato não importa”. O posicionamento permanece; só a materialização evolui. Para qualquer líder, a lição transcende pagamentos: o que diferencia uma marca não é o produto que ela vende hoje, mas a verdade humana que ela escolhe ocupar. E marca forte não é vaidade, começa nas prioridades do negócio e volta para ele. Não por acaso, a Mastercard é a 12ª marca mais valiosa do mundo e consolidou liderança em volume de pagamentos nos últimos nove anos.

✦ Aprendizados que ficam
  • Diferencie-se pelo que é atemporal, não pelo que é funcional, atributos práticos são apenas o ingresso e expiram rápido como vantagem competitiva.
  • Fixe a essência e troque todo o resto: a permanência de uma marca vem de manter intacto o seu núcleo enquanto canais, formatos e até o próprio produto mudam sem parar.
  • Uma base global só vira diferencial se for flexível o bastante para ser local, dê autonomia ao time da ponta e fale das paixões do consumidor, não das suas.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Cerca de 5 mil anúncios recebidos por um consumidor médio a cada dia; apenas 2 são lembrados no dia seguinte.
2,3 cartões, em média, na carteira do brasileiro.
95% das decisões de consumo são baseadas em emoções.
Priceless: mais de 30 anos de plataforma; primeiro filme lançado em 1997, nos EUA.
Filme da campanha da Copa América assistido 422 vezes pela própria executiva.
Transações no Carnaval movimentam quase US$ 2,5 bilhões.
Mastercard é a 12ª marca mais valiosa do mundo.
9 anos consecutivos consolidando liderança em volume de pagamentos.
Mais de 20 anos de experiência em marketing de Taciana Lopes.
Títulos (title rights) da equipe McLaren fechados globalmente pela Mastercard neste ano.
ARTIGO 35 · MarketingSummit · Branding · Cultura · Socialização
🇧🇷 Marca

Nem a cerveja é atemporal: como a Heineken quebrou o algoritmo para reinventar a socialização

Cecília Bottai Mondino
Cecília Bottai MondinoVP de Marketing · Heineken Brasil

Não dá para ficar parado e achar que só uma cerveja vai atender todas as necessidades das pessoas

Uma marca de mais de 150 anos subiu ao palco do Web Summit Rio para admitir algo que poucos líderes gostam de dizer em voz alta: nada é eterno, nem mesmo o produto que te tornou líder. “Não dá para ficar parado e achar que só uma cerveja vai atender todas as necessidades das pessoas”, resumiu Cecília Bottai Mondino. O alvo da Heineken não era um concorrente, e sim uma mudança cultural incômoda: o avanço da solidão e o declínio da arte de socializar.

VP de Marketing da Heineken no Brasil desde 2023, Cecília voltou ao país após três anos na Holanda, onde liderou o portfólio internacional e de marcas de inovação. Um ano depois de colocar a plataforma na rua, ela apresentou a tese que sustenta toda a operação: marcas verdadeiramente relevantes não seguem a cultura, elas puxam.

Nem cerveja é atemporal: o portfólio precisa acompanhar a jornada

A geração mais nova ainda bebe, mas bebe com moderação. Foge dos perigos da noite e da “ressaca moral” do dia seguinte, e não se identifica mais só com ir ao bar tomar uma cerveja. A resposta da Heineken não foi defender o produto de sempre, e sim multiplicá-lo para cada momento: a Heineken Ultimate, com 30% menos calorias, sem glúten, menor teor alcoólico e o mesmo sabor; a Lager Spritz lançada no verão; a opção zero para quem acabou de correr. A lição que importa para o C-level é dura: relevância é perecível. Um produto que não evolui com o consumidor envelhece, mesmo carregando 150 anos de marca.

Puxar a cultura, não segui-la: do anti-algoritmo aos novos rituais de socialização

entregando os anúncios errados para as pessoas erradas, de propósito

A aposta mais ousada da Heineken não foi reagir à mudança cultural, mas se colocar à frente dela. Para Cecília, o grande inimigo da conexão real é a previsibilidade, a “falsa ilusão de presença” de saber da vida de um amigo pelo Instagram sem encontrá-lo há mais de um ano, e o algoritmo que só mostra o que você já conhece e encolhe o seu repertório. Em vez de seguir esse roteiro, a marca decidiu quebrá-lo. O NoLineUp Festival não anunciava um único artista: você chegava sem saber quem ia tocar, e cada show virava uma revelação. Estreou para 3 mil pessoas, tornou-se um dos eventos mais comentados do ano e fez até o app de resgate de ingressos ficar acima de Netflix e TikTok. A marca trocou

os roteiros, quem pedia música eletrônica era mandado a um listening bar de MPB, e rodou de propósito “o pior plano de mídia que a gente já fez na nossa vida”, “entregando os anúncios errados para as pessoas erradas, de propósito”, para escancarar como o algoritmo decide o que consumimos. A provocação que dá nome à filosofia: por que paramos de nos surpreender?

Liderar a cultura, porém, exige estar onde a vida realmente acontece, e ela não cabe mais só no bar. Hobbies e paixões viraram os novos pontos de encontro; não à toa, Cecília conta que fez seus melhores amigos jogando vôlei de praia. A Heineken passou a ocupar esses territórios: na corrida, transformou a linha de chegada em ponto de partida para reencontrar amigos; na Fórmula 1, converteu o gramado do Heineken Village no maior festival do automobilismo; e ativou a paixão coletiva na Champions League. O retorno é concreto: a Heineken se tornou a cerveja mais forte e preferida do Brasil. “A gente está puxando essa mudança cultural e não seguindo essa mudança cultural”, afirmou a executiva, falando de uma marca que se define como “a verdadeira rede social desde 1873”.

A gente está puxando essa mudança cultural e não seguindo essa mudança cultural

Para onde o jogo está indo

O caso Heineken antecipa um deslocamento que vai muito além de cerveja. Numa economia de atenção dominada por algoritmos que homogeneízam o gosto, e em meio a uma epidemia de solidão, o ativo mais escasso passou a ser o encontro real. Marcas que antes disputavam share of voice começam a disputar share of life: presença nos momentos em que as pessoas de fato se conectam. Para a liderança, o recado é duplo, previsibilidade virou risco de marca, e a próxima fronteira de crescimento pode estar menos no funil digital e mais na capacidade de criar, e liderar, rituais culturais no mundo real.

✦ Aprendizados que ficam
  • Nenhum produto é atemporal: evolua o portfólio para acompanhar a jornada real do consumidor, e não a que existia quando a marca nasceu.
  • Surpresa é estratégia: projete experiências que quebram o algoritmo e devolvem a descoberta, previsibilidade afasta, serendipidade engaja.
  • Marcas relevantes puxam a cultura: ocupe os novos momentos de socialização e lidere a mudança em vez de apenas reagir a ela.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Heineken: mais de 150 anos de história, com cerveja produzida desde 1873.
Heineken Ultimate: 30% menos calorias, sem glúten e menor teor alcoólico, mantendo o sabor característico.
NoLineUp Festival: 3 mil pessoas na primeira edição, com ampliação prevista para este ano.
App de resgate de ingressos do festival: chegou a ficar acima de Netflix e TikTok.
ARTIGO 36 · CommerceSummit · Trust · CustomerExperience · Reputation
🇧🇷 Marca

Hoje, a reputação de uma empresa não é mais aquilo que ela diz sobre si mesma. É aquilo que milhares de consumidores dizem sobre ela todos os dias. O ativo mais valioso das marcas brasileiras já não está sob seu controle

Patricia Cansi
Patricia CansiCOO · Reclame AQUI

Hoje a reputação é muito mais resultado da experiência entregue todos os dias do que da promessa feita pela empresa

Durante décadas, as marcas construíram reputação por meio de publicidade, posicionamento e promessa.

Hoje, reputação é consequência da experiência.

E talvez nenhuma empresa represente melhor essa mudança do que o Reclame AQUI.

No painel que reuniu Patricia Cansi, COO da plataforma, e Pedro Dias, fundador da Mevo, ficou evidente que estamos vivendo uma transformação profunda na relação entre empresas e consumidores. A confiança deixou de ser construída pela narrativa das marcas e passou a ser construída pela consistência de suas entregas.

Em outras palavras: reputação tornou-se um dado público.

Os números ajudam a explicar essa relevância. O Reclame AQUI recebe mais de 22 milhões de usuários únicos por mês, reúne mais de 850 mil empresas cadastradas e processa mais de 50 mil reclamações diariamente. O que começou como um canal de mediação de conflitos transformou-se em uma das maiores bases de inteligência sobre comportamento do consumidor do país.

Mas talvez o dado mais relevante não seja nenhum desses.

Segundo Patricia, a plataforma registra cerca de 650 milhões de consultas mensais. Isso significa que milhões de consumidores utilizam o histórico de atendimento das empresas como critério para decidir onde comprar, contratar ou confiar.

A reputação deixou de ser um tema de marketing para se tornar um fator de decisão de negócio.

Essa é a primeira grande lição para os líderes.

A marca continua importante. Mas ela já não controla sozinha sua imagem.

“Hoje a reputação é muito mais resultado da experiência entregue todos os dias do que da promessa feita pela empresa”, resumiu Patricia.

A segunda lição é que confiança não pertence mais a uma única área.

As empresas mais bem avaliadas não são necessariamente aquelas que possuem os maiores investimentos em atendimento. São aquelas que conseguem colocar o cliente no centro das decisões de toda a organização.

Patricia destacou que as companhias com melhor desempenho compartilham uma característica comum: a responsabilidade pela experiência do cliente não está concentrada em uma área específica. Logística, operações, tecnologia, atendimento, jurídico e liderança trabalham orientados pelo mesmo objetivo.

Parece simples, mas representa uma mudança cultural importante.

Quando a experiência do cliente se torna responsabilidade de todos, a reputação deixa de ser um resultado do SAC e passa a ser resultado do modelo de gestão.

O exemplo da Mevo mostrou como isso acontece na prática.

A empresa conecta médicos, pacientes e farmácias por meio de prescrições digitais e entrega de medicamentos. Em muitos casos, a experiência final depende de parceiros externos. Ainda assim, Pedro Dias foi categórico: para o cliente, pouco importa quem falhou.

Se houve um problema, a responsabilidade é da marca com a qual ele se relaciona.

Essa visão ajuda a explicar uma das mudanças mais importantes do mercado digital. O consumidor não avalia estruturas organizacionais. Ele avalia experiências.

E isso exige das empresas um nível de coordenação muito maior do que no passado.

A terceira lição talvez seja a mais provocativa.

Toda empresa terá problemas.

A diferença competitiva não está mais em evitar erros. Está em como reagir a eles.

Patricia lembrou que o Reclame AQUI deixou de ser apenas um espaço de reclamações para se tornar uma ferramenta de aprendizado organizacional. As empresas mais maduras

utilizam o feedback dos consumidores como fonte de inteligência para revisar processos, identificar falhas recorrentes e acelerar melhorias.

O erro deixou de ser apenas um incidente operacional.

Ele se transformou em uma oportunidade de aprendizado público.

Para muitos executivos, essa nova realidade pode parecer desconfortável.

Mas é justamente ela que está redefinindo os mercados digitais.

Em um ambiente onde a informação circula instantaneamente e as experiências são compartilhadas em escala, confiança não pode ser construída apenas por campanhas. Ela precisa ser conquistada diariamente.

E é exatamente por isso que o Reclame AQUI se tornou tão relevante para as marcas brasileiras.

Mais do que uma plataforma de reclamações, ele se consolidou como um dos principais termômetros da reputação corporativa do país.

✦ Aprendizados que ficam
  • Reputação deixou de ser uma promessa de marca e passou a ser resultado visível da experiência entregue ao cliente.
  • As empresas mais bem avaliadas tratam a experiência do consumidor como responsabilidade de toda a organização, e não apenas do atendimento.
  • Na economia digital, a forma como uma empresa responde aos problemas importa tanto quanto sua capacidade de evitá-los.
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
22 milhões de usuários únicos mensais no Reclame AQUI.
Mais de 850 mil empresas cadastradas na plataforma.
Mais de 50 mil reclamações recebidas por dia.
Aproximadamente 650 milhões de consultas realizadas por mês na base de reputação da plataforma.
A Mevo atende mais de 20 milhões de brasileiros por ano.
Cerca de 20% dos profissionais de saúde do Brasil utilizam a plataforma da Mevo.
Mais de 1,5 milhão de brasileiros recebem receitas digitais por mês através da Mevo. : Essa abordagem evita transformar o texto em um painel sobre SAC ou atendimento e o posiciona como uma reflexão sobre um tema muito maior: a reputação como infraestrutura de confiança na economia digital brasileira. Isso me parece ser o verdadeiro insight que ficou da conversa.
ARTIGO 37 · CreativeSummit · Branding · Design · Motion
🇧🇷 Marca

Em um mundo dominado por telas, marcas que não se movem correm o risco de parecer paradas no tempo. Motion não é acabamento. É identidade em movimento.

Thales Muniz
Thales MunizAssociate Motion Director · Porto Rocha

Durante muito tempo, o movimento foi tratado como a etapa final do design: algo que entrava depois da identidade visual pronta, quase como um recurso estético para dar vida a uma campanha, um vídeo ou uma peça digital.

A provocação de Thales Muniz, Associate Motion Director da Porto Rocha, foi justamente o oposto: motion precisa estar no início da construção de uma marca, não no fim.

Em um cenário em que marcas vivem em múltiplas telas, plataformas e formatos, a forma como elas se movem tornou-se parte essencial de como são reconhecidas, percebidas e lembradas.

Motion deixou de ser apenas animação.

Passou a ser linguagem.

Essa talvez seja a principal mudança para líderes e marcas que querem se manter relevantes. Se antes a identidade era construída sobretudo por logo, cor, tipografia e tom de voz, hoje o movimento também define personalidade, ritmo e presença.

Uma transição, uma entrada de tela, um comportamento visual ou uma microanimação podem comunicar sofisticação, energia, simplicidade, tecnologia ou proximidade.

O movimento cria atmosfera.

E, quando bem desenhado, ajuda uma marca a parecer mais contemporânea sem necessariamente abandonar sua essência.

Esse ponto apareceu com força na apresentação: motion pode ser uma excelente ferramenta de modernização de marca. Não porque torna tudo mais “dinâmico”, mas porque

traduz uma identidade para o ambiente onde as pessoas mais interagem com ela hoje, as telas.

Para Thales, o motion deve ser pensado a partir de perguntas estratégicas: por que a marca se move? Onde esse movimento aparece? Qual é o ritmo certo? Quanta informação precisa ser entregue? O que deve ser priorizado?

Essas perguntas mudam completamente o papel do motion dentro do branding.

Ele deixa de ser decoração e passa a ser sistema.

Nos cases apresentados pela Porto Rocha, ficou claro que movimento pode ajudar marcas globais a organizar presença, criar consistência e ampliar reconhecimento em diferentes pontos de contato. Em vez de animações isoladas, a ideia é construir uma biblioteca de comportamentos: elementos, ritmos e princípios que possam ser replicados ao longo do tempo por diferentes equipes.

Essa visão é especialmente importante para marcas que operam em escala.

Quanto mais canais, telas e criadores envolvidos, maior a necessidade de um sistema claro. Sem isso, a marca se fragmenta. Com isso, ela ganha coerência.

Outro aprendizado relevante foi a importância da simplicidade.

Em um momento em que novas ferramentas, inclusive inteligência artificial, ampliam as possibilidades de criação, existe uma tentação natural de fazer mais: mais efeitos, mais camadas, mais complexidade.

Mas Thales trouxe uma visão mais sofisticada: nem tudo que se move precisa chamar atenção o tempo inteiro.

Às vezes, o movimento mais poderoso é o mais sutil.

A simplicidade, quando bem executada, pode ser mais elegante, mais memorável e mais fiel à essência da marca.

A IA também apareceu na conversa, mas não como substituta da criatividade. Pelo contrário. Ela foi apresentada como uma ferramenta capaz de acelerar explorações, ampliar possibilidades e tornar processos mais acessíveis. Mas a decisão estratégica continua humana.

A tecnologia pode expandir repertório.

Mas não define o que uma marca deve expressar.

Essa distinção é fundamental. Em branding, a pergunta mais importante não é “o que a ferramenta permite fazer?”, mas “o que a marca precisa comunicar?”.

E é justamente aí que o motion ganha relevância para CEOs e executivos.

Porque movimento não é apenas uma questão de design. É uma questão de percepção.

Marcas fortes não são apenas vistas. Elas são sentidas, reconhecidas e lembradas em movimento.

Em um ambiente de atenção fragmentada, onde a experiência acontece em segundos e em múltiplos formatos, motion pode ser o detalhe que transforma uma identidade visual em uma presença viva.

A grande lição da palestra é que marcas contemporâneas precisam aprender a se mover com intenção.

Não para parecerem modernas.

Mas para continuarem reconhecíveis, relevantes e culturalmente vivas.

✦ Aprendizados que ficam
  • Motion deve entrar no início da estratégia de marca, não como acabamento final.
  • Movimento pode modernizar uma marca sem romper com sua essência, criando presença, ritmo e reconhecimento.
  • Em um mundo de telas e IA, o diferencial não está em fazer mais efeitos, mas em mover a marca com intenção, clareza e consistência.
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Porto Rocha tem uma equipe de aproximadamente 40 integrantes.
A apresentação destacou cases de marcas globais e culturais, mas não trouxe dados quantitativos adicionais específicos.
ARTIGO 38 · MarketingSummit · Branding · Criatividade · RelevânciaCultural
🇧🇷 Marca

Memória, não mídia: como o Burger King multiplica o que investe

Pedro Barbosa
Pedro BarbosaCMO · Burger King Brasil (ZAMP)

A marca não cresce apenas quando está disponível.

Foi com essa provocação que Pedro Barbosa abriu sua tese sobre crescimento num dos mercados mais competitivos do mundo. O ponto: estar em todo lugar virou commodity, a tecnologia já entrega escala e distribuição a qualquer player. O que define o resultado é outra coisa, e ela mora na cabeça do consumidor.

CMO do Burger King Brasil (ZAMP), com uma década de liderança global em marketing e vendas na Restaurant Brands International e passagem como Chief Strategy Officer da Kraft Heinz Brasil, Barbosa veio ao Web Summit Rio defender um deslocamento de foco: sair da disputa por share of mídia e ir para a disputa por share de memória.

A decisão se dá na memória

No fast food, a compra é rápida e acontece por associação. A marca precisa ocupar a disponibilidade mental do consumidor: estar conectada, no instante da decisão, aos atributos que pesam na categoria, qualidade, quantidade, custo-benefício. A ambição do BK é objetiva: ser a opção mais saborosa. Por isso amarra cada atributo a um sinal concreto, ingredientes frescos, porções generosas, comida de verdade, carne grelhada no fogo.

Intensidade: o que separa estar na memória de dominá-la

como gerar intensidade sem ter o orçamento dele?

Ter muitas associações (capilaridade) não basta, alertou Barbosa. É preciso intensidade, e intensidade se constrói repetindo a mensagem na mídia, até o consumidor conectar de forma automática o atributo que o move à marca. Aqui mora o problema estratégico: o BK enfrenta um concorrente com poder de mídia muito maior. Competir investimento contra investimento seria inviável. A pergunta deixou de ser “como gastar tanto quanto o líder?” e virou “como gerar intensidade sem ter o orçamento dele?”.

Relevância cultural: a alavanca que extrapola o investimento

A resposta foi a relevância cultural. Entrar em assuntos relevantes no momento, e de forma autêntica, faz a criatividade multiplicar o alcance muito além do investimento

A relevância cultural é o que vai nos permitir extrapolar o limite daquele investimento nominal de mídia

nominal. “A relevância cultural é o que vai nos permitir extrapolar o limite daquele investimento nominal de mídia”, disse Barbosa. Dois casos provam a mecânica. Após a repercussão da luta entre Popó e Wanderlei Silva, a marca surfou a conversa com uma promoção construída sobre o número “2”, atrelando o momento cultural a um atributo de produto. E quando “Betinho” ficou cinco dias perdido numa trilha no Pico do Paraná, abandonado pelos amigos, o BK transformou o caso, de final feliz, em ação criativa ligada à mesma mensagem de fartura. Nenhuma exigiu grande mídia; ambas geraram conversa, tensão e venda. A criatividade, nesse modelo, não é estética: é o que injeta intensidade nas associações sem precisar comprá-la.

Análise: para onde o jogo está indo

O argumento ultrapassa o fast food. À medida que a tecnologia comoditiza escala, distribuição e conveniência, o diferencial sustentável passa a ser a capacidade de gerar memória com relevância cultural. Mídia paga vira piso, não teto: o que separa as marcas é quanta atenção conquistam, não quanta compram. Como Barbosa resumiu, não se trata de comprar a melhor mídia, e sim de ganhar a mídia que a marca merece. Para o C-level, a leitura é direta: onde o líder sempre gastará mais, a criatividade autêntica é o multiplicador que converte um orçamento menor em presença desproporcional na memória, e, no tempo, em preferência.

✦ Aprendizados que ficam
  • Dispute share de memória, não só share de mídia: amarre a marca aos atributos que de fato movem a decisão na sua categoria.
  • Capilaridade sem intensidade não converte: é a repetição consistente que transforma associação em lembrança automática no instante da compra.
  • Relevância cultural é o multiplicador do orçamento: criatividade autêntica injeta intensidade nas associações e extrapola o investimento de mídia que o dinheiro, sozinho, não compra.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Burger King: cerca de 10 anos de operação no Brasil.
Caso Betinho: 5 dias perdido na trilha do Pico do Paraná, sem comer.
Promoção atrelada à luta Popó x Wanderlei: oferta a partir de R$ 25,90.
Produto em destaque construído sobre o número “2”: duas carnes grelhadas no fogo.
ARTIGO 39 · CreativeSummit · Fandom · Entretenimento · Comunidade
🔥 Destaque

Pertencer é o novo consumir: o que CCXP e Riot Games ensinam sobre o futuro das marcas

Diego Martinez
Diego MartinezHead of Product Publishing, Américas · Riot Games
Beto Fabri
Beto FabriCCXP & Omelete Company

Várias indústrias hoje em dia giram em torno de comunidades, e quem não percebe que comunidade é sobre pertencimento e não sobre conversão direta vai ficar para trás. Já está para trás.

A frase é de Diego Martinez, Head of Product Publishing para as Américas da Riot Games, e poderia ter sido dita em qualquer um dos painéis que acompanhamos nesta edição do Web Summit Rio. Mas quando vem de quem gerencia uma base de mais de 180 milhões de jogadores mensais, ela deixa de ser filosofia e vira dado operacional.

Ao lado de Beto Fabri, VP de Conteúdo e Branding da CCXP e Omelete Company, mediados pela criadora e jornalista Júlia Garcia, Diego construiu um argumento que ressoa com tudo o que esta cobertura tem mapeado desde segunda-feira: o consumidor não quer mais ser alcançado. Ele quer pertencer.

A Omelete tem 25 anos. Nasceu digital, virou o maior evento de cultura pop do planeta e hoje leva mais de 300 mil pessoas por ano a festivais presenciais em São Paulo, no México e, pela primeira vez em 2026, em Seul, na Coreia. A Riot tem 15 anos de mercado e construiu, além dos jogos, uma série de camadas de experiência que vão de competições de esports a animações na Netflix, como Arcane. Os dois caminhos são diferentes na forma, mas idênticos na lógica: o produto é o ponto de entrada, não o destino.

Diego descreveu bem essa progressão. Quando um jogador termina uma partida, ele não para de consumir a Riot. Ele quer a música, a série, a competição, a camiseta. “O que a gente faz quando desenvolve um jogo? A gente oferece para o jogador, naquele momento, uma opção para ele jogar. Só que depois que ele joga, ele fala para a gente: eu quero ainda consumir de outra forma.” A resposta da Riot foi construir um ecossistema inteiro em volta desse desejo, camada por camada, durante mais de uma década.

E é exatamente nessa estrutura em camadas que as parcerias de marca encontram seu lugar, ou não encontram. Beto foi direto sobre o critério que separa quem entra da comunidade de quem fica de fora dela. “Aquela marca que vem só para surfar não consegue hoje em dia fazer parte de uma indústria onde você precisa fazer parte dela. A marca quer entrar, tudo bem. Mas o que, além de dinheiro, ela contribui para a comunidade?” O exemplo dado foi preciso: um banco que patrocina uma competição de

A CCXP hoje serve mais como uma ponte do que como uma conquista de território. A gente leva um pouco da cultura brasileira, traz um pouco da cultura do México, agora da Coreia.

games e, ao mesmo tempo, oferece linha de crédito para o jovem comprar seu primeiro computador. Não é patrocínio. É produto desenvolvido dentro do contexto da comunidade.

Isso conecta diretamente ao que Rodrigo Moran disse no painel da Meta dois dias atrás: autenticidade não é tom, é estrutura. Uma marca que entra em uma comunidade de fandom sem entender o que aquela comunidade valoriza não vai errar o tom. Vai errar o produto. E produto errado não tem campanha que conserte.

O desafio de expansão cultural é onde a conversa ficou mais rica. CCXP está em três países e enfrenta a tentação que toda marca global conhece: chegar e tentar replicar o que funcionou em casa. Beto rejeitou esse caminho. “A CCXP hoje serve mais como uma ponte do que como uma conquista de território. A gente leva um pouco da cultura brasileira, traz um pouco da cultura do México, agora da Coreia.” O soft power coreano, disse ele, é uma força que não precisa de apresentação. Mas os coreanos também têm interesse genuíno na produção brasileira. A ponte funciona nos dois sentidos.

Quando você trabalha com comunidade, o trabalho nunca acaba

E essa ponte, para funcionar, precisa ser construída todos os dias. Não existe mais planejamento anual no modelo tradicional. “Quando você trabalha com comunidade, o trabalho nunca acaba”, disse Beto. “O relacionamento com publishers como a Riot e com estúdios como Disney, Warner e Netflix acontece durante o ano inteiro. É quase um trabalho diário, 24 horas por dia.” A comunidade não espera o próximo evento para consumir. Ela consome o streaming, joga, segue o Instagram, volta ao evento. É um ciclo contínuo que exige presença contínua.

O que une esse painel a toda a cobertura desta edição é uma conclusão que vai ficando mais nítida a cada palco: a disputa real não é por market share. É por tempo e por sentido. Diego nomeou isso sem rodeios. “Eu não compito com outras empresas de jogos. Eu compito com quem consome o mesmo espaço de tempo que você tem para jogar, para ir nas redes sociais, para assistir um filme.” Nesse cenário, a marca que não gera pertencimento não perde para um concorrente. Perde para tudo o mais que existe.

✦ Aprendizados que ficam
  • Pertencimento não é resultado de comunicação. É resultado de produto. Antes de pensar em campanha ou patrocínio, a pergunta é: o que a sua marca está gerando dentro da comunidade que justifique ela estar lá?
  • Fidelidade se constrói em camadas, não em momentos. A Riot não mantém 180 milhões de jogadores mensais com um bom jogo. Mantém com um ecossistema de experiências que acompanha o jogador além da partida. O mesmo vale para qualquer categoria.
  • Expansão cultural exige escuta antes de fala. CCXP não chegou ao México e à Coreia para exportar um modelo. Chegou para construir uma ponte. Marcas que tratam novos mercados como territórios a conquistar perdem para marcas que os tratam como culturas a compreender.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
180 milhões de jogadores mensais ativos nas plataformas da Riot Games
Mais de 300 mil pessoas por ano em festivais de cultura pop da CCXP
ARTIGO 40 · NewMediaSummit · CreativeSummit · Autenticidade · Marketing
🫂 Comunidade

O feed perfeito está morto. Longa vida à bagunça.

Juliette Freire
Juliette FreireArtista & Creator
Fábio Porchat
Fábio PorchatHumorista & Creator
Rodrigo Moran
Rodrigo MoranGlobal Head of Creative, Family of Apps · Meta

Assista o que quiser. Eu quero paz.

A frase de Juliette Freire no palco do Web Summit Rio resume com precisão o que pode ser a maior virada de chave do marketing de conteúdo da última década: a morte do feed perfeito e o nascimento de algo muito mais difícil de fabricar do que qualquer produção de estúdio. Algo chamado verdade.

No painel mediado pela jornalista Maria Prata, Porchat, Juliette Freire e Rodrigo Moran, Global Head of Creative da Meta para Family of Apps, conduziram uma conversa densa sobre o que de fato funciona nas redes sociais hoje e por que a maioria das marcas ainda não entendeu o recado.

O ponto de partida foi o tempo. Não o tempo de tela do usuário, mas o tempo de produção do criador. Porchat revelou que seu personagem Paulo César, o “gestor de Cristo”, é gravado e editado em menos de 24 horas, da ideia à publicação. “Quando a Itália não se classificou para a Copa, falei: escreve sobre a Itália. No dia seguinte já estava velho. Ninguém mais ia se importar.” A lógica é brutal: ou você responde à notícia no calor do momento ou o algoritmo te ignora antes mesmo de você publicar.

Mas agilidade sem alma não resolve. O que Porchat construiu não é só um fluxo rápido, é uma linguagem. O personagem está sempre em um lugar estranho, com roupa esquisita, gravado no banheiro ou num canto esquecido da casa, com luzes improváveis. “A ideia é criar uma identificação, entender que não é só o Fábio falando. Tem um olhar por trás, um personagem, e a pauta do que está acontecendo agora.” iPhone na mão, roteiro de um dia, edição ágil com cara de internet. É o mínimo de complexidade a serviço da máxima velocidade, sem abrir mão do cuidado com o texto.

Juliette trouxe uma perspectiva radicalmente diferente, e talvez mais honesta sobre os desafios de quem não nasceu criador de conteúdo. “Meu Instagram tinha 3 mil seguidores porque era maquiadora.” Ela veio do orgânico mais puro possível, uma câmera apontada para si no Big Brother, sem roteiro, sem produção. O desafio dela não é velocidade, é fazer uma profissão de algo que surgiu sem intenção. “Os conteúdos que eu mais amo são os passeios de moto. Porque isso eu sei fazer. Meu desafio é o conteúdo produzido.”

é gravado e editado em menos de 24 horas, da ideia à publicação.

A história da parceria com a marca de automóveis virou um case preciso sobre o que a autenticidade de verdade consegue fazer: em vez de seguir o roteiro da campanha, Juliette pediu para fazer do seu jeito. Postou uma foto simples com uma legenda sobre ser filha de mecânico, a autoestima que o carro representa, a autonomia que a máquina lhe deu.

“Viralizou. Milhões de compartilhamentos. Uma foto simples.” A diferença não estava na produção, estava na narrativa verdadeira.

Rodrigo Moran jogou luz no problema do lado das marcas. “Cada marca tem seu DNA. Quando você trabalha com criadores, precisa respeitar ao máximo o que ele traz para o público que já é fiel.” Ele citou a parceria da Porta dos Fundos com uma marca de proteção contra golpes financeiros: em vez de um anúncio convencional, deixaram os criadores reagirem no dia do lançamento, com velocidade e voz própria. O resultado: 25% das pessoas que normalmente pulam o anúncio, não pularam. “A gente decidiu passar a barreira dos 3 segundos”, disse Moran.

A ideia é criar uma identificação, entender que não é só o Fábio falando. Tem um olhar por trás, um personagem, e a pauta do que está acontecendo agora.

A conversa tomou um rumo inesperado e revelador quando Porchat contou sobre a troca de mensagens com um hater que o xingava diariamente. Depois de algumas respostas propositalmente diretas, o mesmo internauta que o chamou de “micróbio” terminou a conversa pedindo desculpa, dizendo que ia segui-lo e mandando um abraço. “Ele só queria atenção. Ele só queria que alguém olhasse para ele.” A cena arrancou risos da plateia, mas carregava o diagnóstico mais humano do painel: o ódio nas redes sociais, na maioria das vezes, não é sobre você. É sobre quem está do outro lado.

Juliette completou: “As pessoas querem pertencer. Seja no bom ou no ruim, elas querem ser vistas.” E esse instinto de pertencimento, que alimenta tanto as comunidades mais ricas quanto os comentários mais rançosos, é o mesmo motor que faz um conteúdo autêntico viralizar e uma campanha genérica morrer nos primeiros segundos.

O painel terminou com uma confissão desconfortável que talvez seja o aprendizado mais valioso para quem pensa em estratégia de conteúdo: “O massificado gosta de se iludir. A gente vê conteúdos mascarados de qualidade, repetindo coisas óbvias, polêmicas, vidas de ostentação irreais. As pessoas sabem que aquilo não foi conquistado de forma digna e continuam consumindo.” Não é ingenuidade do público. É escolha. E ignorar isso é o primeiro erro de quem quer construir algo de verdade nas redes.

✦ Aprendizados que ficam
  • Velocidade é condição, não diferencial. Conteúdo relevante tem data de validade de horas, não dias. Quem não opera com agilidade não opera.
  • Autenticidade não se terceiriza. Marcas que tentam comprar autenticidade sem abrir mão do controle criativo colhem o pior dos dois mundos: o custo do criador sem a credibilidade do criador.
  • Pertencimento é o produto. Conteúdo que cria senso de comunidade, seja em torno de um personagem, de uma causa ou de uma narrativa pessoal, tem alcance que nenhum orçamento de mídia paga compra.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 41 · NewMediaSummit · CreatorEconomy · Liderança · Inovação
🫂 Comunidade

Postar agora ou nunca: o que um creator com 60 milhões de seguidores e um skatista com 48 fraturas ensinam sobre o ritmo do mundo

Federico Hu
Federico Hu (Panda Boi)Creator · +60M inscritos
Bob Burnquist
Bob BurnquistAmbassador · X Games League / Banco do Brasil

Se cinco anos atrás eu diria para você 'não se preocupe, ainda tem tempo', hoje, em 2026, minha resposta é: se você não postar agora, pode ser tarde demais.

A frase é de Federico Hu, mais conhecido como Panda Boi, o italiano de origem chinesa que chegou ao Web Summit Rio direto do Alasca, vive em lugar nenhum e em todo lugar ao mesmo tempo, e acumula mais de 60 milhões de inscritos em seus canais. Ao lado de Bob Burnquist, skatista profissional, empreendedor, general manager do X Games Club São Paulo e sobrevivente de mais de 40 fraturas ao longo dos 49 anos de vida, subiu ao Center Stage, palco principal do evento, para uma conversa mediada pelo colunista de mídia do Valor Econômico, Guilherme Ravache. O tema oficial era geração Z e criação de conteúdo e a conversa teceu uma leitura coerente do tempo em que vivemos.

O painel começou com uma performance. Panda Boi trouxe ao vivo seu formato “Royal Chair”: dois minutos para adivinhar a profissão de um desconhecido escolhido na plateia, só fazendo perguntas. Funcionou. A sequência era claramente planejada. Bob já estava na audiência com um skate nas mãos e o próprio Federico logo admitiu: “é assim que o conteúdo viral é feito: parte real, parte construído.” A honestidade desarma e, ao mesmo tempo, levanta uma questão incômoda para qualquer CEO que pensa em estratégia de conteúdo: onde termina a autenticidade e começa a engenharia narrativa?

> “Quando fazemos conteúdo, não estamos mostrando a vida real. Estamos mostrando a versão perfeita. É como fazer um filme... queremos que cada cena seja a melhor possível. Não é conteúdo falso. É o melhor conteúdo possível para quem assiste.”

Bob Burnquist trouxe o contraponto natural. No skate, o erro é parte do produto e ele aprendeu que mostrar as quedas conecta tanto quanto mostrar os acertos. Mas a lógica mudou. Antes, o contrato com um patrocinador se media em tempo de exposição, sobretudo mídia televisiva. Hoje, envolve criação de conteúdo, collabs, presença multiplataforma. O atleta virou produtor, virou criador. E a criatividade se tornou cláusula contratual.

A palavra burnout apareceu cedo na conversa e vale registrar isso. Não como drama, mas como sintoma de algo estrutural. Panda Boi, que está em transição de conteúdo infantil para finanças e negócios, foi direto: “Todo criador enfrenta isso ao menos uma vez. Não adianta

é assim que o conteúdo viral é feito: parte real, parte construído.

focar demais. Você tem que se renovar e seguir.“ Bob admitiu que passou dias sem postar e que simplesmente não pensa nisso com a frequência que deveria. Em um mundo onde a cadência de publicação virou métrica de relevância, esses dois nomes globais confessando que às vezes simplesmente param é, no mínimo, um dado para processarmos com calma.

> “As tendências mudaram. Antes, uma onda durava três ou quatro meses. Agora é: boom, boom, boom, boom. Muda a cada poucas horas.”

A reflexão sobre velocidade foi talvez o fio mais tenso do painel. Federico descreveu um mundo onde um adolescente de 12 anos, com um laptop e quarenta dólares, pode produzir algo equivalente a uma produção hollywoodiana. A IA como nivelador radical. Hollywood em apuros. E o conselho que ele daria hoje: “poste agora, senão pode ser tarde” carrega uma urgência que merece ser lida com cuidado. Porque há algo nessa equação que merece atenção. Quando tudo precisa ser acelerado, quando a produção vira imperativo constante, o que se perde no processo? A pergunta ficou implícita no ar, e talvez tenhamos de seguir buscando essa resposta.

As tendências mudaram. Antes, uma onda durava três ou quatro meses. Agora é: boom, boom, boom, boom. Muda a cada poucas horas.

Bob trouxe equilíbrio a essa narrativa. Gestor de risco por formação, ele descreveu a IA como ferramenta de liberação, algo que faz o trabalho operacional para que sobre tempo para o que importa: parar, respirar, celebrar o que foi feito antes de correr para o próximo.

> “A gente tem essa ferramenta incrível que nos dá velocidade. Mas se não pausarmos para celebrar, você passa a semana inteira sem perceber o que aconteceu.”

Entre os dois, Ravache costurou as pontas com perguntas precisas sobre identidade, sobre escolhas de carreira, sobre o que significa viver em trânsito permanente. E o painel terminou onde deveria terminar: não com uma fórmula, mas com uma pergunta aberta sobre como se manter aprendendo em um mundo que exige atenção constante e oferece cada vez menos espaço para a pausa.

✦ Aprendizados que ficam
  • A autenticidade no conteúdo digital é, em grande parte, construída e os melhores criadores sabem disso. A questão para marcas não é imitar espontaneidade, mas entender qual é a versão mais verdadeira e estratégica do que têm a dizer.
  • A janela para entrar no jogo de conteúdo está se fechando em velocidade crescente. Mas a urgência de postar não pode substituir a clareza sobre por quê postar. Criadores que duram são os que se reinventam com propósito, não só com frequência.
  • A IA está redistribuindo poder criativo em escala global. Para líderes, o movimento inteligente não é reagir à velocidade, é usar as ferramentas disponíveis para criar espaço de reflexão, não apenas de produção.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 42 · MarketingSummit · CreatorEconomy · DigitalTransformation · Media
🫂 Comunidade

De influenciadores a impérios de mídia: por que os criadores estão se tornando os novos estúdios de entretenimento

Patricia Muratori
Patricia MuratoriManaging Director, América Latina · YouTube
Igor Coelho
Igor Coelho (Igor 3K)Creator · Flow Podcast

Os criadores não têm apenas audiência. Eles têm comunidade, fãs e clientes.

Foi com essa provocação que Patricia Muratori, Managing Director do YouTube para a América Latina, abriu uma das conversas mais relevantes do Web Summit Rio 2026. Ao lado de Igor Coelho, o Igor 3K, criador e apresentador do Flow Podcast, ela discutiu como os criadores de conteúdo estão deixando de ser apenas personalidades da internet para se tornarem verdadeiras empresas de mídia, moldando cultura, comportamento e negócios em escala.

A transformação é profunda. O que antes era uma plataforma de compartilhamento de vídeos tornou-se um ecossistema capaz de criar carreiras, marcas, produtos e negócios inteiros. Segundo Patricia, os criadores deixaram de ser apenas produtores de conteúdo para se tornarem empreendedores criativos, construindo comunidades altamente engajadas e relações de confiança que muitas empresas tradicionais ainda lutam para estabelecer.

E confiança talvez seja a palavra mais importante dessa nova economia.

Uma pesquisa citada durante a apresentação mostrou que 86% da Geração Z no Brasil considera o YouTube a plataforma com os criadores mais confiáveis. Em um ambiente digital cada vez mais saturado de estímulos e informações, a confiança tornou-se o principal ativo competitivo.

Essa mudança ajuda a explicar por que criadores estão migrando para territórios antes dominados por grandes estúdios. Hoje, programas originados no YouTube chegam à televisão, criadores lançam produtos próprios, constroem empresas e transformam paixões de nicho em negócios multimilionários.

“O criador virou um negócio muito maior do que o próprio canal”, resumiu Patricia.

Mas a visão mais provocadora veio de Igor 3K.

Para ele, o mercado brasileiro ainda está apenas começando a entender o potencial da Creator Economy.

“O que a gente chama de Creator Economy no Brasil ainda é um embrião.”

Segundo Igor, muitas marcas continuam enxergando criadores apenas como mídia ou alcance, quando deveriam vê-los como parceiros estratégicos capazes de interpretar comunidades, hábitos e contextos de consumo de uma forma que nenhuma campanha tradicional consegue reproduzir.

O fundador do Flow foi enfático ao explicar por que muitas ações de marketing falham quando tentam simplesmente transplantar para o ambiente digital a lógica da publicidade tradicional.

“Não é porque uma campanha funciona na TV que ela vai funcionar na internet.”

A crítica vai além do formato. Ela questiona a própria lógica de comunicação. Enquanto campanhas tradicionais são construídas para grandes audiências, criadores entendem profundamente quem está do outro lado da tela, quando aquela pessoa assiste, como consome conteúdo e em quais momentos está mais receptiva a uma mensagem.

O criador virou um negócio muito maior do que o próprio canal

Essa capacidade de leitura comportamental talvez seja uma das maiores vantagens competitivas da nova mídia.

Igor compartilhou um exemplo interessante sobre o próprio Flow. Segundo ele, inserir uma marca nos três primeiros minutos de uma entrevista pode não gerar resultado porque boa parte da audiência simplesmente pula esse trecho. O sucesso está menos na exposição e mais na integração natural da mensagem ao contexto.

“Não é a marca que vai saber a melhor forma de encaixar a mensagem. Esse é o trabalho do criador.”

A conversa também trouxe um alerta importante para empresas e executivos: os hábitos de consumo mudam mais rápido do que as organizações conseguem acompanhar.

Vídeos verticais impactaram podcasts. Podcasts influenciaram vídeos longos. O consumo migrou do celular para a televisão conectada. E, ao mesmo tempo, tudo continua acontecendo em múltiplas telas.

Patricia revelou um dado que ajuda a entender essa transformação: 55% dos usuários estão assistindo mais vídeos do YouTube Shorts pela TV em comparação ao ano anterior.

O fenômeno parece contraditório. Conteúdo vertical sendo consumido na maior tela da casa. Mas é justamente essa quebra de paradigmas que define a nova era da mídia.

O YouTube, segundo ela, tornou-se uma plataforma onde coexistem vídeos curtos, lives, podcasts, TV conectada, conteúdo educacional, entretenimento e comércio, tudo dentro de um único ecossistema.

Para os criadores, isso significa oportunidades inéditas de monetização. Para as marcas, significa que compreender a jornada do consumidor ficou exponencialmente mais complexo.

Outro ponto relevante foi a discussão sobre relevância.

O que a gente chama de Creator Economy no Brasil ainda é um embrião.

Igor lembrou que manter-se relevante na internet não é um estado permanente, mas um exercício contínuo de adaptação.

“Se manter relevante é um trabalho diário. Não existe chegar lá.”

A frase resume uma das maiores lições da Creator Economy. Diferentemente da mídia tradicional, onde relevância era construída ao longo de décadas, no ambiente digital ela precisa ser reconquistada diariamente.

No fundo, a conversa entre Patricia e Igor mostrou que estamos assistindo ao nascimento de uma nova indústria do entretenimento.

Uma indústria em que os criadores não competem apenas por audiência, mas por atenção, confiança, comunidade e capacidade de gerar impacto real na vida das pessoas.

Mais do que influenciadores, eles estão se tornando plataformas.

Mais do que celebridades, estão se tornando empresas.

Mais do que canais, estão se tornando estúdios.

✦ Aprendizados que ficam
  • Confiança tornou-se o ativo mais valioso da economia digital, e os criadores estão conquistando níveis de credibilidade que muitas marcas tradicionais não conseguem alcançar.
  • Creator Economy não é mídia de influência. É construção de comunidade, relacionamento e negócios sustentáveis baseados em afinidade e relevância.
  • O comportamento do consumidor muda mais rápido do que os modelos tradicionais de marketing. Entender hábitos de consumo passou a ser tão importante quanto criar conteúdo. A pergunta que fica para líderes e empresas é simples: sua marca ainda está comprando audiência ou já começou a construir comunidades?
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
21 anos de YouTube em 2025.
86% da Geração Z brasileira considera o YouTube a plataforma com os criadores mais confiáveis.
55% dos usuários estão assistindo mais vídeos do YouTube Shorts pela TV em comparação ao ano anterior.
Mais de US$ 100 bilhões foram distribuídos pelo YouTube para criadores e parceiros nos últimos quatro anos.
O YouTube oferece mais de 10 formas diferentes de monetização para criadores.
O mercado brasileiro de Creator Economy ainda é considerado embrionário quando comparado aos Estados Unidos, que possui aproximadamente uma década de vantagem em maturidade do setor.
Pela primeira vez em 44 anos, uma plataforma gratuita transmitiu 100% dos jogos da Copa do Mundo de Clubes, segundo dados apresentados pelo YouTube.
ARTIGO 43 · CommerceSummit · Fashion · CreatorEconomy · Retail
🫂 Comunidade

Quando influência vira negócio: a nova moda brasileira nasce da curadoria, da tecnologia e da comunidade

João Almendra
João AlmendraCEO · Icomm Group
Caroline Celico
Caroline CelicoFundadora · NIINI

Eu acredito muito em ouvir. Quando a gente está perto do cliente, consegue criar um produto muito melhor.

O Brasil sempre teve criatividade de sobra na moda. O que faltava era transformar talento em negócio escalável.

Essa foi a grande provocação do painel “Influence. Curation. Commerce”, mediado por Maria Prata, com João Almendra, CEO do Icomm Group, holding por trás de Shop2gether e OQVestir, e Caroline Celico, fundadora da NIINI.

A conversa mostrou que a moda brasileira vive um novo momento. Não basta criar bons produtos. É preciso construir desejo, operar com eficiência, entender dados, conversar com comunidades e preservar identidade em um mercado cada vez mais veloz.

Caroline trouxe uma visão clara sobre o papel da fundadora em uma marca contemporânea. Ela é criadora, empreendedora, rosto da marca e também escuta ativa da comunidade.

“Eu acredito muito em ouvir. Quando a gente está perto do cliente, consegue criar um produto muito melhor.”

Na NIINI, essa proximidade aparece na forma como a marca observa o corpo, o estilo de vida, o conforto e o desejo das consumidoras. Comentários, directs, conversas na loja e experiências reais de compra viram insumos para criação.

Para CEOs, esse é um ponto essencial: influência deixou de ser apenas comunicação. Quando bem estruturada, vira inteligência de produto.

João Almendra trouxe a perspectiva da plataforma. À frente do Icomm Group, ele mostrou como Shop2gether e OQVestir ajudam marcas brasileiras a se estruturar, combinando curadoria, tecnologia, dados, operação e distribuição.

Moda não é só a moda legal. É a moda que está na rua.

Desde 2018, o grupo desenvolve programas de apoio a novos talentos da moda brasileira, oferecendo exposição, orientação comercial, compra de coleção e acesso a uma plataforma consolidada. Para jovens designers, esse tipo de infraestrutura pode ser decisivo.

No Brasil, muitas marcas nascem com enorme força criativa, mas enfrentam dificuldades para escalar, produzir, vender, entregar e se posicionar. O desafio, como ficou claro no painel, é transformar talento em sistema.

A conversa também abordou a tensão entre dados e criatividade. O e-commerce oferece informações valiosas sobre comportamento, categorias, produtos e adesão comercial. Mas dados não podem substituir sensibilidade.

“Moda não é só a moda legal. É a moda que está na rua.”

A frase revela uma verdade importante: antecipar tendências é relevante, mas entender o que já está ganhando vida no comportamento das pessoas é ainda mais estratégico.

Caroline reforçou que nem toda tendência deve ser adotada.

Você pode acatar ou não uma tendência. Ela precisa conversar com o DNA da marca.

“Você pode acatar ou não uma tendência. Ela precisa conversar com o DNA da marca.”

Em um mundo onde tudo viraliza rápido, marcas correm o risco de perder identidade tentando acompanhar cada movimento. A curadoria funciona como filtro: separa o que é ruído do que pode gerar valor.

A experiência física também apareceu como peça-chave. Na loja, a cliente toca o tecido, prova a roupa, percebe o caimento, sente o acabamento e vive a atmosfera da marca. Em tempos de digitalização intensa, o ponto físico deixa de ser apenas canal de venda e passa a ser espaço sensorial de construção de marca.

No fundo, o painel mostrou que o futuro da moda brasileira está na integração de mundos que antes pareciam separados: influência e operação, criatividade e dados, curadoria e escala, loja física e digital, fundadora e comunidade.

Para CEOs, a mensagem é clara: marcas fortes não nascem apenas de boas ideias. Elas nascem da capacidade de transformar desejo em sistema.

✦ Aprendizados que ficam
  • Influência só vira negócio quando existe estrutura: comunidade, produto, operação, tecnologia e distribuição precisam caminhar juntos.
  • Dados ajudam a vender melhor, mas a curadoria humana continua essencial para preservar desejo, identidade e diferenciação.
  • Marcas relevantes sabem ouvir o cliente sem perder o próprio DNA. Tendência só gera valor quando conversa com a essência da marca. A pergunta que fica é: sua empresa está apenas seguindo tendências ou está construindo uma curadoria capaz de transformar desejo em crescimento sustentável?
◈ Curadoria FFX
Mariana Carvalho
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Desde 2018, o Icomm Group desenvolve programas de apoio a novos talentos da moda brasileira.
Shop2gether e OQVestir fazem parte do Icomm Group.
A NIINI tem cerca de quatro anos de trajetória.
Maria Prata foi reconhecida pela The Business of Fashion como uma das 500 pessoas mais influentes da moda mundial.
A conversa destacou o uso de dados de compra, comportamento, categoria e adesão de produto para orientar curadoria e decisões comerciais.
ARTIGO 44 · MarketingSummit · CreatorEconomy · Storytelling · IA
🫂 Comunidade

Andaimes, não roteiros: o erro que faz marcas desperdiçarem os creators que contratam

Jay Richards
Jay RichardsManaging Director · Disrupt

Se você quebra o mundo do creator, você perde a mágica.

Foi com essa frase que Jay Richards resumiu, no palco do Web Summit Rio, o erro silencioso que custa caro a marcas que investem milhões em influência e recebem de volta um conteúdo que ninguém lembra no dia seguinte.

Managing Director da Disrupt, agência global e premiada de marketing de influência conhecida por entregar o que ela chama de “influência genuína”, Richards passou os últimos anos estudando por que tanta marca acerta o investimento e erra a execução. Sua tese para o C-level é desconfortável: o problema não são os creators, é a forma como as marcas os tratam.

A fogueira moderna virou uma fábrica de cópias Contar histórias é a tecnologia de sobrevivência mais antiga da humanidade, lembrou Richards: seres humanos sentados ao redor do fogo, tentando dar sentido ao mundo juntos. A internet prometeu transformar isso num renascimento criativo, qualquer pessoa com um celular ganharia um palco. Mas a promessa desandou. “Por que cada peça de conteúdo parece exatamente igual?”, provocou. A resposta está nos “quatro ou cinco templates” que dominam os feeds. As plataformas, segundo ele, dizem ao creator “cale a boca e sente”, siga o modelo e você será pago. O recipiente que segurava nossas histórias colapsou, e por isso tudo virou déjà-vu.

Por que cada peça de conteúdo parece exatamente igual?

Creators são construtores de mundos, não figurantes O valor real de um creator não está em “postar”. Está em construir mundos, estéticas e narrativas próprias, algo que nenhuma outra peça de mídia entrega. O problema, diz Richards, é que a maioria dos briefings trata o creator como peça de uma linha de produção de cinema: faça isso, diga aquilo, não diga isso. São, nas palavras dele, “obrigações disfarçadas de direção”. O resultado é o conteúdo morno e repetível que o público aprendeu a ignorar, em parte porque sabe que aquilo foi pago. Ao engessar o creator, a marca sobrescreve justamente a habilidade pela qual o contratou.

Andaimes, não roteiros A solução não é abolir o briefing, é repensá-lo. Richards propõe a metáfora do andaime: uma estrutura que existe para que se possa construir algo com altura. O andaime é a

grande ideia que a marca ou agência fornece; dentro dele, o creator ergue o próprio mundo e conta a própria história. A marca entrega o esqueleto estratégico, o creator preenche com humanidade. É assim, resume ele, que a Disrupt opera: “nós desenhamos o briefing, os creators dão vida e a audiência transforma em cultura.” Essa influência genuína se apoia em três verdades, humanidade, memória e engenhosidade, e a do meio tem dado material: um estudo da IPG mostra que conteúdo de marca feito por um creator pode viver na memória do público por até dois anos.

que dominam os feeds. As plataformas, segundo ele, dizem ao creator

Análise: para onde o jogo está indo Estamos entrando na era do “sintético em tudo”, conteúdo automatizado e otimização infinita. Quanto mais a IA democratiza a produção, mais o conteúdo converge para a média e mais o feed vira repetição. Nesse cenário, a humanidade genuína deixa de ser um valor abstrato e se torna a única vantagem competitiva realmente defensável, e os creators são os únicos capazes de entregá-la em escala. Para o C-level, isso reposiciona o creator: de canal de distribuição barato a ativo de diferenciação. A escolha entre roteiro e andaime deixa de ser estética e passa a ser estratégica.

✦ Aprendizados que ficam
  • Pare de tratar briefing como roteiro. Mandatórios disfarçados de direção só produzem mais do mesmo; ofereça o andaime, a grande ideia, e deixe o creator construir o mundo dele dentro dela.
  • Contrate creators pelo que só eles fazem: construir mundos. Se você quebra esse mundo para encaixar o seu script, perde exatamente aquilo que pagou para ter.
  • Na era do sintético, humanidade é a vantagem competitiva. Conteúdo genuíno fica na memória; padrões otimizados somem no scroll seguinte.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Estudo da IPG: o conteúdo de marca publicado por um creator pode permanecer na memória do público por até 2 anos após a publicação.
Existem milhares de agências disponíveis apenas para “postar” nas redes, bem poucas para construir mundos.
3 verdades sustentam a influência genuína: humanidade, memória e engenhosidade.
ARTIGO 45 · MarketingSummit · AI · SEO · GEO
🔥 Destaque

O clique morreu, mas a sua receita não precisa morrer junto

Neil Patel
Neil PatelCofundador · NP Digital

Como você atribui essa venda? É por isso que você precisa estar em todos os lugares.

São mais de 50 bilhões de buscas por dia no mundo e, mesmo assim, o tráfego do seu site está caindo. Não é contradição: é a nova regra do jogo. Foi com esse paradoxo que Neil Patel desmontou, diante de uma plateia lotada, quase tudo o que os times de marketing aprenderam a chamar de sucesso na última década.

Cofundador da NP Digital, agência global presente em mais de 28 países, Patel é apontado pelo The Wall Street Journal como um dos maiores influenciadores da web e pela Forbes como um dos 10 melhores profissionais de marketing do mundo. Sua leitura vem de dados de empresas de todos os portes, de gigantes de capital aberto a marcas em estágio inicial, e a mensagem central foi direta: a busca não encolheu, ela explodiu, mas o clique deixou de ser o sinal confiável que sustentava as estratégias.

O ponto de partida é desconfortável para quem ainda mede sucesso por visitas. Cerca de 4 em cada 10 buscas já não terminam em clique. As pessoas obtêm a resposta direto no Instagram, no YouTube, no ChatGPT ou nos AI Overviews do Google, sem nunca chegar ao seu site. “A busca ficou maior, não menor”, resumiu Patel, e o erro estratégico é confundir queda de tráfego com queda de demanda.

A consequência é que o público não tem mais um buscador padrão. Uns perguntam ao Google, outros à IA, e há quem nunca pesquise, decidindo apenas com base no que amigos e familiares recomendam. Isso obriga as marcas a abandonar a obsessão com o ranqueamento no Google e adotar o que ele chama de Search Everywhere Optimization, a otimização para todas as plataformas onde a busca acontece ao mesmo tempo.

E ninguém compra com um clique. Patel mostrou que são necessários, em média, 11 pontos de contato, seja em B2B ou B2C, até alguém decidir comprar. A jornada real é fragmentada: o consumidor descobre o produto no Instagram, tira dúvida no ChatGPT, lê avaliações no Reddit, assina a newsletter no site, reencontra a marca no YouTube, ouve a indicação de um amigo e, no fim, fecha a compra no Mercado Livre. “Como você atribui essa venda? É por isso que você precisa estar em todos os lugares.”

Se você não está no topo, é quase como se não existisse.

A IA também reescreveu o sistema de ranqueamento. A busca por voz se espalhou de casa aos carros, da geração mais velha à mais nova, e as consultas ficaram mais longas e conversacionais. Em vez de “tênis barato”, o usuário digita algo como “tênis para corrida

abaixo de 100 reais que funcione para quem tem pé chato“. Nesse cenário, o jogo deixa de ser ganhar cliques e passa a ser conquistar citações: fazer com que os modelos de IA mencionem, recomendem e linkem a sua marca. Os fatores que mais pesam, segundo ele, são o frescor do conteúdo, uma estrutura fácil de escanear e clareza na escrita.

E é aqui que mora a virada de chave para quem decide orçamento. O tráfego de IA ainda representa menos de 1% do total, mas já responde por cerca de 5% da receita, com clientes de maior valor vitalício. Mais do que isso, converte a cerca de 9%, aproximadamente o triplo da busca paga, ficando atrás apenas de SMS e e-mail. São visitantes que engajam mais, permanecem cerca de 30 segundos a mais e formam um tráfego cerca de 33% mais “grudento”.

Patel também derruba uma suposição comum: o segundo maior buscador de IA não é o Gemini, e sim o Meta AI, com mais de 1 bilhão de usuários por mês, ainda quase ignorado pelos profissionais de marketing. E avisa que cada plataforma tem um comprador diferente. O Google é alta pesquisa com cliques em queda; as plataformas de IA são recomendação direta e alta confiança; redes sociais e vídeo são descoberta de baixa intenção; e o comércio é alta intenção, onde reviews e dados estruturados decidem a venda.

Pare de medir cliques e comece a medir influência.

O playbook para o mundo pós-clique tem um princípio que muda tudo: pare de mirar no ranking e mire em ser a resposta recomendada. Diferentemente dos dez links azuis do Google, nas plataformas de IA quem está no topo leva quase toda a receita. “Se você não está no topo, é quase como se não existisse.” Na prática, isso significa atualizar com frequência as páginas de maior tráfego, usar títulos e bullets que facilitem o skim, adicionar dados estruturados a produtos e serviços, otimizar imagens e descrições e construir menções de marca pela web.

Para fechar, ele propôs uma troca de métrica e de mentalidade: “Pare de medir cliques e comece a medir influência.” Saem de cena apenas sessões e ranqueamento; entram menções, citações, receita incremental, share of voice, velocidade de pipeline, CAC ajustado à margem e, sobretudo, sentimento, porque ser citado de forma negativa machuca a reputação e a venda. O caminho é simples e disciplinado: auditar onde o público realmente descobre produtos, priorizar duas ou três plataformas e medir resultados reais antes de expandir.

A análise de Patel reflete uma mudança estrutural que CEOs não podem terceirizar para o time de marketing: a competição saiu da página de resultados e migrou para a confiança que máquinas e algoritmos depositam na sua marca. O dado mais estratégico de toda a apresentação talvez seja geográfico. Nos Estados Unidos e na Europa, as empresas já disputam ferozmente por citações em LLMs. No Brasil e na América Latina, quase ninguém faz isso ainda, e essa janela vai fechar em cerca de um ano. “Sua vantagem para vencer outras empresas é começar agora, não esperar.”

✦ Aprendizados que ficam
  • Tráfego em queda não é demanda em queda. A jornada de compra virou multiplataforma e exige presença em todos os pontos de contato, não apenas no topo do Google.
  • O novo objetivo é ser recomendado, não ranqueado. Nas plataformas de IA quem lidera leva quase toda a receita, então a disciplina passa a ser conteúdo fresco, escaneável, com dados estruturados e menções de marca.
  • Existe uma janela competitiva aberta no Brasil. Enquanto os concorrentes locais ainda não otimizam para IA, começar agora é uma vantagem que tende a desaparecer dentro de um ano.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Mais de 50 bilhões de buscas por dia no mundo. Google com cerca de 13,7 bilhões dessas buscas, aproximadamente 27% do mercado. Instagram com 6,5 bilhões de buscas por dia. YouTube com 3,3 bilhões por dia. ChatGPT com mais de 1 bilhão de buscas por dia.
Cerca de 4 em cada 10 buscas não geram clique. Em média, 11 pontos de contato até a decisão de compra, tanto em B2B quanto em B2C.
Tráfego de IA representando menos de 1% do total, mas gerando cerca de 5% da receita. Taxa de conversão do tráfego de IA em torno de 9%, cerca de 3 vezes maior que a da busca paga, atrás apenas de SMS e e-mail.
Engajamento do tráfego de IA em 72,5%. Visitantes permanecendo cerca de 30 segundos a mais, o equivalente a um tráfego cerca de 33% mais “grudento”.
ChatGPT como buscador de IA número 1. Meta AI em segundo lugar, com mais de 1 bilhão de usuários por mês. Gemini com cerca de 750 milhões de usuários.
ARTIGO 46 · MarketingSummit · AI · GEO · SEO
🔥 Destaque

Quando ninguém mais clica: o playbook da Nuvemshop para ser encontrada pela IA

Bernardo Brandão
Bernardo BrandãoCMO · Nuvemshop

O cliente não está mais gritando, ele está basicamente conversando.

Quando foi a última vez que você clicou no primeiro link do Google? Numa plateia lotada no Web Summit Rio, pouquíssimas mãos subiram, e foi exatamente esse o ponto de partida de Bernardo Brandão, CMO da Nuvemshop, a maior plataforma de e-commerce da América Latina, com mais de 180 mil marcas usando seu ecossistema de produtos, pagamentos, logística e IA.

A provocação não era retórica. Hoje, mais de 65% das buscas no Google terminam sem nenhum clique, e quase 100% das buscas informacionais já disparam o AI Overview, o modo em que a própria IA responde antes que qualquer link azul tenha chance de aparecer. Para quem construiu duas décadas de estratégia em torno do clique, é o chão saindo debaixo dos pés.

O clique deixou de ser o evento principal O impacto não é teórico, e a Nuvemshop colocou os próprios números na mesa: o tráfego orgânico do blog caiu cerca de 60% entre agosto de 2025 e abril de 2026. Não foi um caso isolado. A HubSpot, referência mundial em inbound marketing, perdeu 50% entre novembro de 24 e março de 25; a Zapier, mais de 60% no mesmo tipo de janela. O denominador comum é o rollout do AI Overview, que substituiu os links azuis pela resposta gerada direto na busca.

Mas a leitura mais importante de Brandão foi outra: o público não parou de buscar, ele apenas mudou de porta de entrada. “O tráfego não sumiu. Ele, na verdade, migrou”, resumiu. A prova está na própria base da Nuvemshop: o tráfego vindo de LLMs para os lojistas cresceu 35 vezes em 18 meses. O ChatGPT, com cerca de 76% de share e perto de 1 bilhão de usuários, puxa essa fila, e leva junto as fontes que ele cita, como Reddit (alta de mais de 78% no ano) e YouTube (quase dobrou). A frase que sintetiza a virada de comportamento: “O cliente não está mais gritando, ele está basicamente conversando.”

Ter uma marca forte na sua categoria é o maior preditor de você aparecer nos LLMs.

Do SEO ao GEO: o que mudou nas regras do jogo A transição de SEO para GEO reescreve os fundamentos: o backlink dá lugar à menção, a repetição de palavra-chave dá lugar à profundidade semântica, e o esquema que “enfeitava” o link agora serve para a IA entender quem você é, em que categoria atua e para quem. Entram em cena KPIs como AI Visibility Score e Share of Voice, sempre por

plataforma, já que cada uma puxa fontes diferentes, ChatGPT favorece Wikipédia e grandes portais; Google e Gemini referenciam Reddit, YouTube e LinkedIn; Perplexity prioriza pesquisa proprietária. Mas o alicerce não mudou: “Ter uma marca forte na sua categoria é o maior preditor de você aparecer nos LLMs.”

O caso Nuvemshop: o playbook que reverteu a queda Diante da queda, a Nuvemshop não esperou e estruturou um playbook que recuperou, e superou, sua visibilidade. A primeira frente foi reotimizar o search para o AI Overview: recategorização do blog, atualização recorrente da biblioteca de posts (o refresh date pesa muito na citação) e reescrita de títulos e snippets. A segunda foi construir presença em fontes que a IA cita, criação e atualização de Wikipédia e uma comunidade própria no Reddit, hoje com mais de 7 mil membros. A terceira foi um snippet que abre a conversa diretamente dentro do LLM, levando o conteúdo da marca para dentro da resposta. A quarta uniu brand semantics a dados proprietários: nasceu o Radar D2C, um portal de dados sobre vendas online desenhado para ser citado por LLMs e gerar oportunidades de mídia a partir dos mais de 100 mil lojistas.

Os resultados são o argumento mais forte do caso. Um grupo de palavras estratégicas no Top 3 do Google saltou de 4% para 71%; uma busca-chave como “como criar um site de vendas” subiu da posição média 6 para o Top 3. O tráfego do blog voltou a crescer 57% após o update de dezembro de 25, e os conteúdos já somam mais de 32 mil menções rastreadas em LLMs. Não por acaso: marcas citadas nas respostas de IA registram cerca de 35% mais CTR do que as não citadas.

Análise: para onde o jogo está indo O que a Nuvemshop ilustra é a maior reordenação da descoberta digital em 20 anos. A vantagem competitiva sai do ranking de links e migra para a forma como a máquina entende e descreve a sua marca, o que transforma PR digital, comunidade e pesquisa proprietária de “nice to have” em motores de crescimento. Quem tem uma base sólida de SEO larga na frente, porque esse trabalho se converte em posicionamento nos LLMs; mas quem insiste em medir apenas tráfego e CTR vai operar no escuro. Para o C-level, o recado é direto: pare de otimizar para o clique e comece a engenheirar como a IA cita e contextualiza a sua marca, antes que o concorrente ocupe esse espaço na resposta.

✦ Aprendizados que ficam
  • O clique deixou de ser a métrica central. Reorganize a estratégia em torno de menções, não de links: sua marca precisa ser citada e descrita corretamente onde a IA busca.
  • SEO não acabou, virou alicerce do GEO. Profundidade semântica, dados estruturados e uma marca forte na categoria são os maiores preditores de aparecer nas respostas de IA.
  • Meça e construa o que importa agora. Acompanhe AI Visibility Score e Share of Voice por plataforma e crie ativos próprios, comunidade, Wikipédia, pesquisa original, que a IA possa citar. Os 5 princípios de Brandão para a era do zero-click:
  • Não basta só olhar tráfego, comece a medir visibilidade. AI Visibility Score e Share of Voice em LLMs são os novos KPIs orgânicos.
  • Marca pesa mais que conteúdo. Branded mentions são o novo backlink: invista em PR, eventos e comunidades.
  • Crie dados próprios. Pesquisas, benchmarks e estudos originais geram citações automáticas.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Mais de 65% das buscas no Google terminam sem clique.
Quase 100% das buscas informacionais já disparam o AI Overview.
Tráfego orgânico do blog da Nuvemshop caiu cerca de 60% entre agosto de 2025 e abril de 2026.
HubSpot: queda de 50% (nov/24 a mar/25). Zapier: queda de mais de 60% (jun/25 a mar/26).
Tráfego de LLMs para os lojistas da Nuvemshop cresceu 35x em 18 meses.
ChatGPT: cerca de 76% de share entre os LLMs e perto de 1 bilhão de usuários.
Reddit cresceu mais de 78% ano contra ano; YouTube quase dobrou.
Marcas citadas em respostas de IA têm cerca de 35% mais CTR que marcas não citadas.
Grupo de palavras estratégicas no Top 3 do Google: de 4% para 71%.
Tráfego do blog cresceu 57% após o update de dezembro de 2025.
Mais de 32 mil menções dos conteúdos do blog em LLMs.
Comunidade no Reddit: mais de 7 mil membros.
ARTIGO 47 · CommerceSummit · AI · ConsumerBehavior · BrandExperience
🛒 Comércio

A volta da fricção: como se diferenciar com o sentimento numa era em que tudo pode ser otimizado

Daniela Dantas
Daniela DantasGlobal Chief Customer Officer · WGSN

As tecnologias mais humanas não são aquelas que eliminam todo o esforço, mas as que fazem o esforço valer a pena.

A frase, lançada por Daniela Dantas no palco do Web Summit Rio, resume a virada que pauta sua leitura de mercado: depois de anos perseguindo o “sem fricção”, as marcas mais inteligentes começam a fazer o caminho inverso, de propósito, porque o consumidor não está mais buscando conveniência, está buscando conexão.

Global Chief Customer Officer da WGSN, autoridade global em previsão de tendências de consumo, Daniela partiu de um incômodo simples: quando tudo pode ser otimizado e vendido como eficiente, a eficiência deixa de ser especial. “O sistema não para, ele continua, mas ele muda de sentido.” O mesmo, segundo ela, aconteceu com a descoberta. Até os anos 90 descobríamos as coisas vivendo; depois passamos a escolher pelo digital; em seguida o algoritmo passou a escolher por nós. Agora, com o comércio agêntico, o agente “não só está escolhendo, como recomendando para você”.

A pergunta que organiza toda a palestra nasce daí: se tudo é otimizado, até a sua escolha, o que de fato é percebido como humano? E foi para respondê-la, de forma prática, que Daniela fechou com quatro não negociáveis, as estratégias que as marcas precisam embutir na sua construção a partir de agora.

1. Infraestrutura da confiança: calma como valor, humanos na linha de frente

Vivemos no limite da estimulação, e o consumidor pressionado se silencia e depois se retira. Num mercado obcecado por conversão, consumidor em retirada é o pior cenário. A resposta é transformar a pausa em ativo: “calma como um sinal de luxo, pausa como um sinal de algo especial”. Quem consegue fazer alguém parar sinaliza valor.

O exemplo mais claro é a iHeartMedia, um dos maiores conglomerados de mídia dos EUA, que proibiu o uso de IA para clonar vozes em sua produção, criando a assinatura “humano garantido”. O recado ao ouvinte é quase terapêutico: existe uma pessoa real ali, eu não

estou sendo enganado. Numa era em que a IA projeta perfeições que não existem, ter um humano na linha de frente virou infraestrutura de confiança, não enfeite.

2. Agency & guidance: fricção intencional como estratégia

O sistema não para, ele continua, mas ele muda de sentido.

Aqui mora a tese central. A fricção que volta não é o atrito acidental do passado, é a deliberada. “Aqui eu preciso colocar algo que vai deixar a experiência menos fácil, porque isso mostra que ela importa.” Daniela usou uma analogia certeira: ninguém quer um relacionamento sem esforço, porque é no escutar, no olhar e no tocar que mora a parte humana. “Não é um anti-AI, é o que vem depois. É a consequência.”

Na prática, isso significa vídeos de campanha mais longos e experiências que não precisam ser fáceis de entender. “Eu só quero que a pessoa certa entenda”, assumindo que a obsessão por facilitar tudo foi exatamente o que esvaziou o significado. A própria WGSN aponta um triângulo de fricção em três frentes, emocional, física e intelectual, para mapear marcas que já desenham esse atrito de propósito. A lógica vale até para o luxo: comprar uma bolsa Hermès é deliberadamente difícil, e é esse processo de reflexão que carrega valor. Quanto mais esforço, mais aquilo importa. “Não é todo mundo que se relaciona, mas para quem faz sentido, faz.”

3. Assinatura & atmosfera: território emocional próprio nos pontos de contato

Se a IA já reproduz quase qualquer imagem numa tela, o maior sinal de que algo é real volta a ser físico. “Aquilo que você pode tocar talvez hoje seja a única coisa que de fato comprova que é real.” O tato mostra que é real, o cheiro ativa a memória, o gosto conecta com o momento, e é isso que sustenta a explosão de ativações sensoriais, o “atrito com intenção”.

A Miu Miu enviou um kit com areia cinética em que o consumidor precisava escavar com uma colher até encontrar o perfume. Feiras e lançamentos vêm sendo desenhados inteiramente para os sentidos, e há até protótipos que transformam cheiros em cores. A leitura para o C-level: quanto mais abstrato e indistinguível do real fica o digital, mais a atmosfera sensorial proprietária, aquela que só a sua marca entrega, vira terreno de diferenciação em cada ponto de contato.

4. Memória & monetização: criar para ser lembrado, não apenas visto

calma como um sinal de luxo, pausa como um sinal de algo especial

O quarto pilar é o mais desafiador para a sala de reunião. Fomos criados num mercado de alcance e conversão, métricas que seguem importantes, mas insuficientes. A nova pergunta: qual marca é capaz de ficar na cabeça do consumidor? Daniela aplica o teste ao próprio time: o sucesso não é a foto do slide, é a pessoa contar aquela história no jantar para o filho ou o colega. “É criar para ser lembrado, não mais para ser apenas visto.”

O obstáculo é que os sistemas de avaliação ainda premiam alcance e conversão, enquanto a memória opera no médio e longo prazo e é difícil de medir. Por isso a WGSN nomeia essa fronteira: MRM, ou Memory Recall Measure, a métrica de quantas pessoas de fato lembram da sua experiência. Casos como o da Liquid Death, marca de água de estética macabra e bem-humorada que lançou com o Spotify uma caixa de som para guardar cinzas,

mostram como humor e objeto físico geram lembrança. E o ponto final é de negócio: memória e monetização caminham 100% juntas.

A análise

O fio que costura os quatro pilares é uma mudança estrutural: a infraestrutura da confiança entre marcas e consumidores mudou, e os sentidos passaram a ser parte dela. A otimização virou commodity, base e contexto. O diferencial migrou para o terreno emocional. Daniela desarma o medo da IA com objetividade: a tecnologia veio para ficar e traz eficiência, “mas o que de fato vai fazer a diferença não é a inteligência artificial, é o que você faz aquela pessoa sentir”. Para o executivo que ainda mede sucesso só por alcance e conversão, fica o alerta de que a próxima disputa será num campo que a maioria dos dashboards atuais nem sabe rastrear.

✦ Aprendizados que ficam
  • Fricção intencional é estratégia, não erro. Calma, esforço e experiências que exigem atenção sinalizam valor; o que é fácil demais perdeu justamente o que o tornava memorável.
  • Os sentidos viraram infraestrutura de confiança. Num mundo de perfeições geradas por IA, o que se pode tocar, cheirar e sentir é o que prova ser real, e diferencia a marca nos pontos de contato.
  • Memória é a métrica que importa, e está colada à receita. Criar para ser lembrado exige novas formas de medição (como o MRM da WGSN), porque memória e monetização andam juntas.
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 48 · MarketingSummit · ComportamentoDoConsumidor · Tendências2026 · IA
🛒 Comércio

Gosto sem fronteiras, compra feita por IA e a nova torcida: as 4 tendências que estão reescrevendo o consumo

Grazi Sbardelotto
Grazi SbardelottoPartner & Co-CEO · Pmweb (grupo WPP)

Brasileiro tá na moda.

A frase soa como celebração, e é. Mas, no recorte que Grazi Sbardelotto trouxe ao palco, ela é também o primeiro sintoma de uma reorganização mais profunda: a forma como as marcas são descobertas, compradas e amadas está mudando ao mesmo tempo, em quatro frentes.

Partner e Co-CEO da Pmweb, empresa do grupo WPP, e com mais de 15 anos em marketing digital e CRM, Grazi não veio fazer um apanhado de tudo. Ela escolheu quatro tendências entre as cem do estudo The Future 100, e deixou as outras 96 como dever de casa para quem quiser se aprofundar.

A primeira é a criatividade sem fronteiras. A lógica de que tendência global mata o repertório local se inverteu: o “Brazilian Core” de marcas como Granado e Havaianas ganha o mundo justamente porque o consumidor passou a circular por todos os mercados. O dado que sustenta isso é desconfortável para quem ainda pensa local por inércia: 83% da geração Z dizem que seu gosto está ficando mais internacional, não por imposição, mas pelo acesso que têm a marcas e referências de qualquer lugar.

A segunda é a mais disruptiva para quem vende: o comércio entre agentes. A sopa de letrinhas conhecida, B2B, B2C, D2C, ganha um novo capítulo em que, nas palavras de Grazi, o ponto é “como a gente deixa o nosso agente comprar para nós”. A IA deixa de ser conselheira e passa a ser compradora. Mas aqui mora a oportunidade: espera-se que 40% das pessoas usem IA para considerar suas compras, enquanto apenas 25% deixarão a IA, de fato, decidir e executar. Há um abismo de confiança entre consultar e delegar, e é nesse abismo que as marcas vão disputar relevância.

A terceira é a nova onda do esporte fandom, o “kingdom do fã”, como ela definiu. O fã das novas gerações quer proximidade real com atletas e modalidades, e o movimento mais relevante é quem está chegando: na F1, 3 em cada 4 novos fãs são mulheres, e hoje elas já representam 47% dos fãs de esporte no mundo. Quem ainda desenha ativação esportiva para um público masculino padrão está mirando o fã de ontem.

A quarta é o storytelling universe. O consumidor não quer mais se relacionar com a marca que apenas fabrica uma necessidade de compra; ele quer uma marca com propósito, que ele possa “conhecer de forma mais profunda” e, nas palavras dela, “respirar”. O conteúdo transborda das redes sociais e do e-commerce para todos os pontos de contato da marca.

Vistas juntas, as quatro não são modismos isolados, são camadas de uma mesma mudança estrutural. A descoberta virou global e guiada por acesso. A compra está migrando para a mediação por máquina. A lealdade deixou de ser frequência e virou pertencimento. E o significado passou a ser pré-requisito, não enfeite. Para o executivo, o risco não é errar uma tendência: é tratar como campanha o que é, na verdade, uma reescrita das regras de relacionamento com o cliente.

✦ Aprendizados que ficam
  • O gosto do seu cliente é global por padrão, construa marca que viaja e que transforma identidade local em vantagem internacional, não em limite.
  • Prepare-se para a compra mediada por IA e ataque o gap de confiança, entre os 40% que consultam e os 25% que delegam está a sua próxima disputa por relevância.
  • Lealdade agora é pertencimento e história, invista em torcida e em propósito, não só em necessidade de compra, e desenhe o fandom para o público que está chegando, cada vez mais feminino. Estudo completo (The Future 100): https://marketing.pmweb.com.br/the-future-100-en
◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
4 tendências apresentadas de um total de 100 (estudo The Future 100)
83% da geração Z dizem que seu gosto está ficando mais internacional
40% das pessoas devem usar IA para considerar compras; apenas 25% deixarão a IA decidir e executar
Na F1, 3 em cada 4 novos fãs são mulheres. Mulheres já representam 47% dos fãs de esporte globalmente
ARTIGO 49 · CommerceSummit · LiveCommerce · SocialCommerce · Varejo#CommerceSummit
🛒 Comércio

Se abriu a loja, abriu a loja: por que o live commerce parou de ser ação pontual e virou canal de expansão

Gabriela Comazzetto
Gabriela ComazzettoFundadora · Play2Shop
Victoria Tomaz
Victoria TomazHead of Growth Marketing · ALLOS
Cris Dias
Cris DiasCEO · Ampère

Isso é um novo canal de negócio. As marcas têm que ter uma estratégia recorrente

Nenhum varejista abre a loja na segunda, fecha na terça, reabre na quinta e some no fim de semana. E, no entanto, é exatamente assim que a maioria das marcas trata seus canais sociais de venda: como um evento, um lançamento, uma “ação pontual”.

Para Gabriela Comazzetto, que liderou por cinco anos a operação do TikTok na América Latina antes de fundar a Play2Shop, esse é o erro que separa quem está construindo um negócio de quem está apenas fazendo marketing. Ao lado de Victoria Tomaz, diretora de marketing da ALLOS, ela usou o palco do Web Summit Rio para desmontar uma ideia confortável, a de que vender via TikTok, Kwai ou Instagram é algo que se faz “de vez em quando”, e propor algo mais exigente: encarar esses canais como parte da estratégia de expansão do negócio.

De campanha a canal: a virada de mentalidade A tese central da conversa é simples de enunciar e difícil de executar: live commerce não é uma campanha, é um canal. “Isso é um novo canal de negócio. As marcas têm que ter uma estratégia recorrente”, resumiu Gabriela.

O ponto que ela bate é o da continuidade. “No shopping, você não abre a loja na segunda, fecha terça, fecha quarta, aí abre quinta... Se abriu a loja, abriu a loja”, e a lógica vale igual para o digital. Abrir uma operação dentro do TikTok Shop ou do Kwai Shopping exige, nas palavras dela, “consistência, recorrência e frequência”.

Há ainda uma sutileza estratégica: cada plataforma é um canal com gramática própria. No TikTok, o consumidor está em busca de conteúdo; no Instagram, quer ver o que os amigos fazem. Reaproveitar o mesmo vídeo entre elas, segundo Gabriela, ignora que o que a pessoa busca em cada ambiente é diferente. Tratar o canal como canal significa também comunicar de forma distinta em cada um, e apostar em autenticidade, não no mundo perfeito que o consumidor deixou de querer.

O canal como motor de expansão (e não só de receita) O segundo aprendizado é o que dá força à mentalidade de canal: o live commerce não amplia só faturamento, amplia alcance. Ele quebra a barreira da geografia.

No shopping, você não abre a loja na segunda, fecha terça, fecha quarta, aí abre quinta... Se abriu a loja, abriu a loja

O caso mais eloquente veio de Salvador. Com um estúdio no Shopping da Bahia, Gabriela relatou que mais de 50% das vendas dos lojistas locais vão para fora de Salvador. “Não só é uma receita incremental, como é um público incremental”, clientes que um pequeno empreendedor, preso ao ponto físico, jamais alcançaria.

É também uma lição sobre métrica. Quando perguntam o que é uma live de sucesso, 50 mil pessoas? 100 mil?, a resposta dela é desmistificar o número. Um lojista que recebe 150 visitantes por dia na loja física pode reunir essas mesmas 150 pessoas nos primeiros cinco minutos de uma transmissão. O que levaria um dia inteiro acontece em minutos. O parâmetro deixa de ser audiência de show e passa a ser geração de negócio.

Testar, sem risco, e insistir Se a mentalidade é o destino, o caminho é mais prosaico: testar e insistir. Foi a mensagem final de ambas, e o eixo da parceria entre Play2Shop e ALLOS.

A estratégia da ALLOS foi atacar a barreira que mais trava o lojista, o custo. Victoria explicou que o estúdio dentro do shopping não tem custo nenhum para o lojista: ele agenda, usa o espaço, capacita a equipe de vendas e roda a live sem contratar estúdio nem creator. Eliminada a barreira de entrada, sobra espaço para o que o varejo já faz todo dia. “É testar e insistir, como todo negócio. O varejo já tem teste e insistência todo dia”, disse ela. A recorrência, não o teste isolado, é o que converte o experimento em canal.

Não só é uma receita incremental, como é um público incremental

Análise: para onde o jogo está indo O pano de fundo dá urgência ao recado. As plataformas estão embarcando comércio uma após a outra: o YouTube lançou sua ferramenta de shopping em outubro do ano passado, o Instagram acabou de lançar a sua, e o TikTok Shop deve transacionar R$39 bilhões no Brasil até 2028. Na China, que Gabriela aponta como prévia do nosso futuro, 65% do GMV do TikTok já passa por live commerce. A pergunta deixou de ser “se”, e virou “quando” e “quão bem”.

Mais profundo é o deslocamento de lógica que ela descreveu. A primeira mudança: “Não é mais sobre onde você quer vender, é sobre onde o consumidor quer comprar.” A segunda: “Não é mais sobre vender ou entreter. É sobre vender através do entretenimento.” E a terceira, ilustrada pelo acordo entre Magazine Luiza e Amazon, dois concorrentes que passam a colaborar, é a da coopetição: competir e colaborar ao mesmo tempo.

Para o C-level, a implicação é direta. O live commerce não é um item de portfólio de marketing a ser ligado em datas comemorativas; é infraestrutura de receita e de descoberta de marca que, bem operada, expande mercado para além do ponto físico. Quem o tratar como evento sazonal vai medir o canal pela régua errada e desligá-lo cedo demais. O fecho de Gabriela serve de bússola: a decisão não é “sim ou sim”, é “sim e sim”.

◈ Curadoria FFX
Natália Schifino
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
China: 65% do GMV do TikTok já vem de live commerce.
Shopping da Bahia (Salvador): mais de 50% das vendas dos lojistas locais vão para fora de Salvador.
150 pessoas em loja física por dia podem ser reunidas nos primeiros 5 minutos de uma live.
TikTok: 140 milhões de usuários no Brasil.
TikTok Shop: previsão de R$39 bilhões transacionados no Brasil até 2028.
YouTube Shopping: lançado em outubro do ano passado; Instagram Shopping recém-lançado.
ARTIGO 50 · AISummit · CommerceSummit · MarketingSummit · ConsumerBehavior
🛒 Comércio

Varejar é fazer parte da vida das pessoas

Camila Nunes
Camila NunesCMO · Amazon Brasil
Cecília Bottai Mondino
Cecília Bottai MondinoVP de Marketing · Heineken Brasil

Nós somos uma marca feita com os brasileiros para os brasileiros.

Essa frase de Camila Nunes, CMO da Amazon no Brasil, resume talvez o deslocamento mais significativo que grandes marcas globais estão operando em um país de dimensões continentais e comportamentos irredutíveis a qualquer playbook importado. Ao lado de Cecília Bottai Mondino, VP de Marketing da Heineken no Brasil, Camila abriu no palco do Web Summit Rio 26 um debate que vai muito além da dicotomia global versus local. O tema real é o que separa marcas que habitam o cotidiano das pessoas daquelas que apenas transitam por ele.

O Brasil não é só mercado. É laboratório.

Quando a Heineken chegou ao Brasil há mais de dez anos, trouxe consigo uma receita consagrada e um posicionamento que quebrava os códigos da cerveja nacional. A reação inicial foi de rejeição: os consumidores diziam que era pesada, que não funcionava para o paladar brasileiro. A empresa insistiu. Hoje, a Heineken é a marca de cerveja preferida dos brasileiros. Essa trajetória não é só uma história de persistência; é uma demonstração de que o global pode educar o mercado desde que o mercado local tenha espaço para reagir, resistir e, eventualmente, ser conquistado de verdade.

Mas a Heineken aprendeu também a escutar. Cecília identifica que o Brasil está num momento em que não apenas adota tendências globais, ele as antecipa. A empresa detectou que os brasileiros querem cada vez mais sair, socializar, encontrar pessoas, mas sem perder o controle da própria saúde. A partir dessa leitura de comportamento, o Brasil foi escolhido como mercado de estreia global da Heineken Ultimate, uma cerveja com menos calorias, sem glúten e com menor teor alcoólico. O país que antes era o alvo agora é o ponto de partida.

Na Amazon, a lógica é estruturalmente parecida, mas chega por outro caminho. Varejo, explica Camila, exige conexão radical com o local. Pagamento parcelado, PIX, o peso dos creators na decisão de compra: tudo isso não é particularidade cultural a ser tolerada. É inteligência de mercado a ser dominada e, quando possível, exportada. O projeto de entrega em 100% das favelas de São Paulo e do Rio, em parceria com a Favela Log, é hoje referência para outros países com desafios logísticos semelhantes. O que foi solução de contexto virou modelo de escala.

Marketing como bússola em tempos de transformação acelerada

Cecília citou em cena uma expressão que resume o momento: “a partir de agora, vivemos em beta.” As coisas mudam rápido demais para que qualquer empresa espere ter todas as respostas antes de agir. Nesse ambiente, o marketing deixa de ser área de comunicação e passa a ser vetor de direcionamento estratégico. É o marketing quem lê o pulso do consumidor em tempo real, quem mapeia tendências antes que virem consenso, quem adverte a empresa sobre o risco de se tornar obsoleta enquanto ainda há tempo de agir.

Camila reforça: o marketing da Amazon Brasil é parte da área de negócio, não um departamento separado. A lógica é clara: amplificar uma experiência ruim é pior do que não amplificar nada. Por isso, o marketing funciona como espelho do estado real da operação. E como advogado interno do cliente brasileiro em fóruns onde o Brasil não estaria representado de outra forma.

Ambas as executivas convergem num ponto: a marca não pode ser coerente no global e incoerente no local. A costura entre esses dois mundos é precisamente o que o marketing precisa fazer. Não trair a identidade global, mas também não aplicá-la de forma cega onde ela não ressoa.

Posicionamento com escolhas reais, não com consenso seguro

Um dos momentos mais densos da conversa veio quando Cecília falou sobre a Amstel e a Parada do Orgulho. A marca mantém o patrocínio há oito anos, e este ano foi mais intensa do que nunca na temática de inclusão. A campanha com um casal de mulheres e uma filha gerou, sim, haters, mas o volume de afeto foi tão expressivo que o negativo foi contido. A lição que Cecília tira disso é direta: marcas que tentam não desagradar ninguém acabam não conquistando ninguém. Posicionar-se com convicção gera lovers suficientes para absorver os críticos.

Camila chega a uma conclusão paralela pelo lado da escuta direta: nenhum relatório substitui a voz do cliente. Jeff Bezos deixou registrado que, quando os dados dizem uma coisa e o cliente diz outra, acredite no cliente. A Amazon leva consumidores para dentro do escritório, visita suas casas, escuta ligações do SAC. Não como exercício simbólico, mas como fonte primária de estratégia. Tirar qualquer proxy entre a marca e o cliente real é, para Camila, o conselho mais importante que ela poderia dar a qualquer empresa que queira crescer sem perder a alma.

O que esse painel diz para quem lidera organizações no Brasil

O Brasil está deixando de ser o mercado que absorve e passando a ser o mercado que gera. Isso muda a posição de negociação de qualquer CMO com a sua sede global. Muda o argumento que se usa internamente. E muda, fundamentalmente, a mentalidade com que se pensa o crescimento: não mais como adaptação de um modelo externo, mas como construção de algo que só pode nascer daqui.

Marcas que entenderam isso não apenas sobrevivem à complexidade do Brasil. Elas a transformam em vantagem competitiva.

✦ Aprendizados que ficam
  • O Brasil é hoje um laboratório global de comportamento do consumidor: quem soube ouvir o mercado local está exportando soluções, não importando modelos.
  • Em um ambiente de transformação acelerada, marketing se torna vetor estratégico de crescimento e antídoto contra a obsolescência da marca.
  • Posicionamento exige escolhas reais. Marcas que fogem do desconforto de se posicionar perdem a chance de construir lovers. E são os lovers, não a ausência de críticos, que sustentam uma marca no longo prazo.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 51 · GrowthSummit · Resiliência · AltaPerformance · Esporte
🔥 Destaque

A faixa preta nunca é o fim: o que duas lendas do esporte ensinam sobre viver em alto rendimento

Fernanda Keller
Fernanda KellerTriatleta & Fundadora · Instituto Fernanda Keller
Kyra Gracie
Kyra GracieFaixa-preta · Gracie Kore

Quando eu comecei, falaram que o Ironman não combinava com as mulheres. Ninguém queria casar comigo. Era muito discriminado.

A frase é de Fernanda Keller, seis vezes entre os dez melhores do mundo no Campeonato Mundial de Ironman, pioneira do triatlo no Brasil e fundadora de um instituto social que atende 700 crianças. Do outro lado do palco, Kyra Gracie, primeira mulher faixa-preta da família que inventou o jiu-jitsu, ouvia e completava: ela também escutou, por anos, que nenhum aluno pagaria para aprender com uma mulher. Nenhuma das duas pediu licença. As duas construíram legado.

No palco do Web Summit Rio 2026, mediadas pelo jornalista Marcelo Barreto, Fernanda e Kyra não vieram falar de vitórias. Vieram falar do que vem antes delas.

Propósito antes da fama: o like não estava no plano

Há um dado de contexto que muda tudo na leitura da trajetória dessas duas atletas: quando elas começaram, ser atleta não era cool. Não havia audiência construída nas redes, não havia patrocinadores brigando pela associação de imagem, não havia palestrantes de alta performance lotando auditórios corporativos. “Na minha época, não era bonito”, disse Fernanda. “Não ganhava like. Nenhum like.”

Esse detalhe importa muito para quem lidera organizações hoje. Fernanda e Kyra não construíram resiliência porque o ambiente recompensava isso. Construíram porque o propósito era anterior ao reconhecimento. A pergunta que fica para qualquer executivo é incômoda: o quanto das decisões da sua empresa, e das pessoas dentro dela, ainda dependem do like para acontecer?

Num mundo corporativo obcecado por métricas de visibilidade e validação imediata, as duas atletas representam um modelo oposto: fazem o que fazem porque é a essência delas, independente do aplauso. “Eu nunca fui lutar para que as pessoas me filmassem”, disse Kyra. “Eu fui lutar e comprei uma briga.”

Frustração não é sinal de erro: é o método

A maior provocação da conversa não veio embalada em euforia. Veio numa frase quase técnica, dita por Kyra com a precisão de quem treinou o pensamento tanto quanto o corpo: “Saber lidar com a frustração é onde a gente forma a resiliência.”

O raciocínio é direto, mas raramente praticado. A frustração, segundo ela, está presente em tudo que vale a pena fazer. Não é exceção, é constante. Quem desiste diante dela tende a concluir que escolheu o caminho errado. Quem aprende a atravessá-la descobre que estava no caminho certo o tempo todo.

Saber lidar com a frustração é onde a gente forma a resiliência.

“Quando você acredita em si mesmo, os desafios ficam mais fáceis, porque você sabe que já passou por poucas e boas e sabe lidar com essa frustração”, completou. O processo é cumulativo: cada vez que você atravessa uma frustração sem desistir, a próxima fica um pouco menos paralisante. Não porque o obstáculo diminuiu, mas porque você cresceu.

Para líderes, a aplicação é imediata. Culturas organizacionais que tratam o erro como fracasso, e não como dado de aprendizado, cortam pela raiz exatamente o mecanismo que constrói resiliência. Proteger as equipes da frustração não é cuidado: é o oposto.

Adaptar-se é estratégia. Mas só funciona quando há amor no que você faz

Fernanda Keller completou o Ironman Brasil semana passada. Doze horas de prova. Seis décadas de vida. E uma observação que resume muito: “Eu tenho que me adaptar. Se eu quero falar com você, que tem 20 ou 30 anos, eu não tenho que falar o que eu quero. Eu tenho que me adaptar para que você consiga me escutar.”

A adaptação, para ela, não é rendição. É inteligência. É o mesmo princípio que usou para competir respeitando o próprio corpo em vez de forçá-lo a performar como aos 30 anos. E é o mesmo princípio que Kyra aplicou ao sair do tatame, enfrentar câmeras, abrir uma empresa e se tornar palestrante, cada etapa exigindo vestir, nas palavras dela, “a faixa branca de novo”.

Mas as duas foram enfáticas num ponto que impede a adaptação de virar apenas pragmatismo frio: ela só funciona de verdade quando está a serviço de algo que você ama. “Fazer tudo com muito amor”, disse Fernanda. “Não tem nada mais potente que essa energia. Você escolher uma coisa que faz com amor. Vai se destacar.”

No contexto corporativo, isso traduz uma tensão que muitos líderes conhecem bem: a empresa que se adapta só para sobreviver costuma perder a alma no processo. A que se adapta para continuar sendo fiel ao que acredita, encontra no movimento a própria força.

Quando você acredita em si mesmo, os desafios ficam mais fáceis, porque você sabe que já passou por poucas e boas e sabe lidar com essa frustração

A faixa preta como metáfora de vida

Há uma frase que Kyra disse quase de passagem, mas que ficou suspensa no ar do auditório: “A vida é estar sempre buscando a faixa preta.”

É uma imagem poderosa porque inverte a lógica do destino. No jiu-jitsu, a faixa preta não é o fim, é uma referência em movimento. Quem a conquista sabe que há mais a aprender. O valor não está em chegar, está em estar sempre em busca.

Num mundo corporativo que pressiona por resultados imediatos, por crescimento trimestral, por visibilidade constante, essa mentalidade é quase subversiva. E talvez seja exatamente por isso que auditórios cheios de executivos estejam prestando atenção em atletas: porque elas praticam, há décadas, aquilo que o mundo dos negócios ainda tenta aprender a nomear.

O otimismo que Fernanda e Kyra descrevem não é ingenuidade. É uma escolha ativa de encarar cada novo desafio como uma prova que vale a pena completar, mesmo quando as pernas tremem e o resultado não está garantido.

✦ Aprendizados que ficam
  • Propósito antecede reconhecimento: construir algo sólido exige agir antes do aplauso, não por causa dele. Organizações e líderes que dependem da validação externa para sustentar o movimento estão edificando sobre areia.
  • A frustração é o método, não o obstáculo: culturas que eliminam o atrito eliminam junto o mecanismo de formação de resiliência. Aprender a atravessar frustrações, e ajudar equipes a fazer o mesmo, é uma das competências mais estratégicas de qualquer liderança.
  • Adaptar-se com amor é diferente de adaptar-se por pressão: a capacidade de se reinventar só gera resultados duradouros quando está conectada a um propósito genuíno. Adaptação sem amor é sobrevivência. Com amor, é evolução.
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Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
ARTIGO 52 · GrowthSummit · AltaPerformance · Consumo · Mentalidade
🔥 Destaque

“Eu Queria Ser Grande”: O Que Rebeca Andrade Ensina Sobre Tetos que o Mundo Cria e Atletas que os Ignoram

Rebeca Andrade
Rebeca AndradeMedalhista Olímpica de Ouro

Eu queria permanecer, eu queria ser grande, eu queria ser maior.

Rebeca Andrade disse isso ao descrever o momento, aos 10 anos, em que decidiu sair de casa para treinar ginástica. Sem dinheiro para o ônibus, sem certeza do futuro, com a consciência nítida de que onde estava não era o lugar que queria. Essa frase, aparentemente simples, contém uma das lições mais relevantes para quem lidera organizações de consumo num país de desigualdades estruturais: o teto que o mundo impõe raramente corresponde ao teto que uma pessoa aceita para si mesma.

A maior medalhista olímpica da história do Brasil, com dois ouros, três pratas e um bronze, esteve no Web Summit Rio 2026 numa conversa conduzida pelo antropólogo e estrategista cultural Michel Alcoforado, fundador da Consumoteca. A sessão, patrocinada pelo Itaú Unibanco e ancorada em uma pesquisa com mais de 5 mil brasileiros, se revelou muito mais do que um bate-papo inspiracional: foi uma aula sobre como ambição, planejamento e autonomia operam juntos na construção de uma trajetória de alta performance, dentro e fora do esporte.

Querer ser grande quando o ambiente diz o contrário

Rebeca cresceu em uma família periférica, filha de uma mãe que criou sete filhos sozinha. O ambiente não oferecia margem para grandes apostas. Mas algo em Rebeca operava em outra frequência. “Mesmo vindo do lugar de onde eu venho, eu sempre sonhei muito grande. Sempre sonhei muito alto. Eu queria alcançar muitas coisas.”

Para executivos de varejo e consumo, essa declaração merece atenção cuidadosa. O consumidor brasileiro que protagoniza o próximo ciclo de crescimento do setor não é apenas aquele que ascendeu economicamente. É aquele que, como Rebeca, desenvolveu uma relação com a ambição que precede a estabilidade material. Ele não espera ter para querer. Ele quer primeiro, e vai atrás dos meios depois.

O que significa isso para marcas e varejistas? Significa que o desejo de “ser maior” é um motor independente da renda. Estratégias que subestimam a aspiração dos consumidores

de classes C e D porque “o orçamento é limitado” estão lendo mal a equação. O teto financeiro e o teto de desejo são coisas distintas, e confundir os dois é um erro competitivo.

Planejamento como tecnologia de realização

A segunda camada da conversa foi sobre como Rebeca transformou sonhos em planos concretos. E aqui a mensagem foi inequívoca: planejamento não é burocracia, é o mecanismo que converte ambição em realidade.

Mesmo vindo do lugar de onde eu venho, eu sempre sonhei muito grande. Sempre sonhei muito alto. Eu queria alcançar muitas coisas.

“Por mais que uma coisa ou outra saia do lugar, quando você tem noção das coisas que estão acontecendo, quando você tem clareza de tudo que tá escrito, você não vai se sentir perdido pra tomar a sua decisão.” Ela comprou o próprio apartamento. Depois, a casa da mãe. Cada conquista foi resultado de uma ordem de prioridades construída com intencionalidade, com a orientação de um consultor financeiro e com a disciplina que o esporte de alta performance ensina desde cedo.

O paralelo para o varejo é direto: o consumidor brasileiro está ficando mais sofisticado na gestão do próprio dinheiro. A pesquisa do Itaú apresentada na sessão mostrou que 78% dos brasileiros já se sentem confortáveis falando sobre dinheiro, contra uma cultura histórica de tabu. E os quatro pilares que eles mais valorizam hoje são controle, resiliência, liberdade de escolha e planejamento. Não é um consumidor impulsivo. É um consumidor que está aprendendo a planejar o próprio prazer, a decidir quando gastar e quando guardar.

Varejistas que ainda apostam exclusivamente no impulso estão disputando um consumidor que está, aos poucos, deixando de ser esse.

Autonomia como valor inegociável

O terceiro fio condutor da conversa foi a autonomia. Quando Michel Alcoforado perguntou o que Rebeca jamais delegaria, a resposta foi precisa: o limite do próprio corpo e as decisões de investimento. “A resposta final sempre vai ser a minha.”

Esse posicionamento não é rigidez. É o reconhecimento de que certas decisões definem identidade. E no campo do consumo, esse insight tem peso estratégico real. O consumidor que chegou a um patamar de escolha consciente, como Rebeca descreve, não quer que a marca decida por ele. Ele quer ferramentas, informação, contexto. Quer ser assistido, não substituído. A própria pesquisa apontou que dois em cada três brasileiros acreditam que a inteligência artificial pode ser uma boa assistente nas finanças pessoais, mas como piloto de apoio, não como piloto automático.

A resposta final sempre vai ser a minha.

Para marcas que estão construindo experiências de compra, de fidelização, de personalização: o cliente de maior valor não é o mais dependente. É o mais autônomo e consciente, que escolhe você porque quer, não porque não sabe o que mais fazer.

O que líderes de consumo podem levar daqui

Rebeca Andrade não foi ao Web Summit falar sobre ginástica. Foi, no fundo, demonstrar o que acontece quando alguém recusa o teto que o mundo construiu para ela. E essa recusa,

longe de ser excepcional, é cada vez mais o padrão do consumidor brasileiro que vai liderar o próximo ciclo de demanda do setor.

O executivo que sai dessa sessão com apenas uma pergunta já está à frente: quais tetos minha marca está, sem querer, reforçando para o consumidor que quer ser grande?

✦ Aprendizados que ficam
  • Ambição precede renda: o consumidor brasileiro de maior potencial já sabe o que quer antes de ter como. Marcas que só falam com quem “pode” estão perdendo quem vai poder.
  • O consumidor está aprendendo a planejar o próprio prazer: os pilares de controle, resiliência, liberdade de escolha e planejamento definem uma nova relação com o dinheiro, e quem vende experiência precisa respeitar essa gramática.
  • Autonomia não é obstáculo, é o produto: o cliente mais valioso é aquele que escolhe conscientemente. Construir para a autonomia dele é construir para a fidelidade dele. ---
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
Web Summit Rio 2026 · Curadoria By FFX
✦ Números & Estatísticas
Pesquisa Itaú Unibanco com mais de 5 mil brasileiros, abrangendo 20 mil “estados” (unidades de análise).
78% dos brasileiros já se sentem confortáveis ou sem desconforto relevante para falar sobre dinheiro.
2 em cada 3 brasileiros acreditam que a inteligência artificial pode ser uma boa assistente na gestão financeira pessoal.
Rebeca Andrade: 2 medalhas de ouro, 3 de prata e 1 de bronze olímpicas, maior medalhista olímpica do esporte brasileiro.
ARTIGO 53 · AISummit · GrowthSummit · Branding · Comunidade
🏆 Esporte

Ligado ou desligado: como a On Running transformou a intencionalidade em sistema de marca

Alexandre Martinez
Alexandre MartinezHead of Marketing Brasil · On

Quando você coloca o tênis, você está ligado.

A frase não é um slogan. É a explicação literal do logo da On. O símbolo da marca, ao contrário de toda concorrência, é vertical, não horizontal. E aquele tracinho que muita gente lê como uma aba de boné? É um interruptor europeu. Uma escolha propositalmente disruptiva que diz, já na identidade visual, que esta não é mais uma marca de performance. É um sistema com intenção declarada, de ponta a ponta.

Foi com essa história que Alexandre Martinez, Head of Marketing Brazil da On, abriu sua participação no Web Summit Rio 26. E ela serve como metáfora perfeita para o que o executivo veio explicar: na On, nada é acidente. Cada decisão, do solado ao embaixador, segue uma lógica de intencionalidade que poucas marcas conseguem sustentar com coerência.

Inovação como ponto de partida, não como diferencial

A On nasceu de uma dor física. Olivier, co-fundador e ex-atleta, sofria de inflamação no tendão de Aquiles e não encontrava produto no mercado que resolvesse seu problema. Cortou uma mangueira e colou no solado de um tênis concorrente. Correu. Disse que se sentiu “nas nuvens.” Levou a ideia para diversas marcas, incluindo a que calçava. Todas recusaram. Uma chegou a amar a tecnologia mas devolveu os protótipos sem fechar negócio, e proibiu que ele ficasse com os testes.

O resto, como disse Martinez, é história.

Hoje, o CloudTec, tecnologia de amortecimento da marca, está embarcado em tênis fabricados em 33 minutos por braços robóticos com inteligência artificial. A fábrica recém-inaugurada na Coreia do Sul tem mais de 30 robôs na linha de produção. O modelo mais leve pesa menos de 155 gramas. A IA não é pauta de keynote na On. É infraestrutura.

A lição não é sobre tecnologia em si. É sobre encontrar um território não ocupado, um problema real sem solução no mercado, e constroí-lo com rigor. “Entender qual é o seu real diferencial faz a diferença”, disse Martinez. Parece óbvio. Não é.

A pirâmide de influência que não começa pelo topo

a sua influência está no seu amigo do lado. Às vezes a pessoa nem sabe quem é o campeão da Maratona de Nova Iorque, mas ela sabe quem é o amigo do lado.

O João Fonseca está no ecossistema da On. Também está a maratonista amadora mais rápida do Brasil, Laina Richmond, que provavelmente seria profissional se o mercado tivesse espaço para ela. E está o corredor anônimo que treina às quintas e cujo tempo no Strava importa mais para seus colegas de grupo do que o resultado de qualquer maratona de Nova York.

Martinez explicitou a arquitetura: atletas de alta performance testam produto, desenvolvem tecnologia e geram brand awareness. O nível intermediário são os influenciadores autênticos, pessoas que vivem o esporte com genuinidade. E no base da pirâmide está a comunidade orgânica. A lógica, para quem entende de corrida, faz todo sentido: “a sua influência está no seu amigo do lado. Às vezes a pessoa nem sabe quem é o campeão da Maratona de Nova Iorque, mas ela sabe quem é o amigo do lado.”

A On não trata essa pirâmide como funil. Trata como sistema. Cada camada alimenta as outras. O atleta de elite dá credibilidade técnica. O amador autêntico dá identidade cultural. A comunidade dá tração real. E a marca, deliberadamente, não força a narrativa em nenhuma das três.

Isso inclui a diversidade dos próprios esportes: tênis com João Fonseca, atletismo com Leandro Doro, judô e surfe. No Brasil, misturar relevância cultural com a miscigenação esportiva do país não é estratégia de diversidade. É condição para existir.

Não interrompa o que já existe

Este foi, talvez, o aprendizado mais denso da sessão. E Martinez o trouxe não de uma campanha da On, mas de sua passagem anterior pela Riot Games, onde era responsável por patrocínios do Campeonato Brasileiro de League of Legends.

A grande queixa da comunidade de videogame é que não interrompa. Então, dentro do meu universo, você não faz sentido, mesmo que você seja uma marca não idêntica.

“A grande queixa da comunidade de videogame é que não interrompa. Então, dentro do meu universo, você não faz sentido, mesmo que você seja uma marca não idêntica.” A transferência para o universo do esporte é direta. Comunidades, sejam de corredores, tenistas ou gamers, já têm uma narrativa em movimento. Marcas que chegam com posicionamento imposto, com campanha sobreposta à cultura, perdem relevância antes de ganhá-la.

A On age diferente. Em vez de patrocinar eventos e colocar banners, busca “implementar uma textura local.” Um exemplo dado: aproximação recente com um curso de dança numa virada cultural, criando uma plataforma que mistura movimento, corrida e artes. Um território que outras marcas de esporte ainda não habitam.

“Fazer parte da conversa. Entender quem você é naquele espaço. E participar disso de modo a ter cada vez mais espaço de fala.” Essa é a definição que Martinez dá de relevância cultural. Não é share of voice. É share of belonging.

Em 16 anos, a On saiu de startup para empresa multibilionária. A curva foi rápida porque o território estava disponível, o produto era real e a comunidade foi tratada como fim, não como meio.

Para marcas que ainda confundem ativação com imposição, a On entrega um modelo que vale mais do que qualquer estudo de caso: intencionalidade não é conceito. É decisão. Tomada em cada detalhe, desde o logo.

✦ Aprendizados que ficam
  • Intencionalidade é um sistema, não um posicionamento . Na On, ela começa no logo, atravessa a engenharia suíça, organiza os embaixadores e define as ativações. Quem não constrói essa coerência de ponta a ponta entrega apenas estética.
  • A influência real vive no nível intermediário. Atletas de elite constroem credibilidade, mas a decisão de compra é movida pelo par ao lado. Marcas que investem só no topo da pirâmide perdem o jogo no base.
  • Não interrompa comunidades. Impor posicionamento onde já existe narrativa orgânica é a forma mais cara de perder relevância. Entre, entenda, contribua. Relevância se conquista com presença, não com volume.
◈ Curadoria FFX
Arthur Graziadio
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